Leticia da Hora – Foto: Wilton Junior

Ajudar, ajudar e ajudar. Esse é o pensamento de Leticia da Hora, criadora do movimento Mulheres da Parada, que visa a providenciar alimentos e qualificação profissional a mulheres em vulnerabilidade e suas famílias. Voltado prioritariamente a mães solo, negras ou não, a ideia é a de promover a reconquista da autoestima por meio de ações sociais. Talvez você a conheça da televisão, afinal, Leticia, a fim de conseguir um dinheiro a mais para a entidade, participou do programa “The Wall”, do “Domingão do Huck”, mas de onde, infelizmente, saiu zerada, ou seja, não conseguiu um tostão de ajuda porque foi vencida pela cruel parede da atração.

Apesar disso, Leticia – que é casada com o ator Leandro Firmino, de “Cidade de Deus, e  tem dois meninos, Luis Miguel, 10 anos, Levy, 4 -, não desiste, e aposta que suas divulgações nas redes, assim como matérias na mídia, ajudarão a conquistar o objetivo de atender mensalmente 250 famílias, hoje são 150. 

Formada em publicidade e propaganda, não encontrou nenhum estágio em sua área, chegou até a pensar em cursar outra faculdade, mas foi em cursos paralelos que ela se encontrou. “Não consegui estágio em agência de publicidade nenhuma. Esse mercado de trabalho e muito fechado, para a gente que vem de periferia é mais complicado ainda”, conta.

Foi em um curso de audiovisual, no Cinema Nosso, voltado a despertar o senso crítico, que ela se encontrou. “Pensei que era o que eu gostaria de fazer na vida. Atuei em outras ONGs também da favela e participei de um projeto chamado Escola Popular de Comunicação Crítica, e participei de uma campanha chamada Juventude Marcada Para Viver, que é sobre a ocorrência letal contra jovens e adolescentes negros. Foi quando eu me encontrei, descobri que era com isso que eu queria trabalhar, atuando com periferias, favelas e processos de desenvolvimento comunitário.”

Ela sempre teve vontade de fazer algo por seu território, um projeto, uma ONG, para ajudar a comunidade. Com o evento da pandemia, ela já estava mudando o rumo de sua trajetória profissional, pediu desligamento da empresa em que estava, e, durante o isolamento, teve de dar uma pausa em tudo o que projetara para seu futuro. “Durante a quarentena, eu vi as necessidades das pessoas onde eu moro, da comunidade, que se chama Parada São Jorge e fica em Sacramento, São Gonçalo, então eu vi as vulnerabilidades e mazelas da periferia muito de perto. Comecei a ver as pessoas passando fome, porque por conta do isolamento, não podiam trabalhar, e sem trabalhar não tinham dinheiro, e se não tinham dinheiro, não tinham como comprar alimento, essa é a realidade das pessoas, pelo menos aqui onde moro. E essas pessoas trabalham de forma informal”, relata. 

Observando isso, ela começou a mobilizar a sua  rede de familiares e amigos para poder ajudar pessoas. As vizinhas, vendo ação dela  começaram também a colaborar. “A gente ia de porta em porta trocando máscaras por alimento e conseguindo mais e mais comida para doar. E assim começou o movimento Mulheres da Parada. Hoje estamos em processo de formalização para sermos uma ONG, e criamos o Mercadinho Solidário, porque vimos que a cesta básica era ineficiente, e por que ineficiente? Porque as famílias têm formatos diferentes, algumas são de três pessoas, e outras, de oito, ou seja, a cesta básica se torna incapaz de alimentar uma família maior. E no Mercadinho Solidário nós temos essa possibilidade de aumentar o número de alimentos para as famílias mais numerosas e diminuir para as menores, além de as pessoas terem a possibilidade de escolher a própria comida.” 

