A atriz na pele da sua personagem Maeve, da série "Westworld" - Foto: Divulgação
A atriz na pele da sua personagem Maeve, da série “Westworld” – Foto: Divulgação

Por Mariane Morisawa, de Los Angeles

O lançamento de “Westworld”, em 2016, deixou muita gente apreensiva. Seria a produção mais uma a explorar levianamente a violência contra as mulheres, incluindo o estupro, e relegar as atrizes a papéis como a mocinha em perigo e a prostituta?

Thandie Newton entende a confusão. “Gosto de pensar que quem me conhece como atriz saberia que tento interpretar mulheres com mais de uma dimensão”, diz à Bazaar, em Los Angeles. “Aqui, a exploração e a objetificação de mulheres são subvertidas.”

Com o desenrolar da série, produzida pela HBO, isso ficou claro. A prostituta Maeve, sua personagem, é um robô programado para atender aos desejos mais sórdidos dos visitantes de um parque com temática de faroeste. Ela é uma das primeiras que, ao longo da história, passa a ganhar consciência e lutar contra sua subjugação.

Já na segunda temporada, que estreou no dia 22.04 no Brasil, sua jornada envolve a procura da filha perdida.

À luz de movimentos feministas como Me Too e Time’s Up, “Westworld” e suas personagens femininas woke (acordadas, um termo que ficou conhecido como símbolo da conscientização sobre causas como o feminismo) se tornaram ainda mais relevantes.

Thandie, ativista há 20 anos, não ficou nada surpresa quando explodiram denúncias contra poderosos de Hollywood. “Tenho falado disso há muito tempo. Demorou. Gostaria que tivesse acontecido antes. E, certamente, lutei para que fosse, mas ninguém quis ouvir.”

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Thandine em cena de "Westworld" com Simon Quarterman - Foto: Divulgação
Thandine em cena de “Westworld” com Simon Quarterman – Foto: Divulgação

A atriz inglesa sofreu por abrir a boca num momento em que ninguém queria escutar. “Fiquei no ostracismo. Perdi trabalhos. Acharam que eu era chata, por causa das coisas que continuava dizendo. Não era vista como alguém comível no set. Nem me consideravam para os projetos”, contou. “Não consegui calar a boca. Porque, se pudesse alertar uma menina, ou a família de uma garota que deseja entrar no showbusiness, já seria de grande ajuda. E só isso me importava. Gostaria, com todo o meu coração, de ter tido alguém assim, que tivesse cuidado de mim.”

Newton teve experiências traumáticas com assédio e abuso sexual durante a carreira. Numa delas, um diretor filmou seu teste por baixo de sua saia e depois mostrou para amigos. Ela também teve um caso com um diretor 23 anos mais velho, quando tinha 16. Hoje, acredita ter sido coagida. “Contei porque era uma questão de desespero e sobrevivência, não por coragem”, diz ela.

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O trabalho com mulheres africanas que atravessaram coisas mais terríveis é o que lhe deu garra para seguir adiante. “Mas minha força não é nada, é uma gota no oceano. Estive com mulheres que viveram coisas que nem posso descrever, porque você não conseguiria tirar da cabeça”, completa.

O ativismo de Thandie Newton começou ao assistir à peça “Os Monólogos da Vagina”, de Eve Ensler, fundadora da organização V-Day, da qual a atriz atualmente participa. “Fui falar com Eve depois, e contei minha história pela primeira vez. Não senti mais vergonha. Depois de me abrir com alguém que gritava vagina e boceta no palco, não me senti mais sozinha. E continuei falando…”

Thadine em cena de "Westworld" com Rodrigo Santoro - Foto: Divulgação
Thadine em cena de “Westworld” com Rodrigo Santoro – Foto: Divulgação

Mesmo com todo o seu histórico de luta, ela confessa estar magoada por não ter sido convidada a participar do Time’s Up. “Foi muito doloroso. Mas, no fim, é algo pequeno, só meu ego foi afetado”, diz. “Estou num período de ajuste.”

Recompondo-se, enaltece o que está acontecendo no mundo do cinema e se espalhando para outras áreas. “Muitas mulheres veem esse farol de luz que é Hollywood, essas estrelas, mulheres glamorosas que você jamais pensou ter passado por isso e acabam se inspirando a se abrir também”, desabafa.