A modelo Karlie Kloss em selfie no backstage. Foto: divulgação
A modelo Karlie Kloss em selfie no backstage. Foto: divulgação

Por Luigi Torre

A cena já é conhecida. As lu­zes se apagam e deze­nas de rostos se ilumi­nam. Em mãos erguidas ao alto, telefones e tablets se posicionam, ansiosos, para capturar o exato instante em que a primeira modelo pisar na passarela. As redes sociais são uma realidade no modo como se co­munica e consome moda. Mas, agora, o assunto volta à pauta na medida em que o mundo digital define como se cria e apresenta o que vemos (ou não) nos desfiles. E à medida também que sua satura­ção começa a dar sinais de mudanças.

O caso ganhou atenção especial na últi­ma semana de moda de Paris – talvez por ter corrido ao fim de um mês inteiro de apresentações; talvez pelo simples fato de a moda, em fase de transição, estar pou­co criativa e inovadora. Fato é que, num mesmo dia, dois megaeventos de repercussão massiva nas redes sociais ofuscaram o que deveria ser o centro das atenções: as roupas. Pela manhã, pensá­vamos que a Chanel havia “broken the Instagram” com sua Brasserie Chanel (com direito a garçons, café creme, champanhe, pain au chocolat e crois­sants). À tarde, a Valentino entrou para o trending topics do Twitter, com 740 twe­ets por minuto (dados do próprio app). O motivo? A invasão da passarela pelos atores Ben Stil­ler e Owen Wil­son, nos respectivos papéis de Zoolander e Hansel, em ação para o segundo filme da franquia.

Nos anos 1980, quando Claude Montana e Thierry Mugler viviam seu auge, por exemplo, designers competiam para ser o mais ousado e criativo. Hoje, a batalha é pelo melhor ponto para suas lojas, publicidade e cliques. E nem precisamos ir tão longe: cinco anos atrás, poucos imaginavam que uma marca como a Valentino permitiria que duas cele­bridades eclipsassem o final de uma cole­ção, sim, esplendorosa, mas esquecida na memória digital. Apesar do trending topics, poucos posts citavam a maison.

Submetidos ao crivo e à pressão de gigantes empresas de luxo, as funções dos estilistas agora são muitas. Preci­sam equilibrar ser comercialmente eficientes e apresentar produtos com uma mínima aparência de novidade. Para mais, não há tempo. O número de co­leções anuais chega a oito, sem contar as campanhas publicitárias, eventos, tapetes vermelhos, vitrines e interiores de lojas. Moda tem disso mesmo. É sempre mutante e se adapta para sobre­viver. Aliás, sobreviveu até agora, pois marcas como Dior e Chanel se adequaram, ainda que a contragosto, ao momento. E, hoje, as empresas estão obcecadas em pensar e agir como entidades de mídia de massa. A imagem vale tudo, daí as superproduções em desfiles, daí as super­campanhas, daí as blogueiras e personalidades vestidas com roupas emprestadas e até o que se vê a cada nova estação nas semanas de moda.

Fila final da Valentino, inverno 2015. Foto: Getty Images
Fila final da Valentino, inverno 2015. Foto: Getty Images

O que ex­plica por que boa parte dos jovens estilistas que se des­tacaram no mercado ganharam atenção com estampas digitais e bordados ultracoloridos – ainda que triviais. Fo­tografam bem. São feitas sob medida – mas para as redes so­ciais. Pense em Mary Katrantzou, Peter Pilotto, Christopher Kane no começo de sua carreira e até em Riccardo Tisci, na Givenchy, com seus grafismos e rottweilers street­-deluxe. É a era da moda em 2-D.Até o casting mudou. Buscar belezas e personalida­des únicas nas ruas já é coisa do passado. Agora, as princi­pais ferramentas são Insta­gram e Facebook. Em entre­vista ao site The Cut, Noah Shelley, da AM Castings (responsável pela seleção de Rick Owens, Calvin Klein, Kenzo e Diesel), admitiu que as redes sociais oferecem meios mais de­talhados para se encontrar rostos e com alto potencial influente. E, sim, a quantidade de seguidores e likes é de extrema importância.

Mas se a história da moda nos ensinou algo é que toda tendência acaba em excesso. Comentários sobre a falta de inventividade das coleções de inverno 2015 re­cém-desfiladas não foram poucos. As novidades vinham mais do styling, do modo com que as roupas eram combina­das, do que do design. E a pirotecnia necessária para o máximo número de cliques já começa a incomodar. Não à toa, alguns dos melhores desfiles foram os que seguiram o caminho inverso.

Banir fotos não é mais uma realidade, como já fizeram Tom Ford e Phoebe Philo, na Céline. A solução é investir no fator hu­mano. Apresentações intimistas, sem grandes cenários, em que plateia e modelos se encontram a distâncias mínimas, são um dos recursos. Céline, Stella McCartnery, Chloé e Louis Vuiton não só aproximaram imprensa e clientes das roupas nas passarelas, como mostraram roupas cujos detalhes, em sua maioria manuais, só po­dem ser contemplados de perto – em fotos, são quase impercep­tíveis. Alber Elbaz, na Lanvin, e Dries Van Noten recorreram a outros recursos: ao valor humano do consumidor. Em outras palavras, combinam necessidades cotidianas (conforto, segurança e praticidade) com design e pro­postas refinadas de atitude e elegância. Mas, acima de tudo, não se levam tão a sério. São imunes ao fre­nesi das semanas de moda.