Foto: Divulgação

Rossana Beraldo é psicolinguista, pesquisadora e consultora em tecnologia educacional, com duplo doutorado pelas Universidades de Brasília e de Parma, na Itália, e uma especialista no uso das plataformas digitais e na criação de projetos inovadores com foco na educação móvel.

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Fã do físico brasileiro Marcelo Gleiser, do escritor israelense Yuval Noah Harari e do professor russo Eugene Matusov, ela acredita que é preciso enxergar a educação com paixão, pois esta é a melhor ferramenta para minimizar as desigualdades sociais de um país. Na esteira da revolução 4.0, Rossana acha que o Brasil ainda não está preparado para encarar grandes mudanças – mesmo com o play de mais de duas décadas desde os primeiros projetos de integração na área –, fato que ficou evidente com a pandemia que causou colapso no sistema educacional.

“Há um esforço na preparação dos jovens para o impacto desta revolução com a inserção da robótica e ciências da computação, mas são poucas as instituições que têm a oportunidade de realizar experimentos aplicados. Um ponto é a distribuição de tecnologias e o acesso a internet para todas as escolas de modo equânime, outro é a mudança da trajetória do professor para lidar com conteúdos descontínuos e recursos didáticos digitais. Há uma tendência ao encastelamento das instituições de ensino às transformações do universo digital, isso é fato, o que gera etnocentrismo”, pontua.

“Sem a cooperação entre universidade e escola, ficaremos fragilizados na revolução 4.0, que já está em plena expansão. Sinto falta da atualização da literatura no que se refere a novas metodologias de ensino, os autores mais citados atualmente sequer imaginavam o mundo virtual, a fusão de tempos-lugares síncronos-assíncronos, formais-informais, públicos-privados e automação. Temos que avançar bastante nesse sentido. Somos bombardeados todos os dias pela mídia com a ideia de que tudo é ‘tech’ na revolução 4.0, essa ‘naturalização’ é bastante perigosa para a educação nos moldes tradicionais e no mundo do trabalho.

“Muitas escolas optaram por ferramentas que habilitam os professores a automatizar a aplicação de testes padronizados nos quais o feedback é imediato, feito por logaritmos. As TDICs (Tecnologias Digitais de Informação e Comunicação) nos dão grande poder, então, temos de decidir o que fazer com a sofisticação tecnológica. Ainda escuto professores dizendo ‘no futuro, vamos fazer isso ou aquilo’, mas o futuro já é o nosso presente. E não daqui a 10, 20 anos… São promessas de um futuro tecnológico que precisa se concretizar agora”, pontua Rossana.

Veja a entrevista na íntegra abaixo:

Quais são os desafios da educação nos dias atuais?

Um grande desafio tem sido a transição da educação analógica para a digital. Já se passaram 23 anos dos primeiros projetos de integração das novas tecnologias nas instituições públicas de ensino e, apesar dos esforços e dos gastos do governo e o empenho de iniciativas individuais, privadas, centros de pesquisa e fundações foi necessário criar soluções urgentes para a continuidade da educação e do trabalho na pandemia. Até os celulares, que antes eram vistos como problema nas escolas, ganharam novo status. Isso não quer dizer que temos que informatizar ainda mais o ambiente educacional, mas empregarmos o potencial das tecnologias como um corpo de conhecimentos que pode ser aplicado em práticas de ensino, o que tenho visto é a transposição das aulas tradicionais para ambientes online. Assim, a mudança de crenças e valores sobre ensinar e aprender em tempos mais velozes e móveis é desafiadora porque a educação básica, no Brasil, ainda é centrada em conteúdos e busca para respostas de questões preexistentes e com ênfase em métodos de memorização. O que não instiga a curiosidade numa educação “sem paredes”. Apesar dos desafios e das dificuldades, acredito que as tecnologias digitais possam ser a ponte para a troca de saberes de uma geração a outra. Os Millennials (1980-2000) completaram 40 anos! E a geração sucessiva, os Pós-Millennials (2001-atual) nasceram no auge dos processos de virtualização e desdobramentos da linguagem de programação dos games, jogos online, aplicativos, etc. O mundo para essas gerações não é linear, mas um ambiente de conexão, compartilhamento de informações e coprodução. Para eles a rede é a própria inteligência coletiva, atualiza-se em tempo real, mesmo que pessoas não tenham acesso a ela, serão impactadas de algum modo. A pandemia pode ser um divisor de águas na educação, porque situações de impacto coletivo podem gerar a tomada de consciência do problema como um todo e por todos, a ruptura faz com que as pessoas reflitam sobre possíveis conexões, causas, relações e condições sociais, o que gera mudança. Novas práticas online são possivelmente o fator mais proeminente para o futuro da educação. Como sociedade, nós ainda não percebemos os efeitos das tecnologias digitais na nossa própria vida.

