Thereza Morena – Foto: André Peirão

Depois de três anos trabalhando com turismo de experiência na Bahia e, agora, dedicando-se à vida sertaneja, em Minas Gerais, Thereza Morena não pretende voltar para São Paulo tão cedo. Preocupada e consciente, a multiartista e empreendedora social de 36 anos, natural de Rio Claro, no interior paulista, viu na aposentadoria da mãe, Josefa, que trabalhou por 48 anos como empregada doméstica, uma forma de se reconectar às origens. “Quando aconteceu a pandemia, senti que precisava voltar para a minha terra. Comecei a fazer um trabalho espiritual e tive esse chamado de buscar minhas raízes”, conta à Bazaar.

Vivendo em Itambacuri (distante 315 km da capital Belo Horizonte), no norte de Minas, sua missão é transformar as terras de agricultura familiar, da Fazenda Laranjeiras, em projeto sustentável e lucrativo com pousada para receber amigos artistas e hóspedes.

Para tanto, foi entender sobre bioconstrução para montar os chalés e implementar a permacultura, sistema de vida rural coletiva, que visa preservar o meio ambiente. “Acredito que a simplicidade é um luxo”, diz ela, feliz em voltar ao lugar em que morou até os 4 anos de idade e onde passava as férias na adolescência.

Com primo vaqueiro, tio que se dedica ao plantio e uma prima que gosta e sabe cozinhar, vai formando uma rede, focada na ordenha de vacas, cultivo de plantas, frutos e hortaliças, coroados pela gastronomia regional. “Quando eu ganho, todo mundo ganha. Para mim, isso é ubuntu (termo africano que significa que um ser só se torna pessoa por meio do coletivo). ‘Eu sou porque nós somos’.”

Foi ao lado do ex-marido, André Moraes, na Fazenda Caranha, em Serra Grande, no litoral sul da Bahia, que viu despertar essa vontade de conexão com a natureza e também vivenciou o turismo imersivo pela primeira vez. “Foi um processo muito bonito, inclusive de autoconhecimento, que me trouxe até aqui.”

Lá, também iniciou parceria com a Diáspora Black (espécie de Airbnb voltado ao público preto), que vai se estender no novo empreendimento. Com seu engajamento artístico, faz parte do coletivo Legítima Defesa desde 2017. “Fala das questões da pretitude, genocídio negro… Todo meu trabalho é do ponto de vista de uma mulher preta, periférica, dentro desse contexto social do Brasil”, explica a também criadora da página @_blackstage_, com mais de 45 mil seguidores no Instagram, que divulga obras de artistas negros no mundo inteiro.

No teatro, Thereza foi entendendo seu papel de ativista cultural depois de muitos “nãos” que recebeu enquanto atriz. “Quando descolonizei o pensamento e fui me empoderar, mudou minha percepção de mundo”, explica ela, citando Maya Angelou e Nina Simone como musas inspiradoras.

A também modelo acredita que sustentabilidade é uma questão de sobrevivência – desde a faculdade de Administração, esse compromisso faz parte do seu dia a dia. “Ninguém, nenhuma empresa, nada daqui para frente vai conseguir viver se não for socialmente justo, ambientalmente responsável e economicamente lucrativo”, pondera.

No fim do ano, deve abrir as portas para receber seus primeiros visitantes em terras mineiras. Para completar o criativo, está escrevendo e desenvolvendo uma marca de roupas upcycling. Seja no interior do Brasil, ou na gigante São Paulo, Thereza é um sopro de poesia, certa da responsabilidade de honrar seus ancestrais. Sempre com um sorriso na voz, empolga-se por desbravar territórios inexplorados sem barreiras geográficas ou sociais.