Foto: reprodução
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Por Alexandra Forbes

Em uma bela manhã outonal do ano passado, peguei duas horas de estrada com minha amiga Roberta Mitsuda, que dirige o clube de colecionadores de vinhos Ficofi, para conhecer uma vinícola em Espírito Santo do Pinhal, no interior paulista. Ela jurava que eu me impressionaria com os vinhos. Eu estava bem cética. Vinho muito bom? Feito em São Paulo?! não podia ser!

Sou a primeira a torcer o nariz para vinhos brasileiros – por isso não critico o preconceito dos outros. Se posso, evito bebê-los. De um modo geral, são simplórios, cópias pobres de monovarietais (de uma só espécie de uva) chilenos, australianos ou americanos. A “culpa” está, principalmente, na terra e no clima, que, combinados, são o que os especialistas chamam de terroir. no mundo do vinho, terroir é tudo. E a Serra Gaúcha, de onde vem a vasta maioria dos melhores vinhos do País, jamais chegará aos pés de um Vale do Napa (Califórnia) ou Valle de Uco (argentina) nesse quesito, para citar apenas dois exemplos de regiões propícias para fazer bons vinhos.

Generalizando mais um pouco, para fazer vinho bom é preciso solo bem permeável, pedregoso, dias quentes e noites frias.“É exatamente o que a gente tem aqui neste microclima”, disse-me Paulo Guaspari, diretor da vinícola, quando chegamos. Em 4x4s, percorremos quilômetros e quilômetros através de campos de macadâmia, estradinhas ladeadas de ciprestes e, claro, muitas vinhas. Foi visitando a fazenda de beleza estonteante que imediatamente entendi por que o que se faz ali é tão melhor.

As íngremes encostas – cada qual plantada com uma uva – tomam sol de ângulos diferentes, mas todos os microterrenos – ou vistas,como eles dizem,têm a vantagem de estar entre 1.140 e 1.250 metros acima do mar, em plena Serra da mantiqueira. O clima fresco ajuda. um time eficientíssimo força as parreiras a darem uvas só uma vez ao ano, no inverno (chuvas de verão acabam com vinhos). A partir daí – das uvas perfeitas –, tomam cuidados extremos na vinificação, na belíssima bodega que construíram, que lembra algumas que visitei na Europa, com arte sacra e tonéis de carvalho francês.

Tudo isso custou caríssimo,não só em dinheiro como em tempo e paciência – os proprietários começaram a fazer vinho em 2005, mas mantiveram segredo até 2011. Dá gosto de ver.“o brasil ainda não faz grandes vinhos, mas faz excelentes vinhos”, diz Manoel Beato, sommelier do Fasano. Ele se refere à Guaspari e a outros produtores que considera pontas-de-lança, como Vila Francioni e miolo (em Santa Catarina e na Serra Gaúcha, respectivamente). Já é muito, comparado ao cenário de dez anos atrás. Se hoje concordo com ele é porque o que vi na bela fazenda paulista derrubou meu preconceito…