por Lisa DePaulo

Talvez seja inevitável algum drama ao visitar a residência das Kardashian–Jenner. Estamos em meados de dezembro em Hi­dden Hills, o condomínio fecha­do nos arredores de Calabasas, em L.A., onde Kris Jenner vive, na casa tão familiar a milhões e milhões de telespectadores em mais de 160 paí­ses graças às nove temporadas de enor­me sucesso da série Keeping Up With the Kardashians – o reality show que redefiniu os reality shows (será que a matriarca da família que não esconde nada vive, de verdade, em Hidden Hills?). Do lado de fora, trabalhadores dão duro revestindo a entrada de carros circular com pedras importadas da França. O proje­to levou mais tempo do que o previsto porque Kanye não fi­cou satisfeito com o rejunte colorido que Kris tinha escolhido – “e ele tinha razão”, diz ela – de modo que começaram tudo de novo. E tem que ficar pronto de qualquer jeito até 24 de de­zembro, ou a Momager (mom, mãe, e manager, gerente), que vai receber 150 convidados para a ceia de véspera de Natal, não fi­cará nada feliz.

O lado de fora da mansão não é aquele da TV. O que se vê é uma falsa fachada, por motivos de segurança – cuja necessi­dade logo ficará bem clara.

“Corey Gamble”, diz o namorado de Kris, apresentando-se ao abrir a porta vestindo agasalho cinza, tênis laranja reluzentes e enormes brincos de brilhantes. “Pode entrar.” Como todo o mundo bem sabe, Gamble tem quase a metade da idade de Kris (35 contra os 60 dela) e é membro da equipe de gestão de Justin Bieber. É doce e educado, certifica-se de que eu esteja confortá­vel no solário atrás das árvores de Natal – são três, com diversos andares de altura, decoradas com o tema de Kris para a estação, listras brancas e vermelhas em tudo – e me traz uma água Fiji.

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Alguns minutos depois ele me faz entrar no escritório mara­vilhosamente decorado de Kris. Faltam alguns dias para as Festas e há dúzias de sacolas pelo chão, Fendi, Barneys, Dolce & Gab­bana e por aí afora, todas cheias de presentes impecavelmente embrulhados. São os presentes de Kris para suas amigas, como ela contará mais tarde – exceto uma fileira muito bem organiza­da de pijamas desenhados por Katy Perry, dois conjuntos para cada membro da família. Os outros presentes de Kris para sua ninhada estão no andar de cima, na sala de embrulhos. O chef de Kanye, que está morando na casa de Kris com Kim, Kanye e os filhos, enquanto a casa do casal é reformada, me traz café. Dá para ouvir, vindo de cima, a voz do pequeno Saint, o recém-nascido de Kim e Kanye, e a de North, a filha de 2 anos. Gamble explica que Kris está atrasada.

Dez minutos depois: “Mil desculpas”, diz Kris, enquanto me dá um caloroso abraço. Faço uma anotação mental para per­guntar que hidratante ela usa, suas bochechas são tão macias como um bumbum de bebê.

Não existe motivo para se des­culpar por um atraso de 10 minu­tos, que não é nada em tempo de celebridades, principalmente quando ela explica o motivo.

“Ontem”, ela começa, “estava aqui à escrivaninha, fazendo as cin­co milhões de coisas que preciso fa­zer, quando entrou um cara no meu es­critório. Logo ali”, diz, apontando para a porta. “E era um invasor. Meu stalker.”

Sério? “Ah, você nem imagina. Fico doida só de pen­sar. A polícia esteve aqui e depois a gente teve que prestar quei­xa. Eram 3h da tarde. Ele entrou e disse: ‘Lucy, I’m home!’– e nin­guém… Bom, vamos só dizer que três pessoas foram demitidas ontem.”

Graças aos montes de câmeras de segurança pela casa (que não são as mesmas que as de TV), o invasor foi identificado e já estava preso quando cheguei. Mas o acontecimento pôs em foco algumas das coisas que eu estava louca para perguntar a Kris Jenner. Primeiro, como você tem privacidade, qualquer momento de vida real, quando a vida toda é um reality show? E como é ser um alvo constante? Há muito veneno no mun­do apontado para o empreendimento das Kardashians – e es­pecialmente para ela.

Kris ri e se inclina sobre a escrivaninha.