Como vê o período de estudo online, antecipado pela pandemia?

A pandemia provocou um colapso no sistema educacional básico, mães disseram estar preocupadas e inseguras com os desdobramentos do ano letivo. Professores, pais e alunos estavam empenhados no início do estudo remoto pela novidade e em busca da continuidade do semestre, mas assistir aulas gravadas, realizar atividades e provas online, tornou-se uma tarefa cansativa para as crianças. A situação emergencial foi nos moldes da Educação a Distância, que é exclusivamente para jovens e adultos, que possuem autonomia e autodidaxia para o ensino instrucional. Vejo o período de estudo online como uma transposição da aula tradicional para ambientes virtuais, não houve tempo hábil para uma melhor estratégia, assim, a formação de professores em práticas educativas para o uso de Tecnologias Digitais da Informação e Comunicação é urgente. Por outro lado, gerou solidariedade e maior aproximação da escola-estudante-família, algo crucial para o desenvolvimento afetivo e a valorização das crianças. Dados atuais divulgados pela Unicef indicam que 17% dos estudantes do ensino básico não tem acesso a internet em casa, evidenciando as disparidades entre a área urbana e rural, este é outro problema. E mesmo as instituições públicas de ensino superior, que utilizam o ensino híbrido, sofreram impacto com a suspensão das aulas, o trabalho remoto mudou a dinâmica entre trabalho-família. Junto ao grupo de pesquisa, tenho acompanhado narrativas em percursos móveis de professores e estudantes, as quais evidenciam sentimentos de alternância entre ansiedade versus confiança, desânimo versus investimento pessoal, dúvida versus descoberta, sendo um período de muita reflexividade, ambivalências e grandes mudanças pessoais.

O Brasil está preparado para revolução 4.0? Quais são os maiores desafios para a Educação do futuro?

Há um esforço na preparação dos jovens para o impacto desta revolução com a inserção da robótica e ciências da computação, mas são poucas as instituições que têm a oportunidade de realizar experimentos aplicados. Um ponto é a distribuição de tecnologias e o acesso a internet para todas as escolas de modo equânime, outro é a mudança da trajetória do professor para lidar com conteúdos descontínuos e recursos didáticos digitais. Há uma tendência ao encastelamento das instituições de ensino às transformações do universo digital, isso é fato, o que gera etnocentrismo. Sem a cooperação entre universidade e escola, ficaremos fragilizados na revolução 4.0, que já está em plena expansão. Sinto falta da atualização da literatura no que se refere a novas metodologias de ensino, os autores mais citados atualmente sequer imaginavam o mundo virtual, a fusão de tempos-lugares síncronos-assíncronos, formais-informais, públicos-privados e automação. Temos que avançar bastante nesse sentido. Somos bombardeados todos os dias pela mídia com a ideia de que tudo é ‘tech’ na revolução 4.0, essa ‘naturalização’ é bastante perigosa para a educação nos moldes tradicionais e no mundo do trabalho. Muitas escolas optaram por ferramentas que habilitam os professores a automatizar a aplicação de testes padronizados nos quais o feedback é imediato, feito por logaritmos. As TDICs (Tecnologias Digitais de Informação e Comunicação) nos dão grande poder, então, temos que decidir o que fazer com a sofisticação tecnológica. Ainda escuto professores dizendo ‘no futuro vamos fazer isso ou aquilo’, mas o futuro já é o nosso presente. E não daqui a 10, 20 anos… São promessas de um futuro tecnológico que precisa se concretizar agora

Como democratizar o acesso a educação?

