Foto: Timothy Rosado, com styling de Rowan Harper, edição executiva de Filipa Bleck e beleza de Aracely Arocho

Por Antonio Isuperio

Este texto é uma carta de amor. Uma carta de amor para todos aqueles que não se encaixam em padrões. Para todos os rebeldes. Para todos os grupos que são a fonte de tudo o que tem de transgressor no mundo, e que nos inspiram sempre a respirar novos ares, a caminhar por novos campos e a duvidar de todas as certezas.

Esta carta é para você, que eu sei, não tem sido o destinatário de muitas delas nestes últimos tempos – que insistem em não reconhecer que já não somos mais os mesmos, e não mais seremos, ainda bem. Este momento pandêmico despertou visibilidade aos marcadores sociais, que são frutos desta histórica tecnologia coletiva desenvolvida, e que gera discriminação negativa de uma série de corpos dissidentes.

Estes, que resistem bravamente contracorrente nesta força motriz sofisticada e sem perspectiva de findar. É sobre estes personagens a que me refiro. Todo meu amor a vocês.

Alguns nomes desses semeadores de sonhos são Lélia Gonzalez, Abdias do Nascimento, Angela Davis, Sueli Carneiro e Milton Santos. Sempre, um pequeno grupo se movimenta para que a grande maioria entenda que é preciso se mover. Estas pessoas conseguem enxergar um futuro que ainda não se manifesta.

E o resultado deste transformar talvez não se apresente na existência de quem age na perspectiva da mudança. Esse sentimento foi o dispositivo que gerou a ideia deste editorial, para ilustrar esta edição de Bazaar que tem como tema o “ser político”. E são os desdobramentos políticos que abalam nossas estruturas sociais, que continuam a provocar novas diásporas pelo mundo e, por esta razão, nós quatro ativistas, negros e sonhadores, nos encontramos em Nova York.

Estou aqui, em primeira pessoa, para que este texto seja legítimo, e trago estas novas caras. Conheçam um pedacinho de nossas histórias: Inês, Marry, Luiz e eu.

Antonio Isuperio

Antonio Isuperio – Foto: Timothy Rosado, com styling de Rowan Harper, edição executiva de Filipa Bleck e beleza de Aracely Arocho

Filho de Eny Silva Pereira (ex-empregada do lar) e Antonio Isupério (educador), comecei a trabalhar com 7 anos de idade e, aos 9, já dirigia carro e moto para fazer assentamento de vidros em outras cidades do interior de Goiás, perto de Ipameri, onde morava. Às vezes, ia acompanhado do meu irmão de dois anos a menos que eu.

Já cuidei de hortas, trabalhei em empresa de silk screen, fui caixa de posto de gasolina e até tequileiro de uma casa noturna do principal shopping de Goiânia (tudo antes dos 17). Sendo da primeira geração de universitários da minha família, ingressei na faculdade estadual de arquitetura com 17 anos e, após concluir, me mudei para São Paulo.

Tive a oportunidade de ser contratado por grandes empresas de varejo nacional e, com o acesso à renda, pude financiar meu MBA em varejo na FGV. Tinha inglês fluente, experiência internacional e cursos de especialização em uma das melhores universidades da minha área no mundo e, mesmo preenchendo estes requisitos, tive que sair do Brasil por conta de racismo.

O mercado não conseguia me absorver nos patamares profissionais que havia alcançado. Hoje, aos 38 anos, trabalho com design estratégico de varejo em Nova York, buscando construir novas ferramentas para combater o racismo sistêmico. Dentro destas perspectivas, resolvi estudar sobre raça, gênero e classe, e batalhar para poder realizar o sonho de ter meus filhos no meu País, que tanto amo. E é por isso que meu Instagram não é apenas sobre mim.

Inês Ferreira

Inês Pereira – Foto: Timothy Rosado, com styling de Rowan Harper, edição executiva de Filipa Bleck e beleza de Aracely Arocho

Enquanto vendia amendoim, chocolates e água nos trens dos subúrbios de São Paulo, na infância, Inês percebeu o quanto a comunicação é importante. Sabia que só tinha entre uma estação e outra para convencer as pessoas a comprarem. Uma longa trajetória de desafios superados e políticas públicas, como o ProUNI, contribuíram para sua mudança de vida.

