Igor Zahir – Foto: Acervo pessoal

Por Igor Zahir

Em dois momentos diferentes da vida, me deparei com o que podemos chamar de comida afetiva. O primeiro se estendeu desde que nasci, até poucos anos atrás: minha avó, uma das melhores banqueteiras e confeiteiras que conheci, preparava pratos que ficavam no imaginário da família e de todos que tiveram o privilégio de experimentá-los. Qualquer petisco ou lanche improvisado, virava algo inesquecível com o toque daquelas mãos.

Os docinhos de “dona Margarida” eram icônicos. Com casca de banana ela fazia bifes, transformava caroço de jaca em pudim, os licores chiquérrimos e deliciosos eram uma sensação nas visitas às maternidades. Numa época que não existia MasterChefs ou outros concursos de gastronomia, ela era vanguardista e fazia, como ninguém, a confeitaria de belíssimos bolos como esses que hoje em dia ilustram vídeos impressionantes no Instagram.

A culinária, inclusive, vinha antes da gastronomia, sem afetações, e com a riqueza do compartilhamento: seus preciosos cursos de “Arte Culinária” estão registrados em livros que são verdadeiras relíquias, e, por sorte, estão comigo, escritos à mão naquela letra sofisticada e explicando, passo a passo, o módulo de cada aula. Que privilégio tiveram suas alunas e discípulas! E que privilégio tenho eu, de guardar esses tesouros no imenso baú madeira que ornamentava seu quarto e hoje se encontra no meu home office.

A outra etapa da vida em que me deparei com a gastronomia afetiva, foi há cerca de dois anos, quando, de volta ao interior de Pernambuco, conheci um casal de produtores culturais em Caruaru, que ficaram famosos também por propagar as maravilhas da comida natural. Em um charmoso casarão antigo, Yone Amorim e Antonio Preggo promovem iniciativas como a Mesa Compartilhada, que recebe toda quinta-feira grupos pequenos na mesa de casa, para resgatar aqueles momentos de almoçar sem pressa, com um dedo de prosa ao redor de pratos deliciosos e bagagem cultural impagáveis. Nesta quarentena, eles estão a mil, atendendo em sistema drive thru.

Tem tudo a ver, na estreia desta coluna, fazer uma relação entre as memórias gastronômicas que tenho da minha avó durante uma vida inteira, e da minha amiga Yone na fase adulta. Cada uma a seu modo, elas influenciaram muito no gosto que tenho pela cozinha, pela arte de dedicar horas do meu dia aos condimentos, panelas, aromas e sabores. Por aqui, toda semana vocês verão algum prato meu, mas também os que peguei da minha avó Guida ou de Yone – com quem aprendi a fazer a massa descrita nesta página –, alguns adaptados, outros seguidos à risca. Porque a experiência que ambos tivemos na troca de segredos culinários é assim: nada ao pé da letra, tudo com muita liberdade de fazer, criar, copiar descaradamente e ajustar. Como toda relação de amor deve ser. E, se tem um tempero em comum que não falta em todas as nossas receitas, é o amor.

Foto: Igor Zahir

Receita: fusilli com shitake salteado e molho de pepino com iogurte

Ingredientes:

1 pacote de fusilli (macarrão parafuso)

100 gramas de shitake desidratado

1 cebola grande picada

1 dente de alho

Molho shoyu à gosto

1 pimentão vermelho

1 pimentão amarelo

1 pimentão verde

Gergelim preto à gosto

1 copo de iogurte natural

1 pepino

Azeite a gosto

½ Limão

Sal a gosto

1 colher de chá de amido de milho

Modo de preparo

1 – Cozinhe o fusilli da forma como manda na embalagem e reserve.

2 – Coloque água para esquentar e hidratar o shitake. Quando ele amolecer, tire e reserve uma xícara da água para usar em seguida. Corte o shitake da forma que preferir.

3 – Refogue no azeite a cebola e o alho, acrescente os pimentões coloridos, e junte o shitake, salteando aos poucos, usando a água que ficou.

4 – Assim que começar a ferver, acrescente o molho shoyu com o amido de milho dissolvido. Desligue o fogo e misture com o fusilli.

5 – Para o molho, rale o pepino bem fininho, até ele quase se desmanchar.

6 – Misture com o iogurte, caldo do limão, azeite e sal. Esse molho pronto deve ser colocado em colheradas em cima do fusilli, direto no prato.

7 – Salpique gergelim preto por cima. Está pronto para servir.

Igor Zahir é consultor de gastronomia e vinhos.