Foto: Reprodução/quarantinechat.com

Por Matheus Evangelista

Que atire a primeira pedra quem não está assim, meio borocoxô na quarentena. Tem gente que não dorme, tem quem não coma (e quem coma demais!), quem deixou de fazer exercícios físicos (eu!) e de ver amigos e parentes – só de pensar a gente também fica triste. Mas engole o choro que seus dias de solidão acabaram. Quem vive na enxurrada de whatsapp ou não aguenta mais o feed orgânico do Instagram e as notícias destruidoras de sentimentos precisa de um break, certo? Certo!

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Quando foi a última vez que falou ao telefone? Se tem esse hábito que bom, se não, vamos fazer você voltar ao “alô, quem fala?” num piscar de olhos. Criado como “Dial Up” em 2012, o aplicativo de chamadas anônimas tem como principal objetivo conectar pessoas mundo afora para conversas triviais sem o mínimo de exposição. Ahn? É isso mesmo – e com a quarentena ele foi remodelado e ganhou o nome de QuarantineChat para ajudar quem andava tristinho por aí a falar com pessoas, falar sobre qualquer coisa e se distrair. Resolvi testar, claro…

LÁ VAMOS NÓS

O aplicativo é free as a bird e ninguém paga nada para receber as ligações. Uma vez instalado, um cadastro simples vai te levar a uma página de afinidades. Quais são elas? Tarô para quem é do mundo astral, livros, receitas, lembranças, poesia, relacionamentos, trabalhos em madeira (!) e até café da manhã – para quem adora uma conversa matinal.

Após escolher os temas que te agrada, é hora de escolher os horários que gostaria de receber uma ligação e a língua que a pessoa deverá falar (optei por inglês e português para não complicar ainda mais minha vida). Optei pelo tema viagens e “noite adentro”, pensado para quem não anda dormindo direito (meu caso!). Não é necessário se identificar durante uma chamada e caso não queira atender não tem problema, é só não desligar. Simples & simples.

Assim que finalizei e validei o cadastro me arrependi. Que maluquice é essa de falar com pessoas de sabe-se lá onde em inglês de madrugada? Ou falar sobre viagens? Quem está viajando agora? Graças a Deus o míni acesso de pânico passou e a vida seguiu. Dois dias depois fui surpreendido por uma ligação no meio da tarde (um ícone de avião aparece para identficar que a chamada é do aplicativo).

Gelei! Não quero falar nem com minha mãe, vou atender estranho? Desliguei sem pensar duas vezes e meu coração palpitava num mix de susto e curiosidade. Quando já nem lembrava do tal App, entre um filme e cigarros, o celular começa a vibrar, ícone de avião na tela, o que eu faço? Atendi.

Alô? “Hi” ouvi do outro lado numa voz de mulher. Caroline disse ter 28 anos e morar em Dublin, na Irlanda. Com o coração saltando respondi um Hello e começamos a… conversar. No papo noturno que durou quase 30 minutos (antes da ligação cair sozinha), ela contou como estava lidando com a quarentena, seus medos e vontades; fiz o mesmo e por alguns instantes ela parecia uma amiga distante.

Eu deitado no sofá, quase meia noite, e ela sem ter dormido por insônia, disse que o aplicativo a tranquilizava. Era arquiteta e estava com medo de sair de casa, de ver os amigos e familiares. Nunca mais falarei com ela, não há como retornar a ligação e só me resta imagianar que consegui a distrair um pouquinho.

A segunda vez era de madrugada e eu estava dormindo. Acordei no susto. Quando vi o tal avião pensei em ignorar, mas atendi. Desta vez era um homem de 40 e poucos anos, um inglês truncado e falava de longe – Istambul, ou foi o que consegui entender. Estava fazendo compras e feliz por estar nas ruas outra vez.

Conversamos sobre o tempo, ele disse que tinha vontade de conhecer o Brasil, falamos de futebol e de como a liberdade é maravilhosa. Por quase uma hora o acompanhei por compras numa cidade que nunca pisei. Ouvia ao fundo conversas em turco e a respiração ofegante de quem zanzava de lá pra cá na maior euforia que poderia imaginar. Depois que a ligação caiu, pensei na felicidade dele, e de como eu gostaria de sentir o mesmo daqui a pouco.

Com atualizações recentes, novas temáticas foram adicionadas, como racismo e jardinagem, além de uma agenda de quando as próximas ligações devem ser recebidas. Dei um update nas minhas escolhas e não vejo a hora de embarcar numa conversa com algum estranho outra vez. Conversar com alguém que a gente não conhece, dividir vontades e histórias, ouvir, ser ouvido. O conforto para uma pandemia pode estar a um telefonema de distância.