Vinte jornais diários, dez latas de Diet Coke, sete horas de sono, dois cozinheiros – um para cada metade da semana -, quarenta páginas de fax por dia, 40-50 telefonemas, dois motoristas e vários carros.

Veja como é um dia na vida de Karl Lagerfeld.

8:00 Durmo sete horas. Se vou dormir às duas, acordo às nove. Se vou dormir à meia-noite, acordo às sete. Uso uma camisa longa, branca, de um material chamado poplim imperial, feita para mim por Hilditch & Key, em Paris, baseada em um design de uma camisola masculina do século 17 que vi no Museu Victoria and Albert.

A primeira coisa que faço quando acordo é tomar café-da-manhã. Bebo dois shakes de proteína feitos por meu médico para mim—eles têm gosto de chocolate e nenhum acúcar, é claro—e maçãs no vapor. Só isso. Não gosto de mais nada de manhã. Nunca bebo nada quente; não gosto de bebidas quentes, é muito estranho. Bebo Diet Coke do minuto que acordo ao momento em que vou dormir. Posso até beber no meio da noite e consigo dormir. Não bebo café. Não bebo chá. Não bebo mais nada.

Faço a maior parte da minha leitura de manhã. Tenho uma área para isso, perto da janela, de onde posso ver o Louvre e o Sena. Apenas leio, folheio livros e desenho. E sonho acordado—sonhar acordado é importante também. À noite, há sonhos também, mas não tenho muitos. Leio os jornais franceses, ingleses e alguns americanos, alguns alemães, Women’s Wear—bastante coisa. Leio no papel; prefiro assim.

11:00 Fazem o meu penteado, porque detesto o cabelo caindo no meu rosto quando desenho. Meu cabelo não é realmente branco; é um tipo de cinza e não gosto da cor. Então uso shampoo Klorane para fazer ele ficar totalmente branco. Isso é a melhor coisa a se fazer, pois meu cabelo está sempre limpo.

12:00 Não me visto e tomo banho até a hora do almoço, porque até então estou fazendo um trabalho sujo, pintando com cores. Então uso minha camisola comprida; ela vira um tipo de guarda-pó de pintor e depois vai para a lavanderia. Mando trocar tudo—lençóis, camisolas e robes—todos os dias. Gosto que tudo seja lavável, inclusive eu. Gosto de lençóis antigos rendados e lindas cobertas acolchoadas, mas tudo é branco. No branco, você não pode esconder nada. A maioria das pessoas não gosta de usar este tipo de lençol e outras coisas porque é muito difícil e caro de se manter. Mas é um prazer ir para a cama à noite em uma linda cama, com lençóis lindos e travesseiros lindos, tudo perfeito, em uma camisola recém-passada a ferro. Quando estou pronto, fico de molho na banheira, se você quer mesmo saber. Usava um produto que amava, de Shu Uemura, mas eles não fazem mais, então achei um produto francês que suaviza a água; tem cem anos de idade. Coloco meia garrafa na banheira.

Faço pouco exercício, porque meu médico me disse que não é necessário. Fiz bastante quando era bem jovem e tudo o que você faz quando jovem dura. Sou muito flexível; não tenho nenhum problema.

Meu uniforme mais recente são na verdade dois looks—um com cauda, feito por Dior, mas não do tipo que você usa em casamentos. Mando fazer de tweed e outras coisas do tipo. Tenho outra jaqueta que amo, da nova coleção masculina da Dior. Comprei cinco, então as pessoas acham que visto a mesma coisa todos os dias, mas de fato nunca é a mesma coisa. Uso jeans; no momento são da minha nova coleção. São cinza escuro, com meu rosto, meu perfil, estampado em preto neles, mas você tem que realmente olhar para ver. Meu quarto de vestir está tão cheio que só consigo usar o que vejo no topo das prateleiras. Ainda tenho minhas roupas de 10 anos atrás da Dior, mas acho que vou devolvê-las a Dior para o museu. Tenho peças únicas que nunca vou vestir de novo, porque a vida é diferente agora, sabe.

Mandava muito fax, mas as pessoas não têm mais fax.

Nunca almoço, mas quando almoço, peço para trazerem para mim em casa. Tenho duas casas, na verdade. Esta aqui, que é apenas para dormir e desenhar, e tenho outra casa a dois metros e meio, para almoço e jantar e ver pessoas, onde fica o cozinheiro e coisas do tipo. Não quero aquilo aqui. Mesmo se o lugar for enorme, quero estar sozinho. Se quero alguma coisa, chamo eles, e se eles estão na outra casa, eles vem. O estúdio é na outra casa, o escritório é na outra casa.

16:00 Tenho dois motoristas e vários carros. Tenho um motorista de manhã, que faz as compras para mim e trás os jornais, e outro, Sébastien, que é meu secretário também, que fica livre de manhã e trabalha à tarde e até tarde da noite. No meu caminho para o estúdio da Chanel, gosto de olhar ao redor, gosto de olhar para Paris. Nunca me canso de Paris. Muita gente fica no telefone o tempo todo; eles não vêem mais nada. Gosto de assistir. Venho daqui para a Galignani, minha livraria favorita, e depois para a Chanel, depois para a Colette e, às vezes, para a loja masculina da Dior. Não vou a muitas lojas.

17:00 Chego no estúdio no fim da tarde, porque gosto que o première fique na oficina com os trabalhadores durante o dia. Se eles estão no estúdio comigo, eles não podem supervisionar o trabalho. Fico lá entre as cinco e as oito, oito-e-meia. Sou bem rápido e organizado. O jeito que desenho, o jeito que trabalho, prefiro fazer todo o meu trabalho à noite ou de manhã ou durante o fim-de-semana, e mando tudo por iPhone. Não fico no estúdio manuseando tecidos—não faço isso. Meu trabalho é muito conceitual.

21:00 O jantar depende do dia. Não saio muito porque estou sempre atrasado e muito ocupado e tão feliz com o que estou fazendo que não estou pronto para uma noite social. Isso acabou—as pessoas com quem saia estão mortas ou não existem mais. Às vezes vou à Maison du Caviar, mas na maior parte do tempo janto na Rue des Saint-Pères e venho para casa depois. Odeio a palavra rotina. O que mais detesto é quando você olha no relógio e tem que se apressar para se vestir para o jantar, se você tem um jantar importante. Todo jantar é importante; você nunca deve pular o jantar, mas disso estou um pouco cansado. Para relaxar, depende de quão cansado estou, às vezes leio um pouco. Recentemente, tenho brincado com a minha gata, Choupette. A gata sempre fica em casa e, quando saio, a empregada cuida dela. A gata é como um objeto extremamente refinado; ela não sai na rua, não vai a outros lugares. É uma princesa mimada.