Aos 33 anos, é especialista em marketing digital, sua profissão em Nova York. Após se especializar pelo Mackenzie, e trabalhar em diversas empresas no Brasil, escolheu levar seu entusiasmo para o mundo e compartilhar em seu podcast/Instagram que viver na Big Apple não é fácil, mas é possível! É um trabalho de representatividade importante para inspirar mulheres negras a sonharem em conhecer novos lugares, novos ares e encontrar o amor verdadeiro: o amor próprio.

Inês co-fundou, dentro da plataforma Clubhouse, o projeto CHinder, espaço focado para que pessoas pretas, trans, com deficiência, povos originários e demais minorias, possam se comunicar e trocar afeto. “Nossas histórias em primeira pessoa são importantes para construirmos pontes que diminuam as desigualdades e, para isso, é necessário criar e ocupar espaços para um mundo melhor, mais diverso e inspirador”, resume.

Luiz Roberto Lima

Luiz Roberto Lima – Foto: Timothy Rosado, com styling de Rowan Harper, edição executiva de Filipa Bleck e beleza de Aracely Arocho

Príncipe do Gueto, como gosta de ser chamado, descobriu que podia ressignificar seu olhar e sua história. Olhos que vivenciaram a miséria e o abandono, a ausência do amor de pai e mãe, que presenciaram o abuso sexual na infância e as agruras dos quatro anos morando nas ruas de Campinas, em São Paulo, na adolescência.

Apesar de tudo isso, optou por dar um outro sentido para o olhar da gente, o olhar da esperança e da justiça, o olhar das coisas, o olhar do mundo… Luiz Roberto Lima, o príncipe, resolveu botar “reparo” no mundo. “Olhar é reparar tudo em volta, sem a menor intenção de poesia”, já escrevia o poeta Manoel de Barros. Essa multiplicidade de olhares se entrelaça entre o ativismo do Príncipe do Gueto e o de Luiz Roberto Lima, fotojornalista, considerado um dos melhores do mundo.

Aos 40 anos, correspondente na Organização das Nações Unidas, em Nova York, o Príncipe diz que, devido à ausência de figura paterna, resolveu se inspirar no ex-secretário geral da instituição, o ganês Kofi Annan. Foi daí que começou a trilhar sua trajetória até a ONU. Luiz foi palestrante no TEDxLuanda em 2014, fez capas da revista “Veja” e dos jornais mais importantes do mundo, como o “The Wall Street Journal” e “The New York Times”. Por meio de seu perfil nas redes sociais, se tornou um importante formador de opinião do movimento negro no Brasil e no mundo, sendo seguido por artistas e membros do Black Lives Matters, dos Estados Unidos.

Marry Ferreira

Marry Ferreira – Foto: Timothy Rosado, com styling de Rowan Harper, edição executiva de Filipa Bleck e beleza de Aracely Arocho

Jornalista e mestre em comunicação e direitos humanos pela Fordham University, de Nova York, Marry Ferreira fala sobre sua trajetória com calma. E é assim que, naturalmente, evidencia seu amor e comprometimento em usar a comunicação para a promoção da justiça racial e de gênero. Seu olhar é o da construção coletiva, no qual enfatiza o legado de mulheres negras que são agentes de mudança e que a permitiram, e ainda permitem, sonhar com novas possibilidades.

Marry já participou da criação de fundos internacionais para mulheres e meninas negras afetadas pela pandemia de Covid-19 na América Latina, integrou campanhas para criar um projeto de lei reautorizando a VAWA, Lei da Violência Contra as Mulheres, e foi uma das organizadoras da Marcha das Mulheres Negras nos Estados Unidos, em 2018 e 2019.

Nascida em São Gonçalo, no Rio de Janeiro, aos 26 anos foi selecionada representante jovem da Associação Internacional de Mulheres no Rádio e na Televisão, nas Nações Unidas. Aos 28 anos, morando em Nova York há três, ela é também cofundadora do primeiro coletivo de mulheres negras brasileiras nos Estados Unidos. Por meio do perfil @kilombacollective, integra uma rede que desenvolve ações de advocacy e solidariedade internacional, com foco em justiça social, igualdade de gênero e direitos humanos.