Inès veste camisa estampada Ines de la Fressange, feita sob encomenda na Índia; calça branca Ines de la Fressange Paris; mules Roger Vivier; bolsa de paetês Merri Merri e óculos de sol Ines de la Fressange Paris - Foto: Christopher Sturman
Inès veste camisa estampada Ines de la Fressange, feita sob encomenda na Índia; calça branca Ines de la Fressange Paris; mules Roger Vivier; bolsa de paetês Merri Merri e óculos de sol Ines de la Fressange Paris – Foto: Christopher Sturman

Por Eléonore Marchand, com edição de moda Kristen Ingersoll

Em um dia de alta temperatura, 44º C, no fim de junho, passamos pela cidade medieval de Tarascon, na Provence, no sul da França, e seguimos por uma estrada com muito vento, oliveiras ao redor e que parece não dar em lugar algum. Sem nenhuma construção à vista, continuamos a dirigir até um caminho de terra, com as janelas escancaradas, e apenas o som das cigarras e a sensação pesada do calor escaldante que atravessa o carro.

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Finalmente, chegamos à cênica propriedade de Inès de la Fressange, a estilista, escritora e modelo de 62 anos, que é um ícone do estilo francês. O terreno se espalha por 15 hectares de arbustos de lavanda e mais oliveiras com troncos retorcidos, que circundam a fachada off-white da casa, cujas portas e persianas são pintadas de um azul suave.

Foto: Christopher Sturman
Foto: Christopher Sturman

Inès, vestindo uma calça de cordão de linho azul-marinho e uma camisa oversized branca, também de linho, imediatamente nos cumprimenta com um sorriso contagiante e uma atitude descontraída. Em meio à grandiosidade da residência, ela instantaneamente faz você se sentir bem-vindo. “Vou mostrar a casa”, ela diz, e “não se preocupe, pode fazer o que quiser, mover as coisas por aí. Não sou neurótica”, brinca, dando uma risada alta. “Esse é exatamente o tipo de casa que não foi feita para ser fotografada pela Harper’s Bazaar. Tudo vem do mercado de pulgas.”

Ela conta que queria uma casa que parecesse que sempre existiu e que fosse de veraneio, para família, amigos e cachorros. “Para as pessoas entrarem e saírem livre e alegremente, onde tudo é simples e nada é precioso. Alguns políticos e celebridades já se hospedaram aqui, mas tiveram de adotar este estilo. Em geral, eles gostam.”

Foto: Christopher Sturman
Foto: Christopher Sturman

Foi há mais de 30 anos que Inès se apaixonou pela região da Provence, onde conheceu e se casou com o empresário e historiador de arte italiano Luigi d’Urso, pai de suas duas filhas, Nine, 25 anos, e Violette, 20. A Provence permaneceu como seu destino idílico mesmo depois de viúva. É onde ela reúne amigos, família e o executivo de mídia Denis Olivennes, seu companheiro há 10 anos. “Na Provence, você pode fazer muitas coisas, jogar tênis, golfe, cavalgar, mas é realmente um lugar para pessoas que apreciam não fazer nada. Nós somos franceses, então, comemos, dormimos e lemos. Vamos à vila, onde se ouve música e se encontra amigo”, diz.

Foto: Christopher Sturman
Foto: Christopher Sturman

Ela ressalta que existem festivais de teatro no verão e exposições de arte de alta qualidade, o Museu Frank Gehry será inaugurado em breve na cidade vizinha, Arles, e ainda há os grandes museus na cidade de Avignon, bem como o Palais des Papes, um dos maiores e mais importantes edifícios gótico-medievais da Europa. “Depois de anos viajando, entendi que bons lugares têm história, um passado cultural. Aqui, os romanos construíram muitas estradas e monumentos, e você pode sentir isso. Henry James escreveu sobre sua viagem à Provence. Hemingway também amou a região. Às vezes, você vai ao fim do mundo e há belas praias, mas, depois de três dias, está cansada. É algo esnobe de se dizer, mas há uma falta de história que você pode sentir. Ou talvez eu seja apenas uma mulher europeia, velha e tradicional.”

Ela usa vestido Forte Forte, bracelete da loja de joias Pinus, em Arles, e cesta Ines de la Fressange Paris - Foto: Christopher Sturman
Ela usa vestido Forte Forte, bracelete da loja de joias Pinus, em Arles, e cesta Ines de la Fressange Paris – Foto: Christopher Sturman

Enquanto nos conduz pelo sobrado, que foi um retiro de monges no século 18, ela aponta a luz quente que entra na casa. “A luz na Provence é incrível, por isso Cézanne, Gauguin, Van Gogh, Picasso e tantos outros pintores amavam a região”, comenta.

Paredes caiadas e cortinas de linho vestem os quartos rústicos, porém elegantes, mobiliados casualmente com mesas e cadeiras de madeira, juntamente a cestos de palha e outros itens de decoração ecléticos comprados em mercados locais ou em viagens para Marrocos, Tunísia e Índia. Uma mistura de texturas em tons de terra e toques de vermelho, ocre e azul, dispersos por toda a casa, revelam uma pensada composição artística de elegância informal, que projeta perfeitamente o estilo natural, mas refinado, de Inès.

