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Por Mariliz Pereira Jorge

Quando eu completar 60 anos, vou me mudar para Maiorca e tomar sol todos os dias sem protetor”, me disse um amigo dermatologista. Rimos. E me senti aliviada por não ser julgada pelo meu amor ao verão. Uma relação cultivada durante anos, que foi colocada no paredão quando decretaram que o sol era vilão, e bronzeado, cafona. Acabaram, de uma hora para outra, com o glamour da praia. Veio uma avalanche de guarda-sóis, barracas, chapéus, bonés e protetores. Implantaram regras e horários de uma rigidez militar. Todo mundo começou a se esconder dos raios, como se estar ali fosse pecado. Já me expus 15 minutos no sol das 9h, com bloqueador 100 e filtros UVA/UVB/UVC. Agora, só amanhã, recomendação do fabricante.Tem coisa mais chata do que gente assim? Adeus marquinha de biquíni, bochechas rosadas, cabelos de surfista, brilho nos olhos. Adeus dias inteiros de sol, de mar, de mergulho, de ducha de água doce, de hidratante no cabelo, de Hipoglós no nariz, de almoçar milho cozido e sanduíche natural. A praia ficou mais careta e o verão, mais sem graça.

Ainda bem que tem a turma do contra, aquela que conta os dias para os termômetros subirem, as roupas diminuírem, os sor- risos ficarem mais largos. Faço parte dessa tropa que guarda com orgulho na nécessaire um acelerador de bronzeado da Australian Gold. Para nós, a vida reserva o inesperado, porque a gente vai onde o sol estiver. Pode ser em Caraíva ou na Tailândia. Pode ser na porta de casa ou do outro lado do mundo. Somos os segui- dores do sol. E, dessa forma, cada um vive seu frenesi particular. Cada um vive seus sonhos de dias e de noites de verão.

Ahhh, o verão. Os dias ficam mais longos. As noites ficam mais bonitas.As madrugadas ficam mais preguiçosas. O fim de semana fica mais comprido. A brisa fica mais quente. A água fica mais gelada. O céu fica mais estrelado. As árvores ficam mais frondosas. As flores ficam mais cheirosas. Os passarinhos ficam mais cantantes. As cigarras ficam mais barulhentas. É o cio. O ar fica repleto de hormônios, feromônios e as melhores más intenções. O animais procriam, as pessoas namoram, se apaixonam, juram amor eterno. Tudo com data de validade. Cada amor de verão vem com selo de expiração, porque amores de verão são feitos para durar o tempo de uma estação. São mais intensos e menos sérios. A gente só leva na bagagem a lembrança,que fica doce na memória. Lembro-me de um, de dois, de três, de todos os amores de verão.Todos inesquecíveis, todos desimportantes.

Ahhh, o verão. A bebida fica mais gelada.A comida fica mais leve.As frutas, mais coloridas.A geladeira fica mais alcoólica.As janelas ficam mais abertas.As cortinas ficam mais esvoaçantes. A cama fica mais fresca. A gente recebe mais visitas. E sai mais de casa. As ruas parecem mais alegres. A música fica mais alta. As pessoas dançam mais.Todo mundo parece ter mais vida. Os cabelos ficam mais claros. Os olhos, mais sorridentes. O sorriso fica mais branco. A alma fica mais feliz. O corpo fica mais malemolente. A mente fica mais agitada. A cabeça fica mais despreocupada. Os beijos ficam mais doces. Os abraços ficam mais vibrantes. O guarda-roupa fica mais divertido. As roupas, mais soltas. As saias, mais curtas. Os decotes, mais cavados. Os pés, mais descalços.

Culpa do sol. O humor fica tinindo, o corpo fica mais relaxado, dormimos melhor, a pele fica mais bonita. Ainda que haja um culto à palidez, as branquelas que me perdoem, mas tomar sol é fundamental. Um corpo dourado é mais sexy, mais sensual, e eu quero. Nem aí para as manchinhas de sol. Sardas, para mim, são lembranças de verões felizes, que eu ostento sem remorso. Maiorca aos 60, sem protetor, me parece, agora, um belo sonho de verão eterno.