Foto: Reprodução/Instagram/@tabataamaralsp

Já estamos sob a regência dos “zês”, os nascidos durante os anos 1990 – e um bom exemplo disso é Tabata Amaral, cientista política e astrofísica graduada pela Universidade de Harvard, além de ativista pela educação, eleita deputada federal pelo PDT, partido fundado por Leonel Brizola durante o exílio por conta da ditadura militar no Brasil, em 1979.

Tabata é uma liderança cheia de vontade de mudar os mecanismos que travam as engrenagens das instituições nacionais, cofundadora do Movimento Mapa Educação, que tem por objetivos democratizar o ensino de qualidade e possibilitar que os mais jovens sejam agentes transformadores.

Por sinal, a deputada já tem metas traçadas para que isso aconteça: “Sempre falo que o mais importante é gerar oportunidades na educação, e isso só será possível ao reforçar a gestão dos recursos, a valorização dos profissionais e uma política educacional menos engessada e desatualizada. Neste momento, estamos aguardando a aprovação do Fundeb (Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação), que é fundamental para alcançarmos este objetivo. Com a União complementando os orçamentos de estados e municípios, e cobrando por boas práticas e melhores resultados educacionais, teremos um instrumento eficiente para acelerar a gestão das escolas. Pensando em reformulação da política educacional, entendo que a alfabetização e a educação básica precisam ser repensadas e ter uma atenção especial. Ainda estamos em um país onde sete em cada dez adultos não conseguem ler textos complexos, o que mostra o desafio dos professores e as falhas do sistema. Uma criança que não tem condições de frequentar a escola, de participar de certas atividades, de investir em qualquer tipo de material não está incluída. É preciso repensar como as oportunidades podem chegar a todos que estão ali atendidos pela rede pública de ensino. Um sistema de pontuação mais adequado ao que o aluno conseguiu conquistar ao longo da formação permitiria um acesso mais inclusivo e um desenvolvimento mais uniforme da educação sem tanta desigualdade social. A formação de um cidadão e com capacidade de avaliação cívica e política também contribui para a democracia, que é interesse de todos”.

E Tabata tem tanto a dizer que já se reuniu com Barack Obama e Malala para traçar ações humanitárias. Com essa biografia ostentada aos 26 anos, é natural que ela tenha sido indicada pela rede BBC, de Londres, como uma das 100 mulheres mais influentes do mundo.

Leia abaixo a entrevista na íntegra:

Quais são os desafios da educação nos dias de hoje?

São profundos. A começar pela desigualdade, que foi escancarada durante essa pandemia. Alunos estão sem aula, professores estão sem orientação e as redes escolares precisam se organizar, mas estão sem o apoio do órgão mais importante para a educação no Brasil. O novo ministro da Educação vai precisar garantir o acesso à internet e equipamentos a todos os alunos, coordenar a definição do novo calendário escolar junto às redes e às universidades e trazer o ministério pela primeira vez para a discussão sobre o Fundeb (Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação), principal mecanismo de financiamento do ensino público de crianças e adolescentes no Brasil, ações prioritárias em curto prazo. Há mais de um ano estamos discutindo uma nova proposta para um Fundeb permanente, mais redistributivo e com mecanismos de incentivo a boas práticas. Tem município com menos de R$ 400 por aluno por mês para pagar professor, transporte. Nossa recuperação pós-pandemia depende desse financiamento. No relatório final da Comissão Externa de Acompanhamento do MEC da Câmara, da qual faço parte como relatora, eu e mais outros parlamentares apontamos que muitos projetos importantes do Ministério da Educação ficaram com execução orçamentária próxima de zero. Não tem ideologia que explique isso. Quando a gente olha para alfabetização, que deveria ser o carro-chefe do governo, nota-se que a última ação feita em 2019, foi uma reunião para se discutir a metodologia, e esse ano lançaram uma plataforma online. Ou seja, neste ano não chegou nenhuma diretriz para secretários ou prefeitos. O que falta na ponta não é uma ideologia diferente, é carteira, é formação de professor, um monte de coisa.

Como você vê esse período de estudo online, antecipado pela pandemia?

