Frankie e Amaury na sala privê do clube Calígola - Foto: reprodução
Frankie e Amaury na sala privê do clube Calígola – Foto: reprodução

Por Michael Koellreutter

“Um vero templo!”, repetia a condessa Georgina Brandolini, diva de Valentino, assim que entrou. A loja Frankie & Amaury, no Rio, fora montada com o touch of class de Pedro Espirito Santo, o aristocrata/decorador português. Pilastras e esculturas lembravam uma ruína romana. Um point de famosos que se encontravam para o champanhe nas tardes de sábado. Entre modettes de millionettes, presença obrigatória da modelo Fatima Muniz Freire, batizada pelo jornal O Globo de “o colírio do Rio”. De família tradicionalíssima, Maria Thereza de Fatima de Alencastro Muniz Freire Veiga representava a marca em todas as campanhas. No comando, a elegante Heloisa Caraballo, que, adiante, viria a ser diretora da Dior. Naquela tarde, o “templo” festejava a chegada ao Brasil do designer francês Claude Montana, que, em 1985, fizera tremer as passarelas em Paris. Ante holofotes da imprensa, Montana declarava que a grande atração de sua próxima coleção seriam peças em que ficasse evidente que mulheres estariam sem calcinha, indumentária desnecessária, por atrapalhar criações.A declaração trouxe variadas reações. Enquanto a promoter Karmita Medeiros dizia-se satisfeita, por abominar calcinhas, a relações-públicas Anna Maria Tornaghi torcia o nariz. Contudo… a reação mais surprendente viria do ferino jornalista Ricardo Boechat: “Como não incluir tal peça no vestuário da mulher se o melhor é o momento de tirá-la?”. O episódio ferveu na imprensa, fazendo com que a dupla Frankie & Amaury, os reis do couro, criasse, imediatamente, um modelo em homenagem a Luma de Oliveira, sex symbol do momento. Fotos de Frederico Mendes mostravam a diva numa peça sustentada por tiras de couro que deixavam claro: Luma estava nua! Sucesso absoluto na criação, que, de tão provocante, só seria vendida sob encomenda…

Talita, Jerry Hall e Frankie no clube Hipopotamus - Foto: reprodução
Talita, Jerry Hall e Frankie no clube Hipopotamus – Foto: reprodução

O argentino Frankie Mackey e o carioca Amaury Veras começaram um tórrido e notório romance em Saint-Tropez, trabalhando numa fábrica de couro. O ambiente afrodisíaco, repleto de mulheres douradas e esculturais, os inspiraram para criações sedutoras. Era o momento em que o estilista Azzedine Alaïa contagiava o mundo desenhando o corpo de Naomi Campbell, o cisne negro. Ou que Thierry Mugler trazia às passarelas de Paris supermodels alucinantes. Havia ainda a travesti Roberta Close e o pornstar Jeff Stryker. Sexy time!

Campanha da marca com Charlene Shorto, queririnha da Valentino - Foto: reprodução
Campanha da marca com Charlene Shorto, queririnha da Valentino – Foto: reprodução

Decididos a conquistar o Rio, começaram num pequeno atelier em Copacabana e, graças ao ciclo de relações, logo se desenhou a fórmula: Amaury encarregava-se das criações, tendo Frankie à frente do marketing e revelando-se como inegável PR. Graças a Frankie, Amaury vestiu as princesas Ira von Furstenberg e Gloria Thurn Und Taxis, as embaixatrizes Lais Gouthier e Gloria Paranaguá, as atrizes Christiane Torloni e Maitê Proença, as socialites Andrea Dellal e Charlene Shorto… Se o “templo” era cenário para cocktails fervilhantes, os fashion shows eram teatrais, seguindo à risca o tema escolhido. Amaury criava para o crème de la crème trazido por Frankie! Inesquecível o catwalk inspirado na gastronomia e trazendo como estrela o chef Claude Troisgros! Passarela transformada numa feira, onde o consagrado cooker “vendia” para as modelos repolhos, tomates e abacaxis. No dia do casting, Amaury entrara no showroom acompanhado da inseparável assistente, Nana Paranaguá, uma joia descoberta e lançada por Gloria Kalil na equipe de sua Fiorucci:“Não desfilem, apenas comprem!”.Ano seguinte, o tema seria dance music, inspirado na ferveção de Ibiza. Na passarela, um night club, onde as modelos, desta vez, trepidariam ao som da DJ Anna Kazz. Ao que Amaury, em semelhante reunião com as beldades, foi igualmente claro:“Não desfilem, apenas dancem!”. A fórmula parecia perfeita, até que o espevitado Frankie entrou em conflito com o discreto Amaury. Ávido pelo sucesso e sem papas na língua, Frankie provocou escândalos em entrevistas e recebeu cascudos de Cito Mendes Caldeira, no clube Med, após dizer que sua mulher, a bela Eleonora, era uma “perua deslumbrada”. Despertou ódio ao afirmar que os venerados estilistas Gloria Coelho e Reinaldo Lourenço não sabiam se comportar à mesa. O pior viria no terremoto noticiado pela TV Globo e pela Folha de S.Paulo (em página inteira, com direito a histórias em quadrinhos ilustrando o episódio!). Frankie, ao ser barrado por tentar entrar na primeira classe de um avião para cumprimentar a seleção brasileira, baixou as calças e fez xixi no corredor. Desembarcou no Brasil algemado.Foi a gota d’água! Amaury requisitou o advogado Carlos Forbes e, por meio dele, chegou ao acordo que queria. Passaria tudo para o nome de Frankie, sob a condição de continuar com um alto salário como único estilista da marca, morando em Paris. Não durou muito. A má administração de Frankie fez com que a empresa desabasse, sendo Amaury obrigado a voltar. Os conflitos aumentaram.Após um deles, Amaury apareceu morto, enforcado, em seu apartamento no Arpoador. Frankie, acusado de assassinato, fugiu para a Argentina, onde morreu, em janeiro de 2015, de ataque cardíaco. Tudo terminou de acordo com a frase que Frankie repetia no início da carreira: “Um dia, vamos arrebentar a boca do balão!”.