Paula Sabbatini, aka Paulette Pink, é artista plástica, atriz, performer, cantora, escritora e travesti – Foto: Arquivo Pessoal

Por Paulette Pink

Sim, eu nasci menino. Passei anos trancada em um corpo que jamais me pertenceu até entender qual era a minha condição de gênero. Sofri todos os tipos de preconceito e de abusos, além disso, fui – e ainda sou – marginalizada por conta da minha escolha.

Embora tenha vivido o frenesi da abertura sexual no Brasil, essa sorte nunca foi estendida ao gênero “T”. Até mesmo a sigla que traduz (ou tenta traduzir) a diversidade, apaga sistematicamente a travesti da história.

Aquele “T” perdido entre o LGB e o Qi+ virou trans – de transgênero, transex, transexual, transfeminista, transseiláoque! Parece que ser travesti no Brasil é crime hediondo. E talvez seja mesmo, já que por aqui é corriqueiro assassinar travestis.

Só em 2020, no primeiro semestre, 130 travestis perderam a vida para o ódio e para a intolerância de gênero. Tem tanta morte registrada que nós já mereceríamos constar no código penal com tipificação: “travesticídio”!

Juro que acreditamos que a luta por reconhecimento social estava caminhando, ainda que na rabeira de uma lesma. Mas com gritos cada vez mais fortes vindo das minorias, sentimo-nos no direito de sonhar. Entretanto, estamos sozinhas!

É só dar uma zapeada no Big Brother Brasil (ed. 21) para compreender esse manifesto – o reality que se propõe a ser múltiplo, deixou de fora travestis, gordos, mestiços, binários, amputados… E olha que o BBB quebrou a banca quando apostou em uma travesti (autointitulada “trans”), há dez edições!!

O que poderia ser um marco pela luta de gênero terminou na primeira rodada do game, com Ariadna Arantes eliminada. Um mata-leão em todas as travestis, algo como se dissessem: “se toquem, suas ‘anormais’. O mundo não é para gente como vocês!”

É realmente comum imaginarem que a travesti não passa de uma alegoria dionisíaca, em que um homem se veste de mulher e exagera nos trejeitos e na maquiagem. De novo, esse foi o enredo que a turma “diversa” do BBB tripudiou – e isso com apenas dois dias no ar! As sisters foram “brincar de maquiar os meninos”, sempre com a pegada caricata.

Esse é o contexto que acarreta a violência de gênero, que raramente é percebida por quem a comete. Já viram esse filme, né? É o que chamamos de estruturalismo, em que a pessoa não se enxerga como opressor e se defende contando nos dedos os amigos “diferentões” que ela tem.

Esse é o problema – a gente não quer mais ser vista como aberrações ou como peças de fetiche; queremos normatizar a nossa existência, ser enxergadas como seres humanos, ser proativas, aceitas na escola, num cursinho vestibular, na faculdade; traçar uma carreira profissional, ser atendidas em um restaurante com a mesma cortesia dada aos cis, entrar no cinema e não virar motivo de chacota; usar o banheiro feminino, ter peitões em um corpo permeado por paradoxos e não sentir medo ou vergonha.

Nós não queremos mais olhares de repreensão, buscamos apenas por empatia. Ah, e não tem nada de ruim com quem não se encaixa como travesti. Que todos sejam transfelizes e livres para viver em plenitude máxima!