Silvia Venturini Fendi com a bolsa baguette perfumada FendiFrenesia, vendida com exclusividade durante a Art Base – Foto: Divulgação

O encontro com Silvia Venturini Fendi foi durante a fervida semana da Art Basel, em Miami, em um café de hotel em South Beach. Arte era só o começo da conversa. A diretora criativa e herdeira da marca fundada pelos avós, em 1925, estava na cidade para o lançamento da coleção Roman Molds na Design Miami. O projeto artístico leva a assinatura da dupla suíça Kueng Caputo.

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“Elas são muito talentosas, e gosto porque também são clean e minimal. Além disso, quis continuar com esse apoio às mulheres designers. Nós tivemos artistas do sexo feminino nas últimas quatro edições, elas têm feito um trabalho incrível. São muitas as razões para a escolha da dupla”, diz Silvia à Bazaar.

As artistas suíças Lovis Caputo e Sarah Kueng exibem as peças na Miami Design – Foto: Divulgação

Sarah Kueng e Lovis Caputo voaram de Zurique até Roma para conhecer o Palazzo della Civiltà Italiana, QG da Fendi que seria o tema de inspiração do trabalho, e mergulhar nos arquivos da marca. Nove meses depois, elas apresentaram a coleção Roman Molds, em Miami. “A ideia era criar um mobiliário para o Palazzo, com feeling de ser outdoor. Usamos materiais básicos – tijolo, couro e chapa de metal corrugada – e transformamos em algo precioso, com muita paixão”, conta Sarah.

As artistas já são reconhecidas pela arte com couro, mas foi a primeira vez que utilizaram tijolos. Entre bancos e mesas, elas destacam a palmeira, cujo tronco foi feito com tijolos esmaltados e cortados em lados diferentes, para proporcionarem texturas distintas. A dupla também transformou bolsas Peeckaboo de lona em objetos de decoração – que não estão à venda.

Bancos e mesas da coleção Roman Molds, assinada pela dupla Kueng Caputo e feita com couro, placas de aço e tijolos esmaltados – Foto: Divulgação

A cartela de tons vibrantes, principal característica da arte de Kueng Caputo, é uma forma de manifesto ao ambiente em que vivem. “Nossos invernos são muito cinzas, há muitas casas e prédios também cinzas, não entendo por quê. E é por isso que usamos muitas cores”, afirma Sarah.

Bancos e mesas da coleção Roman Molds, assinada pela dupla Kueng Caputo e feita com couro, placas de aço e tijolos esmaltados – Foto: Divulgação

Já a entrevista com Silvia tomou o rumo de destinos mais ensolarados. Ela contou sobre sua paixão pelo Brasil e se lembrou da casa que teve em Búzios, cerca de 30 anos atrás, e de mais duas propriedades no Rio, primeiro na Lagoa e, depois, em Copacabana. “Eu tinha meus 20 anos, guardo muitas boas memórias do Brasil. Meus filhos, quando pequenos, passaram todas as férias na casa de Búzios, que era mais selvagem naquela época. Tinha quatro ou cinco casas na praia onde estávamos, a casa da família Lacoste era em frente à minha. Nos tornamos bons amigos”, recorda.

Bancos e mesas da coleção Roman Molds, assinada pela dupla Kueng Caputo e feita com couro, placas de aço e tijolos esmaltados – Foto: Divulgação

A última vez que esteve no País foi em um Réveillon no Rio, há três anos, e ela revelou o desejo de um dia morar no Brasil. No bate-papo, que poderia ter sido em português, (no entanto Silvia só revelou que fala a língua ao final da entrevista) ela afirma que considera o desfile verão 2020, em setembro passado, sete meses após a morte de Karl Lagerfeld, sua verdadeira estreia como diretora criativa da marca.

Bancos e mesas da coleção Roman Molds, assinada pela dupla Kueng Caputo e feita com couro, placas de aço e tijolos esmaltados – Foto: Divulgação

Seu début foi discreto, sem muito alarde, e mostrou uma coleção ainda mais fresh e feminina. “Você pode sentir que tem uma mulher pensando em roupas de mulher. Acho que é a mesma Fendi de quando Karl estava lá, mas, provavelmente, mais calorosa, com uma relação diferente da silhueta, menos rigorosa, eu diria mesmo mais feminina”, afirma. “Agora, trabalho sozinha, com meu time, e o resultado, bom ou mau, é todo meu”, completa.

Bancos e mesas da coleção Roman Molds, assinada pela dupla Kueng Caputo e feita com couro, placas de aço e tijolos esmaltados – Foto: Divulgação

Ela leva consigo as lições que aprendeu com o estilista, que conheceu ainda criança – ele ficou 54 anos na Fendi. “Aprendi com Karl a não olhar o que você fez, mas olhar mais para o que você não fez. Nunca pense que chegou lá, que alcançou. No momento em que você relaxa é o fim. Cada coleção é como a primeira, dê 100% de você, nunca pense ‘sou o melhor’ ou ‘é fácil’. Toda hora você tem de começar de novo, de alguma forma”, diz.

E a herdeira da marca, que por anos foi tocada pela mãe e pelas quatro tias, sabe como recomeçar. Em 1997, ela foi a responsável pela criação da Baguette, considerada a primeira it-bag da moda, com aval de Carrie Bradshaw, personagem de Sarah Jessica Parker em “Sex and the City”. E, desde então, já fez mais de mil versões do modelo icônico: o mais recente, FendiFrenesia, foi uma edição perfumada criada em parceria com a maison Francis Kurkdjian e vendida exclusivamente na butique de Miami durante a Art Basel.

Bancos e mesas da coleção Roman Molds, assinada pela dupla Kueng Caputo e feita com couro, placas de aço e tijolos esmaltados – Foto: Divulgaçãodesta

“A baguette é uma bolsa pequena porque, naquele momento, nos anos 1990, tudo começou a ficar compacto, como o celular, o cartão de crédito começou a ser aceito em todo lugar e veio a necessidade de ter as mãos livres. Por isso é uma bolsa macia, com alça curta, ergonômica ao corpo”, descreve. “A baguette foi atualizada, hoje ela vem com duas ou três alças e você pode usá-la atravessada ao corpo, debaixo do braço ou até como uma pochete, porque os acessórios começaram a integrar o vestuário”, diz.

Silvia também está atenta à renovação na moda, que passa por mudanças e está mais consciente. “As pessoas escolhem com mais cuidado, não precisamos renovar o guarda-roupa a cada estação. Esse é o verdadeiro propósito para a mulher de hoje: vida real, funcional, leve. Gosto de fazer roupas para todo dia, não só para grandes ocasiões. É isso o que penso quando vou fazer as coleções.” E, assim, a família Fendi continua escrevendo sua história.