“É o seguinte”, diz. “Temos literalmente milhões de fãs. Que­ro dizer, até Kendall e Kylie têm 50 milhões de seguidores no Instagram cada uma. São cem milhões de pessoas que, de algum modo, tocamos emocionalmente o bastante para que nos sigam numa plataforma de rede social. E acho que com isso também vêm, você sabe, os que nos odeiam. Mas em termos comparati­vos, como digo à minha família, são uma porcentagem muito pequena. Não duraríamos 12 temporadas em uma série de TV se houvesse tanta negatividade assim.”

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Kris adora falar desse assunto e de todos os outros. Não leva muito tempo para ficar à vontade e relaxar em seu figurino chique/confortável – suéter Givenchy, leggings Wolford, tênis natalinos e faiscantes Louboutin e óculos de leitura Céline grandes e pesados. A única joia é um colar que diz Lovey (“amorzinho”) – que é como os netos a chamam. E nem de­mora para falar do elefante cor-de-rosa no meio da sala.

“Estive na casa dela ontem à noite”, diz, sobre Bruce, seu ma­rido por 23 anos, agora Caitlyn Jenner. “E foi… gostoso. Aos pouquinhos. Um passinho atrás do outro, sabe?”

Não, não sei. Quem poderia saber como é descobrir que seu ex-marido é uma mulher?

“Acho que a certa altura, embora tenha sido difícil e, bem, um desafio… tenho que desapegar. E tentar ser tolerante”, Kris explica. Como? “Oração. Deus. Você sabe, simplesmente tentar entender. Leva tempo. Mas o tempo é um san­to remédio. E temos duas filhas nos­sas. É importante para meus filhos ver nossa família forte e unida.”

Pergunto se, antes da transição de Caitlyn, ela conhecia pessoas trans­gênero ou tinha alguma opinião sobre o assunto.

“Nunca tinha parado para pensar nisso,” diz. “E nunca tinha conhecido alguém trans­gênero. Nem sabia o que a palavra significava. Por­que tem transgênero, tem transexual, tem…” Pausa. “Que­ro dizer, eu não sabia muito sobre isso. Então…”, sorri. “Com certeza foi um grande aprendizado.”

E como ela enxergava a si mesma como mulher – chegou a duvidar de si, da própria feminilidade?

“Não, nunca. Graças a Deus, nunca duvidei de mim. Nun­ca duvidei da minha feminilidade. Só duvidei do relaciona­mento. Você sabe: ‘O que foram aqueles mais de 20 anos?’. E senti como todo mundo sentiria em algum momento: ‘Nossa, por que eu tive de passar por isso? Foram 20 anos que eu po­deria estar fazendo outra coisa’. Mas acho mesmo que tudo acontece por algum motivo.” E o motivo, nesse caso, foram Kendall e Kylie, as filhas que ela teve com Bruce.

Nas memórias Kris Jenner … and All Things Kardashian, publi­cadas em 2011, ela descreve Bruce Jenner, e não o ex-marido Robert Kardashian, que morreu de câncer em 2003, como o amor de sua vida. Ainda sente o mesmo?

Curto e grosso: “Não”.

Ela diz apenas que o único arrependimento que tem é seu divórcio de Robert, pai dos seus quatro filhos mais velhos. “Tive uma vida maravilhosa, linda, com Robert. Ele era um homem incrível”, explica, acres­centando que, enquanto passava pelo episódio Bruce/Caitlyn, deseja­va poder telefonar para ele, contar com um ombro forte no qual se apoiar e sobre o qual, talvez, chorar. “Tenho uma vontade constan­te de telefonar para Robert. É algo diário.”

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Robert, um poderoso empresário e advogado que defendeu O.J. Simpson em seu julgamento de 1995, a tratou bem, conta, e lhe proporcionou uma vida muito confortável. Mas em 1989, com quatro filhos, ela o traiu. Teve um caso tórrido (com um jo­gador profissional de futebol dez anos mais novo que ela) sobre o qual já falou abertamente, inclusive em suas memórias (e, sim, provavelmente haverá um novo volume de memórias de Kris Jenner). Em uma das passagens mais pungentes, ela recorda o momento em que Robert descobriu tudo e pediu o divórcio, e se perguntou por que diabos tinha feito aquilo. Kris também aprendeu com a experiência – especialmente quando ele can­celou os cartões de crédito dela – o que era “não ter poder”. Ju­rou que nunca mais perderia o controle.

