Nicole Balestro é uma das gestoras do rap nacional mais conhecidas hoje em dia – Foto: Reprodução/Instagram/@nicolebalestro

“Era o rolê que eu me divertia, antes de ser o rolê que me sustenta”. Esta frase de Nicole Balestro, em entrevista à Bazaar, resume (um pouco) a personalidade e a mente de uma das gestoras musicais mais conhecidas na cena do rap nacional. Ao lado de seu sócio e ex-marido, Doncesão, Nicole gere a Ceia Ent., um selo de música independente que é expoente neste ramo musical e tem grandes nomes em seu casting, como Djonga, Kyan, Tasha & Tracie e muito mais.

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Na “pista”- como ela mesma diz – há cinco anos comandando o selo, Nicole conta que o dia a dia é um eterno aprendizado e que não se sabe tudo sempre. “É muito doido porque, nestes anos de empresa, tem coisa que aprendo até hoje, ainda. As leis da música mudam toda hora por conta da internet. Tudo é dinâmico. Vamos com glórias, com sofrimentos, mas está acontecendo”, conta via Zoom.

A rotina estressante da “chefa” mudou muito com a chegada de Don, seu filho primogênito de quase dois anos. Para Nicole, a maternidade transformou sua mente para sempre. “Depois que você tem filho, você não tem problema. Todas as dificuldades acabam sendo apenas ‘dificuldades do momento’. Isso mudou muito meu jeito de ver a vida e encarar as coisas”, completa.

Mulher, preta, graduada em Relações Públicas em São Paulo e gestora de uma empresa em pleno crescimento, ela diz que a inserção de diversidade racial, étnica e de gênero aconteceu naturalmente na Ceia. “Isso aconteceu de uma forma genuína, principalmente por eu estar ali, à frente da parte executiva. A gente quis que fosse dessa forma para mudar e fomos seguindo o curso natural das coisas”, pontua firmemente.

Leia a entrevista abaixo na íntegra em que ela fala, ainda, sobre moda como lifestyle e fator comunicacional, governo Bolsonaro, políticas públicas, trabalho na pandemia e muito mais.

Foto: Reprodução/Instagram/ @nicolebalestro

Harper’s Bazaar – Nessa coluna, a gente conta – semanalmente – a história de mulheres para inspirar outras mulheres. A Ceia é hoje um dos maiores selos de rap nacional. Como você resume sua trajetória profissional até aqui, com mais de cinco anos na estrada da indústria fonográfica no Brasil?

Nicole Balestro – Na verdade, sou formada em Relações Públicas. Comecei como RP, estagiando em agências e fui para um lado mais de publicidade. Tive uma vivência forte dentro deste meio e, em um determinado momento, fui para editorial. Já fiz freela para várias revistas como produtora. Nessa, pulei para eventos e comecei a fazer direção artística de shows. Sempre tive uma vivência na música muito forte: na minha casa, música não para. Cresci no samba porque meu pai é compositor de samba-enredo. Sempre senti necessidade de atrelar meu gosto musical junto da minha vivência profissional. Comecei a trabalhar na indústria fonográfica com a rapper Flora Mattos, ficamos alguns anos trabalhando juntas. Neste caminho, conheci o Doncesão, que é o meu sócio na Ceia Ent. e ex-marido. Quando surgiu essa ideia, estava muito bem na minha carreira como diretora artística de eventos corporativos. Fechava um job, trabalhava por dois meses, ganhava horrores e ficava dois meses descansando. Eram aquelas planilhas gostosas de R$ 4 milhões, sem sufoco de rap nacional, sabe? Era uma delícia. Mas veio a ideia de montar o selo. Obviamente, no começo, fiquei meio assustada, em partes, porque já estava estabelecida no mercado de trabalho, mas resolvemos juntar forças e montar esse negócio. Foi meio no susto, mas foi. Sinceramente falando, nem sabia o que era selo, não sabia nada. É muito doido porque, nestes quase cinco anos, tem coisa que eu aprendo até hoje, ainda. As leis da música mudam toda hora por conta da internet. Tudo é dinâmico. Vamos com glórias, com sofrimentos, mas está acontecendo.

