Foto:reprodução
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Por Mariliz Pereira Jorge

Programei, minuciosamente, o dia da viagem por uma única razão: queria chegar ao Japão na época da sakura, como é chamado o florescer das cerejeiras. Tenho uma fascinação tão grande pela mudança das estações, e não queria perder o símbolo da chegada da primavera lá do outro lado do mundo.

Mudam as estaçães, mudo eu. Tudo se transforma à nossa volta. É bom mudar, porque a gente enjoa da vida quando ela fica muito igual e cansa da gente mesma. Canso do meu cabelo, das roupas que visto, da bolsa que anda pendurada no meu ombro todos os dias. Enjoo dos meus caminhos, do sabor da comida, da mesma embriaguez da mesma bebida. Para nunca me acomodar, nem com a vida lá fora nem com a vida dentro de mim.

Gosto dos dias mais curtos, de ver as folhas caindo e o pôr-do-sol mudar de cor. Gosto de banho pelando, toalhas fofinhas, cama cheia de travesseiros, bolsa de água quente, aquecedor, de puxar a manta no meio da madrugada, meias de cashmere, camadas de roupas, luvas, cachecol, galocha no pé, xícara de chá na mão.  Quero ficar mais em casa. Não quero ter a obrigação de ir lá fora ser feliz. Está bom aqui dentro, quando consigo olhar mais pra dentro de mim mesma. Quero que a vida desacelere do lado de fora e dentro da minha alma. E, então, muda tudo de novo. Muda o tempo, mudo eu.

Quando a gente já se acostumou, a vida nos chama para a vida. Desentoca, chega de preguiça. Hora de sair da cama, de casa, de sorrir para o mundo. Desde sempre, setembro é um dos meus meses favoritos. Gosto de saber que o verão está chegando, mas ainda ter tempo de me preparar para ele. Quero meus vestidos, minhas rasteiras, meus saltos, minha roupas mais alegres. Quero cortar o cabelo, fazer luzes, iluminar meus dias. Quero colocar uma colcha colorida na cama. Quero ver as árvores se enchendo de flores, e encher minha casa delas. Chegar à praia de manhã e só ir embora junto com o sol. Estocar espumantes na geladeira, preparar spritz.

Quando desembarquei no Japão, as flores já tinham caído. Levei uma rasteira da primavera, que resolveu desabrochar uma semana antes. Não dá para controlar tudo, mesmo quando a gente se programa, pensa em todos os detalhes.“Go with the flow, live your life in the flow”, li num biscoito chinês certa vez. Hoje, nem sei se gosto mais de verão ou de inverno, há muito tempo deixei de lutar contra a natureza – inclusive a minha. É dizer não para a vida como ela é. E ela é bem boa se a gente aceita melhor as mudanças dela e as que acontecem com a gente.