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“Você não precisa de mil rituais, cristais ou incensos. Ser bruxa está além da estética. É algo que já vem dentro de nós. É ser o que sempre fomos: livres”. Palavras da “bruxa” Mirella Floren, paulistana de 33 anos, que encanta seus fiéis seguidores na vida e no Instagram ao disseminar uma de suas paixões: as cartas do tarô.

E quem resiste a uma consulta aos arcanos? Do psicanalista suíço Carl Jung (1875-1961), para quem o tarô é um dos grandes espelhos do pensamento inconsciente, ao pintor espanhol Salvador Dalí (1904-1989), que se retratou como um dos arcanos maiores, O Mago, a imagem arquetípica encanta legiões com seus significados e mensagens.

Para Mirella, cada carta do Tarô de Marselha (entre seus preferidos) é uma representação das diferentes etapas da jornada do indivíduo rumo à transformação: uma ferramenta para entender sobre nós mesmos, sobre história, crenças e culturas.

Hoje, ele é objeto de sua fascinação, pesquisa e, claro, de seu trabalho. “A primeira vez que tive contato com o tarô foi aos 14 anos, mas todo esse universo esotérico sempre esteve presente na minha vida. Lembro que, ainda adolescente, lia sobre wicca e queria ser uma superbruxa quando crescesse.”

A influência da avó benzedeira, ela acredita, a ajudou a se tornar uma pessoa ainda mais sensível: “Cheguei a frequentar uma escola para fazer desenvolvimento mediúnico e confiar mais na intuição”. Mirella teve incursões pelo mundo do design e chegou a trabalhar como colorista em um salão por oito anos, até se render exclusivamente à consulta das cartas.

Antes da pandemia, atendia presencialmente em casa e online. Depois de um tempo, conseguiu um espaço exclusivo para profissionalizar mais seu atendimento, mas veio o confinamento e a taróloga teve de se adaptar ao novo mundo. “Voltei a atender em casa, mas de maneira remota, o que me deu mais tempo para focar em outro projeto que eu queria muito: dar aulas.”

Ela se diz atraída tanto pela simbologia, quanto pela história que o tarô passou até se tornar o que é hoje. E, mais ainda, pelas infinitas possibilidades de uso e de narrativas. “É uma ferramenta muito versátil, contempla desde áreas voltadas ao esoterismo até estudos de psicologia e psicanálise”, diz Mirella.

Não basta ser bruxa. De fato, o tarô tem um lado adivinhatório, mas é preciso ser um pouquinho psicólogo para entender os aconselhamentos que ele dá. “Respeito muito os profissionais da área e tenho a plena noção de que não posso me colocar em uma posição de diagnosticar ninguém. Tanto que deixo muito claro para meus consulentes que não influencio de forma alguma a decisão de ninguém.
Uso o tarô para mostrar as possibilidades de escolhas dentro das situações e, quando acho necessário, indico que a pessoa resolva questões emocionais ou mentais com profissionais qualificados.”

Mirella reconhece a responsabilidade de quem lê, afinal, uma palavra mal colocada ou uma opinião não solicitada pode influenciar de forma negativa quem procura por essa ferramenta. “Eu sempre digo para meus alunos: mostrem as possibilidades, mas nunca falem para seus consulentes ‘você TEM que fazer isso'”.

E eis outro dilema: o de lidar com as expectativas de uma pessoa, mostrar que o tarô não vai resolver a vida dela, é apenas um instrumento para orientar. “Sempre deixo muito claro para quem procura meus atendimentos que nada do que o tarô mostra é escrito em pedra e que, acima de tudo, existe o livre-arbítrio.”

E como não perguntar se Mirella chegou a ler no tarô nossos percalços de 2020? “Minha análise foi a de que este ano veríamos estruturas sendo abaladas, tanto pessoais quanto sociais, e que tudo ficaria mais evidente para nós. Também analisei que seria um ano em que mais pessoas iriam atrás de um novo tipo de espiritualidade e crença”, sintetiza.

Mas, para ela, não há nada de esotérico na pandemia. “Acredito que fatores sociais causaram o que aconteceu. Nossos hábitos de consumo, nossos governos, nosso próprio comportamento em relação a situações que exigem união social. Confesso que tenho um pouco de pavor de quem fala que a pandemia veio para nos fazer evoluir, para transformar o planeta, que o plano espiritual quis nos fazer passar por isso. Muito complicado enxergar esse aspecto quando vemos a quantidade de famílias que perderam seus entes, pessoas desempregadas e afins.”

E o que as cartas preveem para 2021? “Resumindo bem: será um ano em que precisaremos trabalhar novas formas de nos relacionar, tanto conosco quanto com nossas estruturas familiares, amigos e com nosso dinheiro. Precisaremos reavaliar antigos dogmas e valores que nos foram ensinados a vida toda e entender que podemos ser tanto alunos quanto mestres, mas de forma diplomática e amorosa.” Você pode não acreditar em bruxas, mas…