Lygia Durand, em 1974, em foto produzida para seu book particular - Foto: Reprodução/Harper's Bazaar
Lygia Durand, em 1974, em foto produzida para seu book particular – Foto: Reprodução/Harper’s Bazaar


Em depoimento a Renata Suter

Fotos Antonio Guerreiro

Sempre me interessei por moda, desde criança. Sabe aquelas bonequinhas de papel das quais trocávamos as roupas? Eu desenhava as minhas. Sou filha de um francês artista plástico e de uma brasileira especialista em matelassé, que trabalhou com decoradores cariocas, como Titá Burlamaqui. Fui educada por meus avós maternos. Ela, mineira e craque na costura; ele, um joalheiro baiano. Aos 8 anos, quando vi pela primeira vez uma revista Vogue inglesa e a Twiggy, nunca mais dormi em paz. Foi fatal! Queria ser modelo.

Não tinha dinheiro para comprar as roupas, então, improvisava. Minha avó, exímia costureira, fazia as peças. Certa vez, surgiu um almoço no Copacabana Palace e, sem dinheiro para comprar o tecido, peguei panos de prato novos e fizemos uma saia justa e um top tomara-que-caia, arrematado por um alfinete de mola. Um chapéu de palha enorme, lenço Saint Laurent, um par de sandálias e o corpo de garota fizeram o look. Aos 19 anos, ninguém percebe se o que você está vestindo é, na verdade, pano de prato.

Lygia em clique de David Drew Zingg, aos 17 anos e grávida de Bianca  - Foto: Reprodução/Harper's Bazaar
Lygia em clique de David Drew Zingg, aos 17 anos e grávida de Bianca – Foto: Reprodução/Harper’s Bazaar

Aos 14 anos, abandonei a escola e, contrariando minha mãe, decidi ir para São Paulo, onde não conhecia ninguém. Vivi como pivete: pedi dinheiro, peguei ônibus na Praça Mauá, saltei na Dutra e pedi carona. Foi quando parei em frente à cantina Piolin. Quando abri a porta, dei de cara com todo o elenco da peça Hair! o Ricardo Petraglia me apresentou às pessoas que me abrigaram por um tempo.

Mas, sem emprego e com minha mãe desesperada, decidi voltar. Os amigos fizeram um jantar de despedida, lá no Piolin mesmo, e iam pagar a passagem de volta, quando, durante a comemoração, entrou um homem lindo, de casaco, jeans desbotado, bota prateada, todo descabelado e com aquele par de olhos. Perguntei quem era e, antes que respondessem, ele já estava sentado ao meu lado. Era o empresário Oswald Evans, que viria a ser o pai de minha filha única, Bianca. Foi amor à primeira vista e ficamos juntos. Meses depois, voltamos ao Piolin para jantar e encontrei a editora de moda Regina Guerreiro e o fotógrafo Bubby Costa. Eles me convidaram para um teste. Ali, descobri que poderia ser modelo, mesmo com 1,58 cm de altura.

Lygia em clique de David Drew Zingg, aos 17 anos e grávida de Bianca  - Foto: Reprodução/Harper's Bazaar
Lygia em clique de David Drew Zingg, aos 17 anos e grávida de Bianca – Foto: Reprodução/Harper’s Bazaar


Oswald
fazia de tudo para atrapalhar minha carreira, oferecendo festas em casa, que ele providenciava para que durassem até de manhã. Passamos um carnaval no Rio, quando conheci Pinky Wainer, Antonio Guerreiro e David Zingg, que me perguntou se eu não queria fazer fotos para a revista Pop.

Fui obrigada a recusar, por causa do Oswald, e decidimos nos separar. Solteira, retornei ao Rio, procurei o Zingg e, finalmente, fizemos as fotos. O que eu não sabia, no entanto, é que estava grávida, aos 17 anos. Comecei a trabalhar no Studio Plug, onde Zingg e Guerreiro trabalhavam. Quando minha filha nasceu, havia ficado até as três da manhã na produção da capa de uma revista e dançado na boate Flag até as cinco. Acordei às nove e, às onze, ela nasceu. Oswald estava lá. Nos 5 anos de Bianca – eu estava em Nova York – ele morreu, assassinado, em circunstâncias nunca esclarecidas.

Lygia em foto para a revista Capricho , - Foto: Reprodução/Harper's Bazaar
Lygia em foto para a revista Capricho , – Foto: Reprodução/Harper’s Bazaar

Ao voltar de Manhattan, conheci Mauro Taubman, dono da loja Company. Foi amor comercial à primeira vista. Tinha voltado com novo visual, de cabelos curtos espetados. Ele adorou tanto, que me convidou para ser exclusiva da marca. Jamais selamos nosso acordo com um contrato. A cada etapa, discutíamos quanto custaria e, geralmente, era o equivalente à minha próxima estada em Nova York. Um dia percebi que não tinha mais aquela vontade do início. A câmera não me estimulava. Segui em frente.

Em 1984, comecei a fazer joias de prata, e a primeira ideia foi reproduzir um bracelete que fiz e sabia o quanto minhas amigas desejavam. Dei a ele o nome de Grego, mas as pessoas o chamavam de Escudo. O primeiro vendi para a minha amiga e modelo Carla Pádua.Fui à Fiorucci e vendi outro para a Gloria Kalil, que sempre apoiou meus projetos – ela e Zé Kalil foram importantes na minha trajetória. Gloria o usou numa capa da IstoÉ e, quando voltei, já era designer de joias e não sabia. Criei outras peças, que Gloria comprou para a Fiorucci, e pude viabilizar nova produção. Há 29 anos não paro de vender este bracelete, que já estampou, inclusive, página nesta Bazaar.

Em editorial para o extinto Jornal do Brasil, no início dos anos 1980; e registro da ex-modelo datado dos anos 1970  , - Foto: Reprodução/Harper's Bazaar
Em editorial para o extinto Jornal do Brasil, no início dos anos 1980; e registro da ex-modelo datado dos anos 1970 , – Foto: Reprodução/Harper’s Bazaar

Em minha busca por espiritualidade, estive na Índia, conheci a Gurumayi, mestra do Siddha Yoga; fui adepta do Santo Daime, candomblé e umbanda.

Hoje, posso me dizer católica – o que influenciou minha coleção mais recente. Os braceletes que fazia em 1984 ganharam versões com orações impressas em baixo relevo e medalhas de São Bento, símbolos dos sacramentos e de sacramentais. Não são amuletos, mas santas lembranças.

Atualmente, vivo em Ouro Preto, lugar que escolhi para criar as peças que produzo no Rio, onde gosto de trabalhar. Na cidade mineira, vou à missa todos os dias na Basílica do Pilar, que inspira meu próximo trabalho. Moro com meus quatro gatos, recebo hóspedes frequentes. Tenho dois netos, Gabriel e Bernardo. E, como disse Diana Vreeland, ainda preciso levar o olhar para viajar.