Mulheres da Parada – Foto: Wilton Junior

No Mercadinho Solidário há o cadastro das famílias, elas avaliam a vulnerabilidade de cada uma das famílias, e marcam um dia para que elas compareçam ao mercadinho para fazer sua retirada de alimentos, que é totalmente gratuita. “Normalmente, o membro da família responsável por vir ao mercadinho é uma mulher, na maioria das vezes, ela vem, faz a sua compra do mês e não paga nada por isso. E por que ela não paga? Porque todos os alimentos são doados, em sua maioria por pessoas físicas que se sensibilizam com a situação e ajudam”, conta Leticia. 

O Mulheres da Parada tem ainda um projeto de formação profissional e empreendedorismo que visa ao empoderamento das mulheres da periferia na área da beleza, da arte e, agora, na gastronomia. A ideia é trabalhar forte a questão da autoestima, que é muito importante, através de rodas de conversa, tudo formada por pessoas voluntárias. 

Atualmente, Leticia está formando uma equipe permanente, porque tem a necessidade de pessoas que respondam pela entidade, sobretudo na base física, que fica em Sacramento. “A maioria é formada por voluntários – as oficineiras, as pessoas que colaboram com o mercadinho, com o mutirão. No total, hoje, somos 40 mulheres, mas também temos a cota, que são dois homens que colaboram”, explica. 

No Mercadinho Solidário, elas já atenderam cerca de 250 famílias. Mas no cadastro, que atendem todos os meses, são 150, porque, às vezes, há famílias que arrumam emprego e saem do cadastro, assim como outras que entram. O certo é dizer que o Mulheres da Parada beneficia 750 pessoas de 150 famílias. 

Mas é possível alcançar mais pessoas. Para isso, elas criaram uma vaquinha online e o nosso Pix (mulheresdaparada@gmail.com). “Muitas das pessoas que passam a conhecer nosso projeto doam, tanto na vaquinha como pelo Pix. Assim seguimos trabalhando. É muito importante a divulgação para que possamos atender um número maior de famílias em vulnerabilidade”, diz Leticia.

Leticia da Hora – Foto: Wilton Junior

E os planos são de expansão do atendimento. Ela quer acrescentar às qualificações profissionais das mulheres o setor de arte e da confeitaria, além da beleza, que já tem, além do projeto Donas da Água, que trabalha com segurança alimentar e preservação do meio ambiente. “Nós plantamos comida nos quintais das casas das famílias que a gente atende, assim, o alimento fica disponível para nosso mercadinho e doação. Além de serem sem agrotóxico e totalmente naturais, trabalhamos com pancs, que são plantas alimentícias não convencionais, e sementes crioulas, que são todas as possibilidades que você tem de multiplicação de qualquer vegetal -, nós plantamos árvores e pensamos seriamente no meio ambiente”, relata. “O nosso objetivo é poder atuar e desenvolver cada vez mais esse projeto para ajudar as mulheres, prioritariamente mães solo, em sua maioria, negras ou não. Mas a maioria é negra, porque são elas que estão em maior vulnerabilidade. Mas isso não significa que não atendemos mulheres que têm companheiros.” 

O Donas da Agro e a proposta de plantar agrofloresta e hortas em São Gonçalo. Até o momento, são 1.500 m² de agrofloresta em espaço urbano, impactando 35 famílias, com plantações comunitárias e também domésticas nas casas onde havia espaço para o plantio.

Achou a ideia interessante e quer ajudar também sua comunidade? Pois bem, agora haverá um workshops, no dia 14 de amrço, para pessoas que queriam replicar o Mercadinho Solidário (incnscrições @mulheresdaparada). “Inclusive ele já foi replicado em Niterói e no Espírito Santo. Vamos ensinar desde de como fazer o cadastro às listas de compras para as famílias”, finaliza. Além disso, os workshops tratam de igualdade de gênero, racial, direito reprodutivo, violência doméstica, sempre de forma lúdica e acessível às mulheres atendidas. Que tal participar?