Salma Hayek Pinault visita campos de refugiados sírios no Líbano, através da Unicef e Chime for Change, em 2015 – Foto: Divulgação

Para conter o coronavírus, a melhor solução ainda é ficar em casa. Mesmo com a reabertura gradual da economia, a restrição à circulação de pessoas é grande. Ser obrigado a ficar recluso, somado à crise econômica que desestabilizou milhares de lares, tem resultado em inúmeros problemas sociais, entre eles, violência contra mulheres.

As queixas cresceram 40%, segundo o Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos. E não é uma triste realidade somente brasileira. Dados da ONU registram aumentos de casos no mundo inteiro. A estimativa é que os números sejam maiores do que os oficiais, já que o distanciamento também dificulta a denúncia de maus-tratos.

Campanha #StayWithWomen – Foto: Divulgação

“Por isso é tão importante que tomemos uma posição contra a violência de gênero. Precisamos nos unir para defender os direitos humanos de meninas e mulheres. Se não podemos voltar a um mundo como conhecíamos, vamos criar um mundo melhor”, diz a Salma Hayek Pinault à Bazaar sobre a #StandWithWomen.

Chime for Change

A campanha faz parte do projeto Chime for Change da Gucci, em parceria com a Kering Foundation, dos quais a atriz é co-fundadora e board diretor, respectivamente. A proposta financia organizações sem fins lucrativos em todo o mundo. Foram selecionadas cinco instituições, incluindo o Global Fund for Women, que atua com as correspondentes Fundo Elas, no Brasil, HER Fund, em Hong Kong, Mediterranean Women’s Fund, na França e Semillas, no México.

Segundo Salma, essa união solidária quer evitar um retrocesso no progresso alcançado até agora na luta pela igualdade de gênero. A proposta é que o financiamento ampliado, criado pelo Chime for Change e Kering Foundation, permita a continuidade dos trabalhos de mobilização para segurança, saúde e justiça a todas as mulheres, incluindo trans e indígenas.

Essa não é a primeira ação capitaneada por Salma no combate à violência contra mulheres. Criada em 2008, a Fundação Kering lançou este ano a campanha de conscientização #YouAreNotAlone para ajudar mulheres sobreviventes de violência doméstica através de organizações especializadas na Europa e nos Estados Unidos.

No ano passado, na França, co-fundou a One In Three Women, a primeira rede européia de empresas comprometidas com o combate à violência contra as mulheres. Agora, com a #StandWithWomen, a Gucci e a fundação querem enfrentar problemas sistêmicos que já afetavam meninas e mulheres, e foram agravados pela crise de saúde pública e, consequentemente, econômica.

Parte da visão de urgência de Salma em prol de causas ligadas à mulher pode ser creditada à sua formação acadêmica. Antes de ser atriz, ela estudou Relações Internacionais e Ciências Políticas no México, seu país de origem. “Eu me vejo mais como assistente social”, comenta ela, sobre sua função nos projetos que tem contribuído para colocar de pé.

Ela conta que, apesar de nunca ter imaginado trabalhar nessas áreas, hoje vê como fundamental esse conhecimento porque contribui para o entendimento das particularidades das culturas dos mais diversos países. “Não é possível ajudar sem entender como funcionam os governos e seus diferentes conceitos. E, muitas vezes, nós precisamos deles. Então, como falar com eles se você não entende suas políticas e filosofias?”, pondera.

#MeToo

Salma Hayek Pinault nos campos de refugiados sírios no Líbano, em 2015 – Foto: Divulgação

Indiretamente, contribui para seu posicionamento a desafiante experiência de ter sido uma das vítimas de assédio do produtor de cinema norte-americano Harvey Weinstein. O episódio aconteceu durante a produção de “Frida”, que estreou em 2002, e lhe rendeu indicação ao Oscar de Melhor Atriz.

Harvey cumpre sentença de 23 anos em uma prisão de segurança máxima após ser condenado pela série de relatos que deram origem ao #MeToo, movimento de denúncias de abusos sexuais.

Salma criou o projeto Chime for Change em 2013, junto com a cantora Beyoncé, e com o aval da Gucci. “Foi um sinal de mudança especificamente para as mulheres”, recorda a atriz, frisando o pioneirismo da ação. O apoio da marca italiana tem tido o potencial de chamar a atenção e amplificar a consciência das pessoas. “Estávamos à frente do nosso tempo, porque isso foi há sete anos”, analisa. “Não me lembro de nenhuma outra marca que fosse tão focada em empoderar as mulheres em todos os aspectos.”

Por conta do distanciamento social imposto pela pandemia da Covid-19, ela conta que encontrou maneiras de driblar a rotina e cultivar a sensação de liberdade sem sair de casa. Duas atividades prazerosas, afirma, tem sido a conexão com a natureza, acompanhando de perto a evolução do jardim, e cozinhar. “Tenho gostado de manter minha família ansiosa por um jantar ou almoço especial.”

Braço brasileiro

KK Verdade, diretora executiva do Fundo ELAS – Foto: Divulgação

No mês passado, o Brasil se absteve na votação do relatório do Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas sobre discriminação contra mulheres e meninas. O documento traz possíveis impactos da pandemia sobre mulheres e orientações para que os países possam tomar medidas contra eles.

Esse posicionamento coloca o Brasil ao lado de ultraconservadores como Egito, Paquistão, Congo e Afeganistão em questões de gênero. São ações como essa que aumentam a importância de Ongs, como o Fundo Elas, no Rio de Janeiro.

“Com o apoio e serviços governamentais reduzidos para acabar com a violência contra as mulheres, cabe à sociedade civil criar soluções para ajudar as que estão expostas à violência doméstica”, diz a diretora executiva do Fundo ELAS, KK Verdade.

Apesar de não falar em valores, ela acrescenta que as doações recebidas através da campanha #StandWithWomen e do Chime for Change contribuem com iniciativas de rede, como manter contato e fornecer suporte moral, informações sobre cuidados e segurança, criar códigos que as mulheres podem usar se forem ameaçadas e precisarem de ajuda.

Construindo Movimentos

No mês passado, o Elas lançou pela primeira vez edital para o programa “Construindo Movimentos – Chamada de Propostas para Mulheres em Movimento 2020” para receber projetos de financiamento visando o fortalecimento institucional de grupos e apoio assistencial.

No ano passado, foram contempladas iniciativas como Travest, que promove educação de autocuidado para travestis e mulheres trans, em Minas Gerais. “O objetivo é garantir a continuidade e a sustentabilidade de organizações lideradas por mulheres e pessoas LBT”, explica KK, ressaltando que a mão de obra feminina sustenta a economia e está à frente de transformações sociais. “Investir nelas e em suas iniciativas é estratégico para reconstruir o Brasil pós-Covid-19.”

Criado em 2000 por cinco feministas lésbicas, o Elas já apoiou mais de 570 grupos de mulheres que trabalham pela equidade étnica e racial, saúde e direitos sexuais e reprodutivos, autonomia financeira, acesso à cultura, comunicação, esporte, artes e sempre com o intuito maior de acabar com a violência.

Esses grupos, explica a diretora executiva, são liderados, por exemplo, por mulheres negras, lésbicas e bissexuais, pessoas trans, indígenas, quilombolas (comunidades tradicionais dos negros), trabalhadoras domésticas, mulheres com deficiência, jovens, profissionais do sexo e mães de vítimas de violência policial.