Foto: Arquivo Harper’s Bazaar

Por Gustavo Silva

Celebramos em 2022 alguns aniversários de datas importantes. Pensou nos 200 anos da proclamação da independência do Brasil? Esqueça. O fato mais marcante para ser relembrado neste ano são os 10 anos de um marco que viria influenciar – e o verbo aqui não é usado à toa – toda a vida digital brasileira, quiçá global: as fotos de Nana Gouvêa em Nova York após a passagem do furacão Sandy na metrópole queridinha do mundo.

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Em meio a carros destruídos e árvores derrubadas do que parecia uma Big Apple digna de distopias cinematográficas, Nana posava para as lentes de um fotógrafo com a mesma naturalidade de uma top sendo fotografada para um editorial de alta-costura. O Sandy, que criou todo esse cenário para os cliques, devastou a costa leste americana, e 44 pessoas morreram somente em Nova York, que sofreu danos na casa dos US$ 19 bilhões.

“Tenho que confessar que adoro hurricanes”, disse Nana a um extinto site de notícias onde quase-famosos alimentavam o próprio ego. A ex-atriz – hoje criadora de conteúdo digital +18 e dona de uma estufa de peixes ornamentais – complementou a experiência: “Eu amo passar por hurricanes com meu amor! É muito romântico, e hoje vou abrir uma garrafa de vinho”.

Tudo isso foi em outubro de 2012. O Instagram, com então dois anos de criação, acabava de ser comprado pelo Facebook. O Snapchat era um bebê, e o TikTok ainda nem pensava em nascer.

Corte para o presente. A jovem tiktoker Stephanie Mecco posta o vídeo de uma dancinha nas redes e viraliza. A garota gravou a apresentação ao lado da mãe. Acamada. Desacordada. Com câncer. A postagem veio acompanhada de uma declaração: “Vídeo gravado ontem… hoje o dia se encerra e você se foi com ele”. A mãe de Stephanie falecera vítima da doença.

Em outro caso, a americana Jayne Rivera aproveitou o velório do pai para fazer um ensaio fotográfico em frente ao caixão aberto. Toda de preto, de saia e com um terninho com apenas uma manga, a influencer também deixou, junto às fotos, uma mensagem póstuma para o pai: “Borboleta, voe para longe” foram algumas de suas palavras, seguidas da hashtag #dadless.

O fluxo de postagens familiares também segue o caminho inverso. Uma mãe divulgou em seu TikTok um vídeo de dancinha ao lado do filho bebê. A criança está em uma incubadora. Em meio aos passos, as legendas – uma resposta à pergunta de um seguidor – dão o contexto: “O pequeno Lee está internado com falta de oxigênio. Ele testou positivo para VSR”. O vírus, comum na primeira infância, afeta o trato respiratório e pode evoluir até uma pneumonia.

Toda uma geração de influencers, mesmo sem saber, vive sob a sombra de Nana Gouvêa. Tal como Sandy, o furacão, eles não conhecem limites. Tal como Sandy, a cantora, são movidos por um turururu ali dentro que pouca gente é capaz de compreender, mas todos querem julgar. Afinal, vivemos na Era da Opinião – e opinião, como sabemos, é igual àquilo lá: todo mundo tem, e muita gente quer meter a mão na do amiguinho ou da amiguinha.

Definir padrões do que é aceitável e do que é too much para os padrões de entretenimento nas redes sociais não é tarefa fácil. A distância da turma do bom-senso (“tudo tem limite, tem que censurar!”) do grupo mais reacionário (“essa gente nem é gente!”) é curta, tal como aquela mistura infantil de cores entre vermelho, verde e amarelo que vai gerar um marrom característico de… deixa pra lá. Até porque, no fim das contas, a voz dos seguidores é a voz divina: se os likes superam os haters, o influencer sente que está no caminho do paraíso.

O mundo digital influencia e é influenciado pelo mundo real – ou surreal, principalmente quando falamos de Brasil, de política nacional e de nossas histórias. Os portugueses, os europeus mais tecnológicos no início da era das grandes navegações, deixaram um legado por aqui que será lembrado no bicentenário da independência. Mas cabe a nós, seres digitais, celebrarmos um movimento que nos acompanha há uma década e que, tal como o Google Glass e a televisão 3D, tem o seu lugar na história: a nanagouveização da vida.