Foto: Getty Images
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Atualmente, é fácil esbarrar pela internet com frases e citações que incentivam o feminismo e a igualdade de gênero. É claro que as críticas e pessoas contrárias tem o mesmo peso – se não maior! -, mas, ainda assim, dependendo da bolha em que você vive, a luta das mulheres por respeito e equidade tem uma voz forte e constante. Em uma época em que o cenário era o oposto e mulheres eram resumidas a mães e donas de casa, Simone de Beauvoir foi uma guerreira que teve coragem de dizer o que pensava – e o que era justo.

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Nascida no dia 9 de janeiro de 1908, em Paris, Simone foi um escritora, filosofa existencialista ativista política e feminista responsável pelo livro que ainda é considerado um dos básicos para quem quer saber mais sobre o assunto: “O Segundo Sexo”. Dentro de uma família tradicional, Simone de Beauvoir saiu de uma escola católica privada, aos 17 anos, para cursar matemática no Instituto Católico de Paris e literatura e línguas no colégio Saint-Marie de Neuilly. Quando finalizou os dois cursos, estudou filosofia na Universidade de Paris (Sorbonne), onde conviveu com intelectuais como Maurice Merleau-Ponty e René Maheu.

Sua infância foi marcada pela decadência financeira de sua família, depois que seu avô materno faliu e não pagou a sua família paterna o dote do casamento, fazendo com que seu pai, Georges, tivesse que voltar a trabalhar e levar a família a morar em um apartamento pequeno. O advogado nunca escondeu o fato de não ter filhos homens, mas afirmava que “Simone pensa como um homem”, o que agradava a jovem que, desde nova, se interessou a estudar filosofia, levando o pai a acreditar que apenas o sucesso acadêmico da filha poderia tirar ela e sua irmã, que se tornou uma pintora, da pobreza.

Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre - Foto: Getty Images
Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre – Foto: Getty Images

As irmãs frequentaram um colégio para meninas católico e particular, o que era visto pelos intelectuais na época como formadores de esposas ou freiras. Sua mãe frequentava as aulas com as filhas, sentada atrás das meninas, como se esperava da maioria das mães na época. Depois de ter se formado em suas duas primeiras graduações, em 1929, ela se tornou a pessoa mais jovem a ser aprovada  no Agrégation, em filosofia, e a nona mulher a obter este grau. No exame final, Simone ficou em segundo lugar, atrás apenas de Jean-Paul Sartre.

Foi nessa época que os dois intelectuais se tornaram um casal e, depois de ser confrontado pelo pai de Simone, Sartre a pediu em casamento. “O casamento era impossível. Eu não tinha um dote”, revelou Simone em um de seus livros, por isso, o casal manteve uma relacionamento aberto ao longo de sua vida. A escolha da pensadora de não se casar e não constituir uma família com Sartre, segundo ela mesmo, lhe deu tempo para conquistar um grau acadêmico avançado, lutar por causas políticas, viajar e ter amantes.

“O Segundo Sexo”

Foto: Getty Images
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Lançado em 1949, este tratado é uma análise detalhada da opressão das mulheres e um dos textos fundamentais do feminismo contemporâneo. No livro, a autora apresenta uma revolução moral, com a premissa de que a existência precede a essência, o que criou o mote mais poderoso da frente filosófica: de que não se nasce mulher, torna-se uma. Ou seja, a construção social da mulher é feita externamente e resulta em sua opressão e o fato de que não são tão capazes de escolha quanto os homens.

Portanto, Simone defende que as mulheres podem optar por elevar-se da situação que anteriormente eram resignadas, para alcançar a “transcedência” – posição em que o indivíduo assume a resposabilidade para si e para o mundo e pode escolher sua liberdade.

O livro foi rapidamente traduzido para o inglês e comercializado nos Estados Unidos. A tradução foi feita por Howard Parshley a pedido de Blanche Knopf, esposa do editor Alfred A. Knopf, mas, como Parshley tinha uma familiaridade básica com o francês e compreensão mínima de filosofia, o livro de Simone de Beauvoir foi mal traduzido, o que distorceu sua mensagem. Por anos, Knopf impediu uma tradução mais precisa do trabalho da filósofa, o que só aconteceu em 2009, quando, em comemoração ao aniversário de 60 anos da publicação original, Costance Borde e Sheila Malovany-Chavallier produziram o novo exemplar.

Os conceitos de Simone eram extremamente avançados para a época. A escritora argumenta que os homens aplicaram uma falsa aura de mistério em torno das mulheres como desculpa para não entender seus problemas e que este esteriótipo é comumente usado por grupos mais altos da hierarquia social para estigmatizar grupos inferiores, incluindo categorias como identidade, raça, classe e religião. Além disso, a filósofa defende que os homens usam o esteriótipo criado para as mulheres como desculpa para organizar a sociedade em um patriarcado.

Apesar de defender conceitos como gênero como uma construção social e outros citados em “O Segundo Sexo” e das suas crenças na independência financeira feminina e na igualdade de educação, Simone não se considerava feminista. Apenas em 1972, depois do ressurgimento do movimento feminista, que a escritora se declarou publicamente como pertencente desta vertente.

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