E como foi o modus operandi da Ceia com a pandemia do coronavírus? Sem shows oficiais, com artistas fazendo lives, lançando músicas, às vezes, fazendo coisas que a internet julga como errado. Como é isso?

É bem complicado. Já estamos há mais de 17 meses sem fazer shows. A gente é do mercado independente e o show é o que sustenta, basicamente, todo o business. A gente fazia muitos shows. Com a grana do show, que vem para a produtora, você consegue movimentar outras áreas. De certa forma, a gente teve que se remodelar sem shows porque não pode deixar de lançar músicas. Cada hora é um artista, então, é preciso continuar ativo para seguir sendo falado. Mas, ao mesmo tempo, você não tem o rendimento do show para continuar trazendo conteúdos e videoclipes bons. Tivemos que nos reinventar: basicamente, o dinheiro que você ganha com royalties de uma música, investe na outra. Acabamos indo para um lado de publicidade, que foi ótimo. Temos artistas na Ceia que tem esse apelo publicitário – até eu mesma, usando meu Instagram pessoal – conseguimos ter esse apelo comercial e seguimos fazendo dinheiro. É a forma como dá, na verdade, porque é como se, a cada semana, você tivesse que se reinventar. Vamos ver se, com o avanço da vacinação, conseguimos ir voltando para que no primeiro semestre do ano que vem a gente esteja todo mundo na pista de novo.

Foto: Reprodução/Instagram/ @nicolebalestro

Vendo vídeos seus e te acompanhando há um tempo no Instagram – acho que te segui ano passado -, você me parece ser uma mulher ‘fodona’ e bem tranquila. Como é a Nicole Balestro chefe?

Já fui muito brava. Muito estressada. Muito nervosa. De ser aquelas pessoas que as outras tinham medo de falar. Sei disso porque um artista meu me contou isso. Acho que a maternidade me trouxe uma outra sensibilidade e até uma outra forma de lidar com o dia a dia e com diversas questões. Tenho um filho de dois anos e sete meses, o Don, que estamos indo atrás de profissionais porque ele não está falando do jeito que ele deveria falar. Cheguei em um momento, hoje, que o Don me trouxe um outro olhar sobre a vida e isso afeta demais o meu trabalho. O meu dia a dia profissional é muito estressante. É muita coisa acontecendo ao mesmo tempo. É doido porque meu filho me trouxe uma serenidade: hoje, sou uma pessoa mais calma e tranquila. A maternidade me fez mudar, eu mudei. Até como profissional mesmo. Enxergo os problemas de outra forma porque, depois que você tem filho, você não tem problema. Todas as dificuldades acabam sendo apenas “dificuldades do momento”. Isso mudou muito meu jeito de ver a vida e encarar as coisas. A frase que amo é: “Tenho escolhido as minhas batalhas”. Não dá pra resolver tudo, então, “Bora pensar qual é a batalha do dia?”. Quando a gente tem o entendimento dessa forma, tudo fica mais leve. Os problemas não deixam de existir, só basta saber como resolver.

A gente sabe que a realidade da universidade no Brasil não é para todo mundo, infelizmente. Eu e você fizemos Cásper Líbero, que é uma das mais conhecidas do ramo da comunicação no Brasil. Como é que você enxerga o papel da universidade na sua trajetória e das outras mulheres que trabalham com você?

Enxergo esse assunto por dois olhares. O primeiro deles: existe uma questão social. A faculdade não é acessível para todos, nós sabemos. Mas o quanto uma pessoa se formar, dentro de uma família, não é muito importante e uma enorme vitória? Se formar, às vezes, é sobre ultrapassar todas as dificuldades que ela e a família tiveram. Temos que ter esse olhar porque tem lugares e famílias em que se formar é uma questão de vitória mesmo. Aquela pessoa que é a primeira, a segunda da família a ter curso superior completo. É importante demais. Porém, uma outra visão que tenho e que fala muito sobre o mercado do Brasil, as empresas dão prioridade para diplomas e não para vivências. Você vê pessoas ocupando alguns cargos importantes dentro da empresa – usando minha vivência em marketing, relações públicas – que, às vezes, ela tá cuidando de determinado produto e ela não tá na pista. A pessoa está cuidando de uma marca de streetwear, por exemplo, e ela não está na rua, não sabe quem está movimentando a cena do rap, não sabe quem está em alta no funk. Tenho uma amiga que trabalha em um player no Vale do Silício e lá eles dão prioridade para a vivência, mas isso ainda é complicado aqui no Brasil porque é sobre diploma, sobre posse, sobre ter estudado fora do país. Mas quem tem a condição de fazer isso aqui? Hoje em dia, uso quase nada do que tive nas matérias da faculdade. Entendo o trabalho muito sobre as vivências.