Ampliando a participação dos estudantes, que são a parte mais interessada, nas decisões sobre educação. Como vão exercer o protagonismo, autonomia, crítica a cidadania, se os adultos ainda decidem tudo por eles? Muitas vezes, de modo arbitrário ou coercitivo. A educação se torna democrática quando é algo útil para o estudante construir o seu próprio projeto de vida, produzir a sua identidade, fazer as suas próprias escolhas, mostrar os seus talentos. Promovendo mais o acesso e o desfrute aos bens imateriais e materiais da nossa sociedade, se não há possibilidade de o aluno vir a escola, a escola deve ir a ele. Nesse sentido, as tecnologias digitais são potenciais na democratização da educação no Brasil, considerando a extensão territorial e a diversidade de contextos educacionais, como educação hospitalar, prisional, indígena, alunos em localidades remotas ou em situação de risco. Fomentando também ações mais eficazes na educação inclusiva, como a integração de tecnologias assistivas, vivências na cultura digital, etc. Desenvolvendo o protagonismo em crianças do ensino fundamental para que sintam confiança e participem efetivamente das decisões tomadas pela escola. A democratização da educação começa pelo Direito. O Educação para Todos e o Observatório do Plano Nacional de Educação são exemplos do que podemos fazer para monitorar, cobrar qualidade na educação e fazer valer os direitos dos estudantes.

Quais são as prerrogativas atuais dos educadores?

Certamente, a mudança de crenças e valores sobre ensinar e aprender em tempos mais velozes e móveis. Não se trata de distribuir mais tecnologias nas instituições de ensino, sem uma mudança na trajetória docente. Deve haver um equilíbrio, visto que existe um mercado tecnológico bilionário que produz novidades tecnológicas em tempo recorde, em poucos meses as tecnologias se tornam obsoletas. Há esse descompasso em relação a formação de professores. Defendo que a responsabilidade da aprendizagem deve ser distribuída e não centralizada. Ainda há uma forte tendência de dar maior status à quantidade e à sofisticação tecnológica e isso somado às práticas canônicas de ensino geram um problema ainda maior. Os estudantes estão ávidos por autonomia, agencialidade, flexibilidade para experimentar novos posicionamentos sociais. Em busca desta autonomia. Estudantes, com apoio de profissionais da educação, estão criando suas próprias comunidades online, por exemplo, a organização sem fins lucrativos LALA (Latin American Leadership Academy), que conecta estudantes do ensino médio e de graduação, na participação de conferências, fóruns, bootcamps sobre temas da atualidade com cientistas, autores, líderes, alinhados com os valores e propósitos do LALA. E por meio dos hubs, os ex-alunos da LALA podem orientar novos membros. Para desencadear as discussões para a educação atual são necessárias parcerias entre universidade e escola num diálogo contínuo, interdisciplinar, horizontal e cooperativo. Ainda, diálogos interdisciplinares entre universidades brasileiras e estrangeiras com a participação de professores, pesquisadores e estudantes de pós-graduação para o aumento das pesquisas e produção de dados empíricos, com comprovação científica. Essas organizações são eficientes e respondem aos anseios dos estudantes, falta maior investimento por parte do governo. O bom senso deve sempre prevalecer e, não, “os achismos ou as ideologias partidárias”.

O que tem de bom na escola brasileira? E o que pode ser melhorado?

