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Mulheres que Inspiram: Mariana Cobra assina documentário e vence o Emmy Kids Awards

Mariana Cobra – Foto: Divulgação

Vencedora na categoria “Factual” da edição 2020 do Emmy Kids Awards, a diretora Mariana Cobra assina o documentário “Nosso Sangue, Nosso Corpo”. A obra fala sobre a relação de cinco jovens mulheres (entre 13 e 19 anos) do Brasil, da Argentina, da Índia e da África do Sul, mostrando que, apesar de serem de culturas diferentes, enfrentam problemas semelhantes pelo simples fato de serem mulheres e suas experiências individuais e sociais com a menstruação.

O trabalho foi filmado nestes países durante seis meses. “Mesmo a geração Z sendo mais conectada e esclarecida sobre corpo e gênero, a menstruação continua sendo um tabu. Me surpreendeu perceber que todas tiveram uma primeira vez marcante”, conta Mariana.

Mariana é a personagem de hoje da coluna “Mulheres que Inspiram”. Leia na íntegra:

Quando descobriu vocação para ser cineasta?

Quando estava com uns vinte e poucos anos me conectei muito com todas as temáticas sobre direitos humanos. Buscar uma mudança na sociedade passou a fazer parte da uma busca pessoal. Sempre fui extrovertida, interessada por pessoas e suas histórias. Morei em Copenhagen por dois anos onde conheci um documentarista que mudou minha vida já que seu trabalho retrata temas de impacto social. Senti que era o que queria fazer na minha vida. De volta ao Brasil, comecei a me conectar com o mercado audiovisual, onde comecei minha trajetória. A vocação foi se desenvolvendo conforme eu fui cada vez mais me interessando em ser uma realizadora. A obsessão com certos temas ou histórias te faz ir adiante, a vocação para mim vem daí, da necessidade de contar histórias e da certeza de que essas histórias podem criar outras referências nesse mundo.

Como começou a sua carreira?

Comecei trabalhando com produção de elenco e, na primeira vez que entrei em um set de filmagem, tive certeza de que queria dirigir. Foi uma escola muito linda, entender personagens, atores, buscar perfis reais para alguns projetos, acredito que esse percurso me deu muita força para seguir adiante. Depois de 2 anos trabalhando com elenco fui para equipe de direção onde trabalhei com diversos diretores e projetos. Aprendi muito observando erros e acertos. Naqueles tempos era raro trabalhar com diretoras mulheres, por isso difícil imaginar como seria essa carreira. Mesmo assim segui adiante e, durante intervalo de projetos, comecei a dirigir meus próprios filmes.

Cena do documentário – Foto: Divulgação

Quais os maiores desafios para fazer cinema no Brasil?

Os maiores desafios são de financiamento e depois a distribuição. A rede do Fundo Setorial estava bem desenhada mas nos últimos tempos voltou a privilegiar grandes produtoras. Com o atual governo enfrentamos um momento complexo, muitos programas extintos além de uma censura de temáticas “polêmicas” entre outras medidas que apagam a produção nacional. Um momento muito difícil para o cinema.

Quais são seus cineastas favoritos?

Anna Muylaert, Lucrécia Martel, Agnes Vardá, Chantal Akerman e Sofia Coppola. Cada uma delas tem um olhar que me comove de distintas maneiras e também temáticas em seus filmes que me interessam.

Já enfrentou preconceito por ser cineasta mulher?

Muito. Em projetos, no set, de maneiras distintas por homens e também por mulheres. Eu não conheço uma cineasta que não tenha enfrentado casos de assédio moral, negociação inferior, mansplaining…e bropriating que é o mais comum. Trata-se de uma longa luta.

Cena do documentário – Foto: Divulgação

Como surgiu a ideia de fazer esse documentário?

O documentário foi um convite da antiga FOX lab (agora Disney Creative) a pedido da Sempre Livre, buscavam fazer um projeto sobre a Geração Z e para ela entender como o assunto é ou não ainda um tabu. Fiquei muito feliz já que pessoalmente minha primeira menstruação foi um processo muito doloroso, entender a mudança de rotina e no corpo, além de ser mais um tabu atual que enfrentamos. Acho importante marcas se posicionarem e somarem na discussão do tema. Me pareceu um projeto urgente, principalmente depois de algumas pesquisas constatar que sim, o tema é presente.

Como foi ganhar um prêmio tão importante como o Emmy kids?

Em tempos de pandemia ganhar esse prêmio foi como uma luz no fim do túnel, uma alegria e certeza que estamos no caminho certo. Ter o reconhecimento de um projeto que trata de um tema pouco abordado é muito importante, ajuda também na busca de seguir desenvolvendo projetos que tratem de tabus que envolvem o corpo feminino.

Já sabe o tema da sua próxima produção?

O padrão de beleza na América Latina é um tema que venho investigando há 5 anos, onde nasceu meu projeto de fotos “DIVINAS”, uma série que pretende retratar a beleza real das mulheres na nossa região. Meu objetivo é somar outras referências para as mulheres, nunca conheci nenhuma que estivesse feliz com seu próprio corpo. Por isso, contar histórias que possam inspirar e ajudar a criar novas referências é minha busca nesse próximo documentário que espero realizar o mais breve possível. Em tempos de isolamento social seguir na reflexão sobre nosso corpo me parece muito interessante.

Assista:

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Carol Hungria @carolhungria