Aliás, falando na Ceia de novo, como são os processos admissionais por lá? Existe uma preocupação de abrir vagas destinadas para pessoas pretas, para mulheres? 

A gente sempre viu as mulheres como protagonistas. Acho que o papel da Ceia sempre foi exaltar as minas. Temos duas pessoas brancas na Ceia. De resto, todos os nossos artistas são pessoas pretas. Então, a gente teve essa preocupação, claro, mas isso aconteceu de uma forma genuína, principalmente por eu estar ali, à frente da parte executiva. Foi natural, mas a gente quis ser assim. Quando a Ceia surgiu, estávamos com uma cena do rap em São Paulo em que coletivos eram formados por 90% de pessoas brancas. A gente quis que fosse dessa forma para mudar e fomos seguindo o curso natural das coisas.

Ainda nesse tema, como foi – e como é – empreender em um ambiente como o rap, que é bem dominado por homens?

Olha, João, eu vou te falar…Não sei se é porquê eu já era muito do rolê do rap. Já trouxe artista internacional para o Brasil há 15 anos. Sempre frequentei esses lugares. Era o rolê que eu me divertia, antes de ser o rolê que me sustenta. Já tinha um nome, um respeito. Quando a Ceia aconteceu, as pessoas já sabiam quem eu era, sabe? Pelo menos no nosso nicho e em São Paulo. Para te falar a verdade, algumas situações que passei eram mais relacionadas à parte técnica de eventos. Por exemplo: um festival, estou com vários artistas no line up e gosto de chegar uniformizada no palco como staff do artista e já senti que tem gente que não pergunta coisas para mim porque deduzem que mulher não sabe muito de parte técnica e recorrem a outras pessoas. Mas, no dia a dia, temos situações isoladas – principalmente com pessoas de fora da Ceia, mas aqui dentro, graças a Deus, nunca tive muito.

O seu faro para artistas novos, como é? Você ouve sua intuição, ouve seu bolso… O que pesa mais para apostar em um novo nome?

Não vou mentir que este lado mais artístico, quem faz na Ceia é o Doncesão, meu sócio. Não tenho a visão de saber quem são as pessoas e o que vai bombar por aí. Tanto que, quando começamos, quem veio falar dos nossos nomes principais – Djonga, Kyan, Tasha & Tracie – foi ele mesmo. Temos uma boa divisão disso aqui: ele cuida da parte artística, tem tino para o talento. Já eu sou a pessoa que vai opinar se vai funcionar dessa forma, sugiro coisas para testar. A gente é um selo de música e nosso foco é fazer música boa, independente de parada musical, milhões de views. A gente não solta música e lança artista com o único e exclusivo objetivo de ganhar dinheiro. Ele é consequência de um bom trabalho. A gente solta música porque a gente gosta de música. A gente respeita a parada.

Foto: Reprodução/Instagram/@nicolebalestro

Pensei muito sobre essa pergunta, mas acho que não tem como não falar sobre o governo Bolsonaro com você, diante de tudo que você faz e produz. Como você enxerga esse governo, que pratica desmonte à cultura e à comunidade minoritária antes mesmo da pandemia estourar?