Apesar de se expor completamente ao mundo, Kris Jenner permanece um enigma. Criada em uma família de classe média de San Diego, nunca foi à faculdade e mal terminou o secundário, que “achava chato”, diz. Em vez disso, correu atrás do sonho de ser comissária de bor­do, trabalho que desempenhou por dois anos até que Robert Kardashian a conquistou, casan­do-se aos 22. Kris cresceu em um lar cristão, mas diz ter se tornado mais devota por causa de Robert, “um homem altamente espiritualizado”, com quem frequentava regularmente estudos bí­blicos em Beverly Hills. Quando pergunto se ela ainda se considera crente, ela ri. “Claro! Esse tipo de coisa não desaparece! Acredito em Deus e no poder da oração.” Ela também é uma dona de casa capaz de deixar Martha Stewart no chinelo em seu afã de decorar, cozinhar e receber (chegou a publicar um livro de receitas, In the Kitchen With Kris, em 2014). Kris reconhece ser fã tanto de Donald Trump (um amigo) quanto de Hillary Clinton (“acho ela ótima”), mas insiste, “não sou muito politizada e guardo algumas opi­niões para mim mesma”. Ao contrário de Caitlyn, que é “su­perpolítica, política pra burro!” (leia- se, conservadora pra burro).

Vale dizer que antes da fama das Kardashians, Kris ajudou a ressuscitar a carreira de Bruce Jenner no começo do rela­cionamento dos dois, ajudando-o a garantir palestras e con­tratos de apoio.

Pergunto quando ficou sabendo da decisão de Bruce de fa­zer a transição. “Junto com todo mundo”, responde. Ele não contou a você primeiro? “Não. Já estávamos divorciados”, ex­plica. “Que fazer? A gente tem que dar apoio. E aceitar que todos vão ter alguma opinião.”

De fato, até quem não admite assistir ao Keeping Up With the Kardashians reconhecerá a proximidade perceptível na fa­mília – até quando as coisas se complicam. Como quando seu genro, a ex-estrela da NBA Lamar Odom, foi hospitalizado depois de ser encontrado inconsciente em um bordel de Ne­vada, em outubro. “Ele está melhorando um pouco a cada dia”, diz Kris. “É tão trágico. Tão triste. E eu o amo tanto. Ele é ótimo, ótimo, ótimo.” Quando pergunto se ela se incomoda com as circunstâncias constrangedoras do caso, ela sacode a cabeça: “Não”. Scott Disick, pai dos três filhos de sua filha Kourtney, foi convidado para a ceia de Natal de Kris, apesar do fim do relacionamento no verão passado e da passagem por uma clínica de reabilitação. Quando menciono Rob, o irmão de Kim que estava no programa em temporadas ante­riores, mas que agora optou por um perfil muito mais discreto, ela se mostra protetora. “Ele está óti­mo”, diz. “Só não quer aparecer nas câme­ras tanto quanto nós. É mais quieto e re­servado.” E, quanto a Kanye, talvez o mais controvertido dos seus genros: “Não poderia estar mais orgulho­sa”, exclama. “Uma coisa que as pessoas não percebem a respeito dele é que é mais do que talentoso, é também um gênio. E quan­do está aqui, está enormemente presente. É um ótimo pai e um ótimo marido. Kim tem muita sor­te de estar com ele.”

Quando pergunto a Kris a respeito da maior acusação que lhe fazem, a de ter vendido a família em troca da fama, ela tira os óculos Céline e olha fundo nos meus olhos. “Nãããooo”, retruca. “Eu inventei e criei um show com o qual minha família toda concordou, e ficamos superanimados pois assim podemos trabalhar juntos.”

Será que ela às vezes pensa que, se a ideia de criar uma em­presa familiar, inédita e de enorme sucesso tivesse sido de Bru­ce, ou até de Robert, haveria tanto veneno?

“Acho que há, com certeza, uma atitude diferente quando uma mulher realiza qualquer coisa. Mas também acho que as pessoas têm muita inveja. Ou são amargas e têm raiva das próprias vidas. Ou então talvez não tenham nada para fazer além de ser desagradáveis e criticar os outros. Parece uma resposta simplista, mas não acho que vá muito além disso. Há milhões de pessoas que são ótimas conosco e por isso não posso ficar me preocupando com algum idiota de Oklahoma.” Ela sorri e olha de relance para as pilhas de presentes que a cercam. “A gente tem que ser forte e dizer: ‘Coitada daquela pessoa, tenho muita pena’.”