Por Carolina Overmeer

Lábios cor de carmim, cabelos ondulados à la Rita Hayworth, decotes clássicos, cintura marcada e saltos vertiginosamente altos. Esta é a adorável figura da designer de sapatos Charlotte Olympia Dellal, espécie de mulher maravilha do mundo moderno, que, entre muitos atributos, firma-se como ícone de estilo por um viés pouco comum e cheio de personalidade: olhando para as glamorosas décadas de 40 e 50 com um afiado senso de contemporaneidade, ela é capaz de transformar retrô em tendência elegante e bem humorada.

“Costumo dizer que sou nostálgica, adoro colecionar e misturar referências de época, e isso se vê nas minhas roupas, na casa e no trabalho os sapatos que crio podem ser supermodernos, mas sempre ganham um detalhe nostálgico”, explica, com sua voz suave e rouca.

Herança familiar, deve ser, pois sua irmã, a top Alice Dellal, atual garota-propaganda da Chanel, mostra o mesmo talento ao imprimir sua paixão pelo velho e bom punk no mundo das passarelas e campanhas de moda.

Em visita à nova casa de Charlotte em Londres, para onde mudou-se com o marido, Maxim Crewe, e o filho Ray, em meados do ano passado (o caçula Ike nasceu logo depois), ela nos leva até o closet, espaço que mais reflete seu estilo: meio lúdico, meio glamour hollywoodiano. “É tudo muito pessoal”, diz, ao pegar um poodle de porcelana, ao lado de uma bandeja com vidros antigos de perfume, uma medalha da maratona de Nova York de 2002, sapatinhos dos filhos banhados em bronze e um chapéu em forma de aranha (ela adora chapéus, seus preferidos vêm de Paris, da boutique Marie Mercié).

As gavetas estão cheias de lingeries preciosas: “Se não criasse sapatos, provavelmente desenharia lingeries”, confidencia. Uma das paredes é coberta de sapatos, todos de sua badalada grife Charlotte Olympia, exceto por um par de Converse e umas pantufas pink herdadas da avó paterna.

No chão há dois sketches de Valentino, presente que ganhou por seus 21 anos. No resto da casa nota-se a paixão de Charlotte por estampas e cores: o sofá vintage é vermelho, em homenagem a Dalí; o carpete e verde-grama; o rodapé da cama é amarelo. Também há obras de arte e luminárias especiais por todo lado.

Entre as obras escolhidas, uma escultura de Alex Hoda e uma pintura de Lawrence Owen, ambas adquiridas na galeria 20 Hoxton, de seu irmão Alexander. “Você vê a minha nostalgia nos detalhes. Não vai entrar e achar que está num filme dos anos 50, longe disso, minha casa é moderna, mas, se eu der uma festa, vou servir drinks em bandejas antigas.”

Encostados na parede ainda há uma fotografia de William Klein, um vestido Versace de 1986 que pertenceu à sua mãe, devidamente enquadrado, e uma imagem de Charlotte e o marido se beijando no casamento (nunca me esquecerei do vestido deslumbrante desenhado por Giambattista Valli que ela combinou com sapatos estampados de leopardo, foi a noiva mais incrível que já vi até hoje).

“Charlotte é aquele tipo de mulher que, depois de um dia de trabalho intenso, consegue chegar em casa para curtir os filhos e ainda cozinhar uma comida especial para o marido. E tudo isso em cima de um salto 15. Tenho o maior orgulho da minha filha!”, elogia a mãe, Andrea, eterna musa da moda que, sem dúvida, soube dar aos filhos a dose certa de autoestima e responsabilidade para alcançarem o estrelato.

Com sua sofisticada marca de sapatos, Charlotte Olympia, ela também se mostra empreendedora de sucesso. Em 2011, recebeu o prêmio de melhor designer de acessórios, oferecido pela British Fashion Awards, e vem abocanhando uma infinidade de fãs ao redor do mundo.

Tanto que acaba de inaugurar sua segunda loja, agora em plena Madison Avenue, em Nova York (a primeira fica em Mayfair, Londres). Entre as novidades da marca, há o lançamento de uma linha de sapatos para noivas (“percebi uma lacuna nes- se mercado”), uma coleção cruise inspirada na Bahia e outra de modelos que já viraram clássicos, como o flat de gatinho e o escarpim Dolly, de plataforma meia pata.

O segredo para tanta competência? “Meu único truque é ir ao salão uma vez por semana e ficar embaixo daquele secador enorme, como uma old lady. Isso basta para que ele não se mova por vários dias”, brinca. “De resto, é só questão de ter um bom time por perto.”

E ela tem apenas 30 anos.