Bom, primeiro que a minha esperança se chama Lula. Acho que se a gente tivesse um governo respeitoso e que tivesse resolvido questões necessárias lá atrás – como a compra da vacina -, a gente não chegaria nesta situação. Vou te falar, assim, estamos há mais de 17 meses sem eventos. Temos que diferenciar que, neste ramo, existem os artistas, que ganham dinheiro com royalties, e existe a galera do backstage: o técnico de som, técnico de luz, faxineira, segurança, galera do bar. Essa galera está sendo prejudicada em níveis absurdos, a ponto da gente, aqui na Ceia, ter de fazer vaquinhas quase que semanais para elas sobreviverem. Elas não estão conseguindo sobreviver, não tem uma visão de quando isso vai melhorar e foram muito prejudicadas por um governo que poderia, sim, ter resolvido isso e não quis. Sem contar, também, todas as questões de um governo que não olha para a cultura da forma como deve. Coloca pessoas para cuidar de um ministério – que nem existe – e essas pessoas não dão atenção nenhuma para teatro, audiovisual, música. Se a gente parar para pensar, a cena cultural no Brasil está jogada às traças. Se não é a gente mesmo se autoensinar, nada acontece. Isso é muito triste. Cultura não é só o artista mainstream bombando no topo das paradas musicais. A gente não tem ninguém olhando para os atores e atrizes de teatro, para o nosso cinema. Estamos abandonados. Espero, sinceramente, que a gente consiga abrir os olhos. Aproveitando o tema, acho que o nosso debate, pensando nos ideais e na galera progressista, ainda não chegou nas pessoas de favelas e de comunidades. Ainda somos uma galera do rolê do Instagram, de se movimentar nas redes sociais. O debate não chegou onde tem que chegar. Temos que mudar algumas formas de se comunicar. Postava muito de política no meu Instagram, só que cheguei num lugar de pensar minha militância é na pista, é na vida: quando consigo potencializar um artista a fazer uma música bem produzida, um videoclipe incrível, tá ligado? Acho que, também, temos que nos preocupar com uma militância efetiva e no dia a dia. Estamos muito no rolê na internet e precisamos trazer para o real. Acho que está faltando diálogo e um diálogo acessível a todos. A campanha do Boulos, para mim, foi muito foda. Os lugares que ele ia, a série de vídeos que ele fez no YouTube respondendo perguntas e questionamentos das pessoas. Foi um case importante. Falta isso: o chão, a pista, o rolê, a rua. E espero que tenhamos Lula!

Li uma entrevista sua falando que moda é estilo de vida. Também enxergo dessa forma. Vai muito além de vestir grife ou seguir uma tendência. Como você vê a roupa como um fator comunicacional em uma CEO como você e em um novo artista que vai despontar no Brasil?

Hoje em dia, o público – principalmente o de rap – consome estilo de vida. Acho que o artista tem que trazer esse conjunto da obra. Não é só música: a pessoa que te segue quer saber onde você está, com quem está, para onde foi viajar, onde foi jantar. É até doido isso, o artista tem que ralar: tem uns que só querem lançar música, não querem compartilhar a vida e ser famoso. Mas a internet trouxe esse imediatismo. O fã quer consumir isso. A moda, para mim, traduz esse lifestyle. Ela faz uma releitura de você e faz você se comunicar por meio das suas roupas. Isso não é sobre grife, nunca. Tem gente que tem dinheiro para comprar grife, usar Versace e Gucci dos pés à cabeça, e o bagulho não vira. E tem gente que está com uma camiseta Hering, uma calça da Riachuelo e você olha e fala: “Que pessoa bem vestida”. Moda não é sobre poder aquisitivo. Moda é você imprimir seu estilo de vida.

Foto: Reprodução/Instagram/ @nicolebalestro

Para a gente finalizar, qual é seu conselho para as mulheres que te acompanham e tem vontade de ter seu negócio próprio, seja ele um restaurante, uma gravadora ou outro ramo?

A primeira coisa que precisa ser feito é focar nas suas competências. Quando começar seu negócio, precisa ser tudo, estar de olho em tudo, mas, na primeira oportunidade, acho que tem que focar na sua competência e aprender a delegar funções. Ser organizada. Aprender a planilhar as coisas, se jogar no Excel – falando na parte mais prática. Pensando no lado emocional, empreender no Brasil, o bagulho é louco. Empreender é escolher batalhas todos os dias. É focar nas suas competências, delegar e não achar que o bagulho vai virar da noite pro dia. Tem muito B.O. para resolver e muito imposto para pagar.