Elena Kalil Mahfuz com o neto Eduardo Toldi - Foto: Érico Toscano
Elena Kalil Mahfuz com o neto Eduardo Toldi – Foto: Érico Toscano

Por Dudi Machado

Calma e serena, Elena Kalil Mahfuz, 82 anos, está tranquilamente acomodada no sofá em frente a um biombo de coromandel chinês do século 17, na sala de sua casa, em São Paulo: 1,76m distribuídos em um corpo esguio. Em 1952, a revista americana Time fez uma grande reportagem sobre o Brasil, destacando os personagens mais expoentes do País em diversas áreas. Entre os escolhidos, duas damas da sociedade, uma carioca, Eloiza Xavier, uma paulista, Elena. Estamos em 2015. Elena já não vive na mesma casa, mas posa, especialmente para Bazaar, com o mesmo biombo ao fundo e o perfil elegante de sempre. Eduardo Mahfuz Toldi, seu neto, está ao seu lado. Dona de um senso de humor britânico que torna o papo delicioso, discorre sobre tudo, com desenvoltura. “Tenho desconfiômetro, sempre fui conversável”, resume.

Eduardo comprova as palavras da avó. “A ironia e sabedoria sempre foram traços marcantes da personalidade dela, além do senso estético, proporção e atemporalidade em tudo, especialmente no vestir – essas características são uma constante inspiração para mim e para o meu trabalho”, pontua Dudu, neto com quem Elena declara sempre ter tido uma maior ligação: “Ele tinha uma sensibilidade diferente, nós temos afinidade, no papo e na estética”, explica ela. A conexão entre neto e avó vem da infância. “Passei seis anos morando na fazenda com meus pais e irmãos, foi uma época quase hippie. Meus pais voltaram a viver em São Paulo, e, nessa época, fui morar com minha avó. Foi um choque. Do pasto direto para aquela casa sofisticada e urbana, com mordomo de luvas brancas, jantares e festas”, relembra o estilista, sobre o período que começou a definir seu futuro.

Elena recebe a pintora Luisa Rotta em sua casa - Foto: Reprodução/Acervo pessoal
Elena recebe a pintora Luisa Rotta em sua casa – Foto: Reprodução/Acervo pessoal

Herdeira de uma das famílias mais tradicionais de ascendência libanesa de São Paulo, Elena viveu a capital paulista de maneira diferente, para muito poucos. “Hoje está tudo misturado, mas, naquele tempo, eram rivais os sírios e libaneses, por exemplo, cada um casava na sua própria colônia. O hospital Sírio-Libanês marcou a paz entre eles”, pontua. Os tempos eram outros. “José Kalil, meu pai, sempre foi muito severo com a educação: estudei no Sacre Coeur, muito rígido, todos os dias comíamos banana de garfo e faca, até a casca tirávamos assim”, se diverte.

São histórias de uma vida agitada, marcada por eventos que definiram outras épocas, boa parte vivida ao lado do marido, o empresário Zico Mahfuz, falecido em 1999. “Quando casei, passei seis meses em lua-de-mel ao redor do mundo. No Egito, fomos hóspedes do rei Farouk. Meu pai foi quem deu a sede da embaixada brasileira no Líbano, tivemos uma vida muito política: Jânio Quadros, Ulysses Guimarães e vários outros, além de diplomatas, eram assíduos em jantares lá em casa”, relembra.

Elena sempre foi admirada pela decoração de sua casa e por seus dotes de hostess, como bem define o colunista Cesar Giobbi: “Elena é chique e elegante em tudo o que faz, é capaz de fazer o esmalte da Xuxa parecer a coisa mais moderna do mundo, ao mesmo tempo em que oferece um jantar com a melhor coleção de prataria que já vi. Tudo com muito humor e classe, sempre”.

Essa disposição para o novo, sem deixar de lado a tradição, são traços acentuados de sua personalidade. Quando indago sobre sua ligação com a tecnologia, ela responde: “Minha professora é incrível, me ensina tudo, lê meus e-mails, cobra duas horas, mas fica uma. Fala muito da família dela e vai embora. É terrível, mas fazer o quê? Temos de nos manter atualizados, não é?”. Facebook? “Não preciso. Tenho uma irmã que me dá um report diário de tudo o que aconteceu. Não tenho pique para saber quem foi ao banheiro, a que horas saiu. Isso não me pega mais.”

Elena fotografada para a revista Time, em 1952 - Foto: Reprodução/Acervo pessoal
Elena fotografada para a revista Time, em 1952 – Foto: Reprodução/Acervo pessoal

Companheiro fiel da avó em viagens, Eduardo a acompanhou a Paris ano passado. “Ela é uma grande curadora, tem uma bagagem incrível. Minha avó despertou meu interesse pela estética, mas não, necessariamente, por roupa em si. Meu trabalho, com certeza, é um desdobramento disso. Ela tem coisas no armário com mais de décadas de vida e eu penso isso também quando desenho para a Egrey. O cotidiano de antigamente não é o mesmo de hoje, as necessidades são diferentes”, explica Dudu.

“Sempre me vesti com Dener e Clodovil, era musa dos dois, me mandavam flores. Nunca tive problema em repetir roupa. Hoje, compro roupa pronta, sou freguesa da Armani. Mas é muito mais barato comprar na Europa. Minhas amigas são todas viúvas, mais cinco ou seis gays, a turma é essa, então, saio pouco”, encerra, ou não, já que nosso papo durou horas. Em família ou não, Elena é uma incrível fonte de inspiração.