Laerte – Foto: Divulgação

Para exercer o trabalho de cartunista, é preciso estar atenta. “Ou é fácil ou é impossível, disse Paulo César Pereio certa vez”, relembra Laerte Coutinho. Aos 69 anos, ela segue alimentando o cérebro, mantendo-se informadíssima com leitura, filmes e com o noticiário em dia, linha tênue entre trabalho e lazer.

Sabe que essa é a fonte de onde extrai o que sabe fazer de melhor: sintetizar a realidade sob a ótica do humor, sempre com um sarcasmo peculiar, que se tornou sua marca nestes 50 anos de profissão. Seus cartoons começam e terminam na sua maneira própria de enxergar o mundo. “Comecei a fazer análise, mas não foi muito para a frente. Em uma das primeiras sessões, a analista me falou: cuidado, isso aqui não é história em quadrinhos”, recorda. “É muito fácil dar esse tipo de derrapada.”

Laerte tinha 57 anos quando deu uma grande reviravolta em sua vida, ao aderir ao crossdressing. Superou preconceitos e se tornou uma ativista da transsexualidade. Há 10 anos, levou a público seu processo de transição de gênero e, sem amarras, levanta bandeiras sobre questões LGBTQIA+. “Elas estão sob a mira do conservadorismo e do fanatismo religioso. Isso é bem grave”, alerta.

Mas não são suas únicas angústias. “Me preocupam as questões ambientais, dos indígenas, o modo como o País está sendo devastado por esse governo, que eu considero abertamente fascista.” Mas nem isso enfraquece o seu humor. “O riso é uma forma sofisticada de cultura. Nunca deixa de ser praticado, mesmo quando está sob o impacto de uma coisa muito grave, como a pandemia ou a destruição do Meio Ambiente.”

É ao lado da gatinha Muriel, felina que já foi musa inspiradora, que ela passa os dias de isolamento em São Paulo, onde nasceu. “A Organização Mundial de Saúde recomenda gato na quarentena”, ri. É sério? “Claro que não. Acha que a OMS tem uma portaria?”, ironiza.

Mas essa é uma ótima forma de não se sentir só, já que a família, ela só encontra nas videoconferências. Sai bem pouco de casa nesses tempos pandêmicos. Vai ao supermercado, mas não se considera uma dona de casa exemplar. “Sou compreensiva com meus erros”, diz. “Na cozinha, sou minha própria crítica. Tenho me dado notas interessantes e isso não é muito bom”, gargalha.

Na fronteira dos 70 anos, Laerte segue afiadíssima e sempre atual. Mas, confessa, teme um dia ver os reflexos motores irem embora. Gostaria de trabalhar até enquanto tiver vontade – e não parece que a tal vontade pretende ir-se embora tão cedo. “Sinto as minhas capacidades mais ou menos íntegras. Fico mais cansada, não tenho trabalhado de varar a noite para produzir não sei quantas páginas, já não é uma coisa que faça com muita facilidade”, explica.

Apesar disso, a idade não é algo que fica martelando em sua cabeça jovem. “Quando se passa dos 60, qualquer 10 anos é um período curto. Uma década deixa de ser o que era. Me pego pensando: em 2004, aconteceu tal e tal coisa. Parece que foi ontem…É muito papo de velho: nossa, já passou isso tudo?”. Passou, e Laerte segue mais inspiradora do que nunca.