Foto: Getty Images
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Por Carol Andraus*

O conceito de Soft Power (‘poder suave’, em tradução livre’), muito usado na diplomacia mundial, vem se tornando a palavra de ordem no que diz respeito à forma como nos comunicamos e esperamos ser tratados nas infinitas negociações nas nossas vidas. Mas ela ainda é pouco aplicada no nosso dia-a-dia e nas nossas relações pessoais.

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Talvez não tenhamos parado para pensar, mas deveríamos considerar a importância dessa negociação em nossas vidas. E, também, lembrar como podemos aplicá-la em pequenos assuntos familiares (muitas vezes nevrálgicos), passando por nossas carreiras, negócios, funcionários e prestadores de serviço. Além da infinidade de pessoas que convivemos e interagimos e sem esquecer, claro, das nossas relações românticas.

O poder traz consigo responsabilidades. A transparência e velocidade da informação, somadas a um inegável aumento da consciência coletiva, tem transformado o eixo de poder do mundo, dando cada vez mais voz aos chamados idealismos concretos, alinhamentos de valores, a esperança em algo maior ou melhor. E, ainda, conversas de troca mútua (‘two way’). Ou seja: ambas as partes são ouvidas, respeitadas e tem seus melhores interesses levados em consideração.

O novo Soft Power não atende a antigos conceitos de hierarquia, poder econômico ou social. Ele é usado para que pessoas – que nunca teriam uma voz – sejam vistas, ouvidas, respeitadas e aplaudidas mundo afora. Hoje, um adolescente pode ter seu discurso viralizado a fim de incentivar pequenas mudanças de comportamento, seja para melhorar o planeta, uma causa ou alguma injustiça.

Há alguns anos, meu professor de negociação em Harvard, Deepak Malhorta (que vem se tornando uma celebridade e tem uma das aulas mais concorridas da Business School), ensinou como praticar esse novo olhar. Durante uma aula, ele deu um exercício de negociação em que, quem vencia, era o melhor resultado em time (entre as pessoas que negociaram entre si). Concorrendo com meus 170 colegas, todos altamente competitivos e competentes, assim como eu, tive o melhor resultado individual. Mas eu não “ganhei” o exercício.

Me senti uma dinossaura (com o resultado) e confesso que tive dificuldade em absorver aquela mudança de paradigma de imediato. Mas, com o passar das aulas, entendi que o mundo está tomando uma forma muito melhor. E foi assim que, na maior escola de negócios do mundo, minha visão mudou. Entendi o verdadeiro valor em buscar o bem geral, pois o melhor resultado para todos faz com que todos busquem uma saída para todo mundo sair ganhando. Esse é o principal pilar do Soft Power.

Além disso, o Soft Power nos traz a suavidade de poder contar uma história com emoções reais, que toque verdadeiramente a pessoa com quem você está negociando – seja lá o que for. Parar o carro para uma pessoa atravessar a rua ou vender um grande negócio são extremos de negociações. Mas eles se conectam quando usamos uma abordagem de se colocar no lugar do outro, a famosa empatia.

Buscar a verdade, a suavidade, a transparência, o alinhamento de visões transforma a antiga – e negativa visão de poder – em algo que pode ser considerado uma força de cooperação. Estamos substituindo a coerção, ou a simples recompensa, pela atração real e verdadeira. Estamos transformando o Hard Power, que tem cada vez menos espaço e não consegue disfarçar o uso da força e da manipulação, por um modelo muito mais duradouro. É o poder do bom exemplo, da ajuda mútua, do “faça o que eu faço” aplicado ao cotidiano.

Na minha opinião, talvez os maiores embaixadores do Soft Power hoje sejam a geração atual da família real Inglesa, com seus lindos e humanizados Duques e Duquesas, levantando bandeiras para transformar a visão de uma das mais antigas e poderosas casas reais. Com suavidade e beleza, jogam luz a projetos de filantropia. Mas, também, com inegável poder econômico e político de um verdadeiro powerhouse do novo milênio.

Fazer o bem, de forma construtiva, agregadora e eficiente é uma realidade. Mostrar visão com transparência e emoção não é mais sinal de fraqueza, mas sim de consciência. Buscar acomodar todas as partes – de maneira a gerar o maior valor em qualquer situação – é a nova forma de viver pelo exemplo e surfar suavemente a nova onda de consciência que temos o privilégio de assistir e participar. O que pode ser mais ‘soft’ do que isso?

*Consultora de Luxo e Inovação, Carol Andraus é empresaria e jet setter. Atualmente vive entre São Paulo e Nova Iorque. Grande parte do tempo, passa estudando tendências de mercado e comportamento, com ênfase nas novas definições de luxo.