Vejo com muita preocupação. O país ainda não tem regras sobre como vai avaliar o conhecimento dos estudantes durante e depois desse período. Estamos estagnados e com um vácuo de gestão. Vemos a desigualdade bater à porta de milhões de crianças e jovens. Temos que levar em conta o estado psicológico dessas pessoas que viram a fome de perto. As piores consequências do Coronavírus são sentidas pelos mais pobres. Quase 66% das vítimas fatais por Covid-19 viviam em bairros com salário médio abaixo de R$ 3 mil. Estudo da Insper, feito pelo professor Ricardo Paes de Barros, apresentou uma projeção de que os jovens podem perder R$ 42,5 mil de renda se os conteúdos não forem repostos e eles seguirem para o mercado de trabalho com esses déficits. Não podemos simplesmente esperar a pandemia acabar para tomar uma atitude. Vamos precisar de um novo calendário para a educação. A volta às aulas sem considerar a ampliação do acesso digital implica em mais desigualdade e evasão escolar. O MEC precisa conversar com secretários de educação e reitores para construir soluções.

O Brasil está preparado para a revolução 4.0? Quais são os maiores desafios para a educação no futuro?

Acho que o nosso País ainda precisa avançar em vários pontos antes de se considerar preparado para essa revolução, mas, ao mesmo tempo, o avanço da tecnologia e o desenvolvimento não vão esperar e precisamos atacar várias frentes para conseguir ter jovens mais preparados. Os desafios do futuro são os que estamos vivendo hoje, ainda tentando manter orçamento e melhorar a gestão, fazendo o recurso chegar aos estados e municípios que precisam pagar os salários, manter as escolas e prestar o serviço ao cidadão. Entendo que somente com uma educação básica de qualidade teremos uma formação que permita às crianças e aos adolescentes de hoje serem os profissionais que vão tocar essa revolução. Um outro ponto é o ensino técnico – que hoje é para poucos. A formação técnica, que é amplamente reconhecida no exterior, pode e deve ser complementar à educação básica e pode trazer uma formação mais qualificada enquanto o jovem ainda está no ensino médio, por exemplo.

Como democratizar o acesso à educação?

Sempre falo que o mais importante é gerar oportunidades na educação, e isso só será possível ao reforçar a gestão dos recursos, a valorização dos profissionais e uma política educacional menos engessada e desatualizada. Nesse momento, estamos aguardando a aprovação do Fundeb que é fundamental para alcançarmos esse objetivo. Com a União complementando os orçamentos de estados e municípios e cobrando por boas práticas e melhores resultados educacionais, teremos um instrumento eficiente para acelerar a gestão das escolas. Pensando em reformulação da política educacional, entendo que a alfabetização e a educação básica precisam ser repensadas e ter uma atenção especial. Ainda estamos em um país onde sete em cada dez adultos não conseguem ler textos complexos, o que mostra o desafio dos professores e as falhas do sistema. Uma criança que não tem condições de frequentar a escola, de participar de certas atividades, de investir em qualquer tipo de material não está incluída. É preciso repensar como as oportunidades podem chegar a todos que estão ali atendidos pela rede pública de ensino. Um sistema de pontuação mais adequado ao que o aluno conseguiu conquistar ao longo da formação permitiria um acesso mais inclusivo e um desenvolvimento mais uniforme da educação sem tanta desigualdade social. A formação de um cidadão e com capacidade de avaliação cívica e política também contribui para a democracia, que é interesse de todos.

Quais são os desafios dos educadores?

São vários, considerando todos os pontos que citei anteriormente. O educador hoje segue uma política defasada, enfrenta as dificuldades de falta de recursos diariamente, precisa saber lidar com a evasão escolar e tudo isso sem um plano de progressão e promoção na carreira. Hoje, a nossa sociedade demanda por escola sem entender o que é a boa educação. E esse profissional se vê tentando equilibrar todas essas necessidades e sem uma perspectiva de carreira que seja estimulante.

O atual governo criou diversos percalços na educação. Como você vê essas ações na prática?