A escola é o lugar de encontro onde se discute e se constrói as identidades e aprende a viver a diversidade, esse é um ponto muito positivo na escola brasileira. Existem Escolas e escolas, mas todas são lugares de encontro. Nesses encontros, estudantes gostam de contar sobre suas experiências, mostrar o quanto sabem sobre algo, dizer quem são para os outros, usar o corpo inteiro para se expressar; se os colegas não entendem, gestos, mímicas, sons, caretas, olhares e até o silêncio complementam a fala. O corpo inteiro fala, a comunicação e a intencionalidade fluem, assim, desenvolvem mais e mais as capacidades socioemocional, intelectual e discursiva. Nas escolas brasileiras tem parquinho, pátio, corredor, cantina, algumas tem quadra, gramado, campinho, bancos no canto preferido e colegas. Nesses lugares, acontecem encontros intersubjetivos, onde os próprios estudantes negociam as regras de participação nas conversas ou brincadeiras. A sala de aula deveria ser a extensão desses lugares naturais de encontro, onde se discute e se aprende porque todas as pessoas têm algo a dizer e mostrar em experiências individuais-coletivas, sejam esses lugares off-line ou online.

O atual governo criou diversos percalços na educação. Como você vê essas ações na prática?

A situação foi, e ainda é, tão estarrecedora que não tivemos tempo sequer de digerir a tentativa de desmonte das instituições públicas de educação universitária, pesquisas em andamento e a ciência como um todo. As decisões arbitrárias e as disputas ideológicas do atual governo têm causado um prejuízo devastador nas universidades e agências de fomento, é um grande retrocesso e negação da ciência e no desenvolvimento do país e na melhora do ensino público. O problema da educação é estrutural, remonta séculos de exclusão e violação dos direitos e equidade social por todo o país, precisamos de líderes que garantam os direitos dos alunos e que valorizem nossos professores para irmos adiante. Os políticos veem a educação sem paixão, diferentemente, da sociedade que acredita que a educação é o caminho para minimizar as desigualdades sociais no nosso país.

Quem são os educadores que te inspiram hoje em dia?

Gosto de sair da minha zona de conforto e aprender com outras áreas interligadas a psicologia e a semiótica. O professor, físico e cientista brasileiro Marcelo Gleiser pela coerência científica sobre o planeta e a espécie humana; o historiador e escritor israelense Yuval Noah Harari pela clareza sobre as grandes questões da história humana e o futuro da revolução 4.0; e o professor russo radicado nos Estados Unidos, Eugene Matusov, sobre a Pedagogia Dialógica na perspectiva bakthiniana. Essas pessoas são inspiração porque ensinam conceitos muito complexos de forma clara e simples para o grande público, a ciência deveria ser para todos.

Qual seria a sua ideia para melhorar a educação brasileira?

O voto consciente é um instrumento para as mudanças, isso pode ser trabalhado ao longo do ensino fundamental nas decisões tomadas pela escola, aos 16 anos, o adolescente terá autonomia para suas próprias escolhas. Visitei algumas Escolas que já incluíram esta prática no currículo. O monitoramento contínuo do Educação para Todos e o Observatório do Plano Nacional de Educação e o aumento da participação dos estudantes nas decisões sobre educação entre outras ações feitas pela sociedade podem impulsionar a equidade na redistribuição de bens materiais, a qualidade da formação de professores e de formadores, um maior vínculo com as famílias para a melhor participação na vida academia dos filhos, entre outras necessidades básicas. Visito Escolas e escolas públicas há mais de uma década em Brasília e, em um raio de 6 a 20 quilômetros do Ministério da Educação, conheci vários locais com grande desigualdade de recursos materiais e humanos e com a rede externa pouco eficiente e coesa, os sistemas de atendimento não convergem. É necessário um amplo mapeamento das condições materiais, humanas e formativas das instituições de ensino em todo território brasileiro e dos sistemas interligados a educação para o cruzamento de dados para uma melhor estratégia, coerência e coesão e, ainda, mais cooperação e flexibilidade entre os departamentos públicos.

Se pudesse indicar, quem seria o seu ministro da educação?

Com certeza não seriam os ministros indicados nesta gestão. O bom senso deve prevalecer e, não, achismos, ideologias partidárias, autocracia… A Educação é da sociedade. É o instrumento que temos para gerar condições de vida e autonomia para as próximas gerações. A educação não é balcão de negócios, é a base para a continuidade da nação.