Foto: Christopher Sturman
Foto: Christopher Sturman

“Faço mood boards para as casas, assim como faço para as minhas coleções de moda”, conta. “Sigo uma história. Esta aqui tem bastante branco, um pouco de marrom, de mostarda. Visto casas como visto uma mulher. Nunca vestiria alguém da mesma forma. Tenho um imóvel na Normandia e outro em Paris, a decoração é muito diferente.”

De fato, Inès sabe sobre mood boards e criação de looks. Ela já desenhou 14 coleções para a Uniqlo nos últimos sete anos, é embaixadora da grife de sapatos Roger Vivier há 17 anos e tem a própria label, com loja no Rive Gauche de Paris, que vende roupas femininas, acessórios e artigos para casa. Como autoridade da moda, ela publicou vários best-sellers sobre a elegância parisiense, mas seu conhecimento remonta à experiência, no início dos anos 1980, como modelo e musa de Chanel e Karl Lagerfeld. “Aprendi com o melhor professor, Karl Lagerfeld, na melhor escola, Chanel”, diz ela, que acredita que trabalhar por sete anos no ateliê com Karl é como ter diploma da Central Saint Martins ou ainda melhor.

Inès usa camisa jeans e calça de linho Ines de la Fressange Paris e sandálias Roger Vivier - Foto: Christopher Sturman
Inès usa camisa jeans e calça de linho Ines de la Fressange Paris e sandálias Roger Vivier – Foto: Christopher Sturman

“Você aprende muito. Aprendi sobre negócios, comunicação, marketing. E não foi em reuniões, porque Karl detestava reuniões. Durante as provas de roupas, às vezes, eu falava: ‘Está horrível, não faça isso’, e ele respondia: ‘Sim, está horrível, mas temos de tentar, é importante’. Foi uma boa lição. Você deve sempre ir um pouco além e se perguntar: ‘Por que não?’, mantendo uma mente aberta, sem preconceitos.”

Essa mente aberta parece ser natural para Inès. No início de carreira como modelo, ela foi chamada de “manequim falante”, por sempre estar disposta a posar para fotógrafos e falar com jornalistas. Sua personalidade cheia de charme e confiança chamou a atenção do universo da moda, enquanto seu estilo despojado foi copiado por quem desejava ter sua elegância. “Meu estilo é simples: jeans branco, azul-marinho, camisas oversize. Uma simples camisa de seda branca cai melhor em mim que as bordadas. Quando tenho de me arrumar mais, porque estou casual a maior parte do tempo, uso sapatos ou uma bolsa Roger Vivier.”

Foto: Christopher Sturman
Foto: Christopher Sturman

Ela conta que as pessoas se decepcionam muito quando vão a sua casa, porque encontram malhas azul-marinho, camisas brancas, jeans brancos, esperando bordados Chanel. “Minha evolução é menos, menos e menos. Quando vejo minhas fotos aos 25 anos, usava batom, máscara de cílios, penteados e brincos grandes. Quando se é jovem, há a sensação de que você precisa de muito. Cabelo, roupas, você é consumista. Ainda sou, mas não quero mostrar isso”, ri.

Ela comenta que, quando olha as fotografias antigas, suas preferidas são as que aparenta simplicidade. “Leva-se uma vida para entender isso. Depois de uma certa idade, o excesso é patético. Se você está usando casaco de pele, bolsa crocodilo, diamantes e óculos escuros, vai aparentar ser dez anos mais velha. Por que gastar todo esse dinheiro para parecer mais velha e pior?”

Foto: Christopher Sturman
Foto: Christopher Sturman

Aliada a seu talento estético, a perspicácia nos negócios permitiu que Inès criasse uma marca forte com conhecimento para vendê-la, enquanto a renovava constantemente com seu jeito livre de ser. “Notei que aqui, geralmente, no fim das férias, todo mundo desaparece, voltando à vida real. Então, pensei: ‘Por que eu deveria retornar à vida real?’ É absurdo trabalhar um ano inteiro para ter um mês de férias. Vou a reuniões como se fossem encontros com amigos, tento ficar tranquila no trabalho do mesmo jeito que fico quando estou aqui.”

Foto: Christopher Sturman
Foto: Christopher Sturman

Ela comenta que lê artigos sobre mulheres que conseguem acordar cedo, tomar suco verde, praticar ioga, meditação e, depois, têm tempo para cuidar das crianças e sair à noite, mas não é esse tipo de mulher. “Sou preguiçosa, me atraso, sou procrastinadora… Mas trabalho com pessoas que amo, seja na Inès de la Fressange, na Uniqlo ou na Roger Vivier. É meu grande luxo. E confio nas pessoas.” De la Fressange parece ter encontrado a fórmula perfeita para seu sucesso, enquanto mantém a tranquilidade.

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