Rebeca Costa – Foto: Reprodução/Instagram/@looklittle

Primeira da geração de nanismo em sua família, Rebeca Costa, 28, usa sua condição para alertar pessoas e despertar o reconhecimento. Filha mais nova de uma família de três meninas, ela é irmã de Clara, 30, que é administradora, e Juliana, 36, que é fisioterapeuta. Rebecca de formação é advogada e atua na área em uma empresa do setor elétrico. “Eu quis ser veterinária, depois empresária e na escola descobri o direito. Eu gosto muito do que eu faço. Gosto muito do direito. Gosto dessa coisa de correr atrás, lutar pelos direitos e tal.” E ela não descarta a magistratura, além de tudo o que já faz. Diz que é um sonho que fica guardado e que a remete a muitas coisas, que o sonho está quietinho no canto dele e a qualquer momento ele pode vir a acontecer. “Meus pais são loucos para que eu vire juíza. Eu trabalhei com uma juíza muito tempo, hoje ela é super minha amiga e minha inspiração. Há fases, vamos ver.”

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Mas ela não corre atrás só disso, ela também é influencer de moda, beleza e pelos direitos de quem tem nanismo. Tem uma conta no Instagram, o Looklittle, em que atua em prol da diversidade e para mostrar que, literalmente, tamanho não é documento. Extrovertida e falante, Rebecca sofreu bullying na escola e na vida adulta, mas nunca se deixou abalar por essas situações. “Minha mãe sempre me criou de uma forma independente para que eu resolvesse meus próprios problemas. Teve um episódio quando eu me mudei de escola, e na mesma data, além de mim, entrou uma outra menina com nanismo, ou seja, eram 300 alunos nos olhando como algo diferente. Eu costumo dizer que era necessário ter paciência na ‘paz de zen’” (risos).

Já os pais dos colegas eram mais difíceis, por exemplo, não a chamavam para sair porque não sabiam como cuidar dela, ou para dormir na casa de uma amiga, porque não teria um ambiente adequado, sendo que nada disso é necessário. Apenas compreensão e reconhecimento são as palavras-chaves.

Aprendeu com os pais desde cedo que tinha que lidar com suas próprias adversidades, aliás, os pais, Ricardo, médico, e  Márcia, contadora e CEO da Looklittle ao lado de Rebeca, sempre ensinaram a ela que não tinha que aceitar sua condição, mas reconhecê-la.

“Meus pais, quando descobriram o diagnóstico de nanismo, sempre levaram de uma forma muito leve, nem tanto pelo conhecimento, mas pela característica, na essência. Eles nunca me apresentaram o nanismo. Nunca se sentaram comigo para falar sobre isso. Eu falo muito que não passei por um processo de aceitação, mas por um processo de reconhecimento. Eu não me lembro de uma conversa em que eles falaram ‘a sua deficiência é tal’. Nunca minha mãe disse que não seria possível usar determinada roupa, havia sempre um reconhecimento, uma adaptação. Então, sobre o diagnóstico, nunca houve um peso. As pessoas dizem ‘mas não é possível’, e, sim, é possível.”

Sobre os preconceitos, ela conta que os passa diariamente, mas acha que esse reconhecimento do nanismo foi uma coisa que aconteceu desde criancinha até sua vida adulta. Ou seja, ela passava por processos e os pais lhe apresentavam a solução. Rebeca nunca ouvi que não dava para ela fazer determinada coisa, no lugar, ouvia, dessa forma não dá, mas e se você fizer dessa outra maneira?’ “Eu me lembro de um exemplo muito bom que era um foguete, que eu não conseguia subir nele, pela escada, mas minha mãe me mostrou que pelo ‘escorrega’ eu conseguiria. E assim foi.”