Nenhum governo nunca tratou com prioridade a nossa educação. Nos dias de hoje, o governo atual, além de não priorizar a educação, menospreza a importância que ela tem no desenvolvimento econômico e social do país e brinca com o futuro de milhões de crianças e jovens brasileiros. Não temos, hoje, nenhuma política educacional. Transformaram o principal órgão de educação do Brasil em uma guerra ideológica. Estamos há quase um mês sem um ministro, mas esse vácuo já dura mais de 18 meses e a situação só piora. Enquanto o presidente é omisso com os rumos da educação do nosso país, nós continuamos lutando para que ninguém fique para trás. Não podemos deixar a educação à deriva. Como parlamentar, destinei R$ 12 milhões das minhas emendas para investimentos nas periferias durante a pandemia, lutei pela renda mínima de R$ 1.200 por família; apresentei projetos que suspenderam o pagamento do Fies; o corte de água, luz e de planos de saúde; além de mecanismos de proteção aos povos indígenas e às mulheres vítimas de violência doméstica neste período. Vejo o Congresso Nacional engajado em pautar e votar projetos que são urgentes. Estamos trabalhando para conter os danos da ausência do governo no combate ao Coronavírus. Um levantamento feito pela Câmara dos Deputados apontou que o Congresso foi autor de nove em cada dez medidas relacionados à crise de Covid-19, ou seja, o Legislativo responde por 92% dos projetos que viraram lei até agora, enquanto o Executivo só conseguiu aprovar uma proposta de sua iniciativa.

Quem são os educadores que inspiram nos dias de hoje?

São muitos, mas vou citar uma em particular. Ela tem uma visão de uma educação conectada com o futuro, com tecnologia, e entende, na prática, como é o ensino nas periferias. Estou falando da professora Débora Garofalo. Uma de suas ações está muito ligada em implementar a disciplina de Tecnologias nas escolas públicas estaduais de São Paulo, com aulas de robótica com materiais recicláveis. Ela possui uma visão que permite aos alunos conquistarem o direito de sonhar e de garantir maior igualdade de oportunidades. Ela foi a primeira mulher brasileira a ficar entre os dez finalistas do Global Teacher Prize, que reconhece os professores do mundo todo que realizam as maiores contribuições à sua profissão.

Qual seria a sua ideia para melhorar a educação brasileira?

Uma educação igualitária e integral. A educação passa pelo desenvolvimento econômico e social sustentável de qualquer país. Não há desenvolvimento sem educação. Um país mais justo e desenvolvido depende de uma educação de qualidade e que seja de todos e para todos. A desigualdade no acesso à educação e a evasão escolar precisam ser combatidas. Não chegaremos a lugar algum sem combater isso. E quando a educação olha para os alunos, sejam eles crianças ou jovens, como um ser humano em desenvolvimento em diversos espectros, nós estamos mais próximos de alcançar esse patamar. Uma educação que lide com as questões emocionais e sociais dos alunos e que os preparem para o mercado de trabalho. Eu vi o poder que a educação tem em transformar vidas, sonhos. Sou uma dessas transformações e quero que todos tenham e a mesma oportunidade. Vou seguir lutando para que a educação de qualidade seja um direito de todos.

Se você pudesse indicar, quem seria o seu ministro da educação?

Prefiro falar no perfil que tenho a esperança de finalmente estar à frente da educação no Brasil. Um perfil aberto ao diálogo, que trate a educação como prioridade no desenvolvimento econômico e social do país, que converse com quem faz a educação lá na ponta, que pense em quem é afetado por ela. Alguém que trabalhe contra o tempo perdido e com a falta de projetos nesses mais de 18 meses. Precisamos de alguém que estruture uma política educacional para o Brasil, que use o Ministério da Educação para pautas urgentes como Fundeb, gestão, alfabetização, valorização de professores e que não faça da sua gestão um palanque para guerras ideológicas. Já estamos acompanhando, há bastante tempo, que técnicos não têm espaço no governo Bolsonaro. Infelizmente, os que sobrevivem, são capachos da guerra ideológica do presidente. Uma pessoa que para mim representa essas características é a Claudia Costin, uma grande educadora. Como ela, há outros nomes. O mais importante é que seja alguém comprometido com a educação.