Da esq. para a dir., Helena usa tricô, R$ 1.390, Max Mara, e vestido, R$ 6.100, Anthony Vaccarello na Mares. Alessandro veste camisa de seu acervo pessoal e avental Empório Bergamin. Pulseira, R$ 1.038, e anel, R$ 1.273, ambos Guerreiro. Giuliana usa body e camisa Giuliana Romanno, jeans Zara e chinelos Gucci. Foto: Deco Cury
Da esq. para a dir., Helena usa tricô, R$ 1.390, Max Mara, e vestido, R$ 6.100, Anthony Vaccarello na Mares. Alessandro veste camisa de seu acervo pessoal e avental Empório Bergamin. Pulseira, R$ 1.038, e anel, R$ 1.273, ambos Guerreiro. Giuliana usa body e camisa Giuliana Romanno, jeans Zara e chinelos Gucci. Foto: Deco Cury

por Ligia Carvalhosa

Dar um tempo da realidade é desejo cada vez mais recorrente no mundo moderno.As saídas nem sempre precisam passar por aqueles sonhos intangíveis de fuga rumo ao paraíso. Em São Paulo, por exemplo, uma turma de profissionais criativos encontrou o escape ideal no farelo de aveia, na farinha de amêndoa e na semente de girassol – ou, em outras palavras, na arte de fazer pão. “Comecei como uma terapia”, conta a fotógrafa Helena Wolfenson.“Trabalho muito no meio virtual e vi a possibilidade de me conectar com algo artesanal. É quase um resgate da infância, das tardes brincando com argila.” De fato, colocar a mão na massa é a resposta perfeita ao momento em que vivemos – diz,sobre a necessidade de sentir e interagir.“É o mesmo conceito que proponho na minha marca,a valorização do feito à mão”, diz Giuliana Romano, estilista que também fez do pão seu mais novo instrumento de experimentação.“Tudo surgiu da vontade de levar os melhores ingredientes para dentro de casa. No começo, bastavam os orgânicos. Na sequência, quis entender os processos, como e por quem cada ingrediente era cultivado e, quando me dei conta, estava na cozinha.”

Desacelerar numa época em que velocidade é palavra de ordem é necessário.“Cada pão pode levar mais de 24 horas para ser feito”, conta o arquiteto Alessandro Bergamin, que, assim como as meninas, é adepto do levain, fermentação natural da massa, responsável pelo miolo leve, de sabor ligeiramente ácido, e pela casca crocante.“O processo todo me agrada e me tranquiliza, é algo totalmente novo e distante do meu trabalho do dia a dia.” O hobby que começou de maneira despretensiosa e autodidata (as primeiras receitas vieram dos livros de Nigella Lawson e Jamie Oliver) ganhou importância e até um ponto de venda. Depois de seis anos como loja de design, seu Studio Bergamin migra para um novo galpão, no mesmo bairro da Santa Cecília, em São Paulo, e passa a dividir espaço com o Empório Bergamin. É nesse café que o neocozinheiro pretende levar suas criações saborosíssimas.

Giuliana também compartilha as invenções que saem da padaria que montou dentro de casa com o marido, Cristiano Baran.“Aos domingos, saímos de bicicleta e skate para entregar pães aos amigos que moram pelo bairro”, conta, sobre o programa que já foi pauta de Bazaar.A variedade produzida na Bakery 200 (nome que faz referência ao número da casa onde moram com os filhos, Antônio e Pedro, no Jardim Paulistano, em São Paulo) é grande: além do sourdough, a estilista também se arrisca com receitas funcionais ensinadas pela health coach Vanessa Kryss, pela nutricionista Fernanda Scheer e pela chef Renata Cruz.

Essa história une pessoas e também resgata vínculos. Quem faz parte da turma do pão sabe que existe o ritual de doar fermento, trocar receitas e sentar junto para ver a coisa tomando forma.“Foi quando me mudei de casa e tive minha primeira cozinha aberta que comecei a experimentar”, conta Helena. Projetado pelo arquiteto André Vainer, o espaço instalado no Edifício Anchieta, no cruzamento da Avenida Paulista com a Rua da Consolação, virou ponto de encontro de uma turma de músicos e artistas plásticos que, se ainda não têm a chance de levar para casa, podem provar as receitas in loco.“Mas foi na época que morei em Nova York que minha relação com a comida mudou.A cultura do fast-food é tão importante que desencadeia um movimento oposto”, explica ela. Se ao longo dos dois anos que trocou São Paulo pelo Brooklyn os ingredientes vinham das hortas comunitárias e das feiras de pequenos produtores locais, agora a graça está em visitar a zona cerealista e conhecer novos grãos e castanhas. O prazer, de fato, não está no resultado final (por mais que partir os pães – com as mãos, é claro – seja um prazer imenso), mas, sim, no processo. De coisas prontas, o mundo já está cheio!