Da mesma forma ocorria com as roupas. Ligada em moda e beleza desde muito novinha – por influência das irmãs, da avó e da tia -, Rebeca nunca deixou de usar uma peça que eram passadas das irmãs para ela, como ocorre na maioria das famílias. As peças eram adaptadas para ela e tudo de forma muito natural. Ela conta que os pais sempre mostraram a ela um mundo diverso, em vez de que ela era diferenciada. “Eu ouvia apenas, você é baixa, e daí? Eles sempre me mostravam o reconhecimento mostrando que o problema não estava comigo, mas nas outras pessoas.”

Sobre sua adolescência diz que foi megarrebelde, como qualquer adolescente, e que sabia tirar de letra os acontecimentos.  Ela conta que a mãe sempre dizia: “um garoto vai te olhar porque você é muito linda, mas também ele pode te olhar porque você é pequenininha, e está tudo bem”. A mãe nunca deixou um problema aflorar em Rebeca, que considera que sua adolescência teve uma boa parte na construção de quem ela é hoje. “Aí vão dizer, você nunca teve uma rejeição com a sua deficiência? Posso dizer que o nanismo é uma coisa muito leve para mim, eu consigo me enxergar além dele. Por exemplo, eu tenho dermatite atópica, uma alergia, isso pesa muito mais para mim do que o nanismo. Eu nunca remeti a minha condição a uma deficiência de fato. É só uma parte de mim, um detalhe.”

Um dia, em um restaurante, os amigos sugeriram a ela que abrisse uma conta no Instagram para mostrar seus pontos de vista, e ela aceitou, aí nasce o Looklittle, que é uma empresa pela qual ela faz palestras, dá consultoria de família, legislação, empoderamento, acessibilidade, diagnóstico. Isso tudo com parcerias profissionais, quando recebe suporte técnico, como uma questão psicológica, quando Rebeca tem uma profissional que lhe dá apoio.

Com o nascimento do Looklittle, começaram as reportagens, até que ela viu um momento em que queria juntar autoestima, moda e ativismo, pois sentia que as pessoas a queriam ouvir, e é aí que surge a Rebeca palestrante. Ela foi se aperfeiçoando, porque estava com uma agenda cheia. Foi quando os pais disseram que ela devia levar mais a sério o Looklittle, porque de um barco, a coisa toda virara um navio. E virou uma empresa familiar, onde mãe, e irmãs também atuam.

Atualmente, Rebeca também é diretora de projetos da Annabra (Associação Nanismo Brasil), com foco em políticas públicas e desmistificando o nanismo, que nada mais é que levar um amparo à realidade do nanismo. Eles têm um projeto com o centro de genética médica do Instituto Fernandes Figueira. Há um foco familiar, com adolescentes e crianças, que ela ama. “São como meus filhos, porque eu tenho esse objetivo de desmistificar o nanismo, e assim são as minhas palestras. Eu falo muito da diferença entre aceitação e reconhecimento. Porque reconhecimento é quando você entende a sua condição e sabe quem você é por completo. E quando você aceita, apenas sabe com é, mas está no raso, não no profundo.”

E, se lendo tudo isso, você acha que para ela já está bom, se engana. Ela tem muitos projetos que ainda quer realizar. Além de apostar firme em suas palestras e na vida de influencer, Rebeca está escrevendo um livro, ao lado do pai, além das palestras online que tem feito depois da chegada da pandemia, quando a participação presencial teve de ser interrompida. Ademais, ela pensa em ter uma marca de roupas. “Mas eu quero que essa marca abrace todos os corpos com nanismo, pois temos mais de 400 tipos, e o meu é comum [acondroplasia].”

Ah, ela também é modelo. Em 2019 desfilou no São Paulo Fashion Week, pelo Free Free, cuja participação ela considera como uma virada de chave surreal. Ela conta que chorou muito porque nunca passara antes por um desfile diverso antes. Rebeca explica que, ainda que as pessoas pensem em diversidade, elas padronizam isso dentro do diverso. E por isso desfilar no SPFW foi algo que marcou sua vida, algo do qual ela sempre quis participar e que jamais vai se esquecer. Pode esperar,  vem muito mais de Rebeca Costa por aí.