Eu não tenho medo de avião, mas quando a aeromoça anunciou o sorteio de um Kit de uma marca de cerveja, confesso que fiquei ressabiada. Como assim um sorteio dentro do avião? Com o microfone ela tentava animar, “Todo mundo cruzando os dedos pra ganhar o kit, hein?”. Agora eu pergunto, alguém desperdiça uma cruzada de dedos pra ganhar um kit, estando dentro de um avião? A gente cruza os dedos pra chegar vivo, ou não? Mas nada a fazia parar, “Vai sair pro pessoal da direita ou da esquerda?”. A última vez que presenciei uma loira animada falando num microfone foi em 1989, eu estava no programa da Xuxa e gritava enlouquecida, “Meninas! Meninas!”.

Ainda sem entender a animação da aeromoça, ela deu início ao sorteio, “Poltrona 15 B Alguém no assento 15 B? Não? Então, poltrona 7 A? Alguém na 7 A?”. O vôo estava vazio, a gente seguiu nessa toada por mais ou menos uns sete acentos, e só o que eu conseguia mentalizar era, “Eu não, eu não, por favor, eu não!” querendo evitar o mico, mas não deu outra. “Poltrona 8 A?” era eu. Fiquei quieta por alguns segundos até o rapaz da minha frente me dedurar, “Ela aqui, ó!”, a aeromoça completou, “Palmas para a vencedora!”.

Morrendo de vergonha acomodei meu o kit embaixo da poltrona. Como estava sendo observada por todos, achei que seria muito pior se abrisse o kit, por isso, descobri os prêmios já dentro do taxi – Alguém está precisando de abridor de garrafas e descanso de copos? Antes que eu pudesse iniciar a minha leitura, começou um desenho animado com vozes insuportáveis na TV, ensinando tudo aquilo que a gente tá careca de saber, se, Deus me livre, algo der errado.

Escuta, quem inventou de tirar a aeromoça com cara de bode apontando as saídas de emergências, e assoprando o coletinho amarelo? Quer dizer que a gente não estava entendendo a mensagem, é isso? Foi preciso mesmo criar personagens, desenvolver um desenho, chamar dubladores de filmes infantis, e só agora a gente entende que o assento bóia? Ah tá…

Decolamos. Tremeu um pouco, mas nada demais. Esperei estabilizar, retomei a leitura, e de repente, ela ataca com o microfone novamente, “Senhores passageiros, informo que  hoje teremos o maravilhoso festival da empanada. Ofereceremos a fantástica empanada de palmito! Para acompanhar, refrigerantes, água ou suco.”. Desde quando eles querem te agradar com a comida? Cadê o meu saquinho de amendoim? Cadê a minha barrinha de cereal? Com um sorriso nos lábios, um comissário de bordo me entregou uma caixinha toda desenhada, eu não estava entendendo nada, e agora eu comia uma empanada, vendo desenho.

Ao lado da mesinha, reparei um adesivo colado que dizia, “Siga-nos no Twitter!”. Pensei comigo mesma, pra falar o quê? “Qual é o brinde do vôo SP – POA?” ou “Infelizmente sou alérgica a palmito, vocês me conseguem outro vôo?”. Mas foi aí que caiu a minha ficha. Eles querem ser nossos amigos! Eles estão tentando agradar e enturmar com a gente, e sinceramente, não estranharia se no próximo vôo acontecesse um parabéns a você para os aniversariantes do dia. Efeito das redes sociais. As companhias aéreas finalmente mudaram o seu comportamento, e por causa das redes sociais, passaram a interagir com quem agora dita as regras, o cliente.

Ou seja, uma vida inteira tendo medo de pedir outro cobertor, de ser pega ouvindo iPod, de perder o fones de ouvido, para agora quererem a gente no twitter. Acho um bom começo, mas confesso que estranho e descordo das medidas adotadas. Ficar sorteando brinde e inventar um título divertido para me servir uma empanada não me comove. Aceito de todo o coração as tentativas, mas pra conseguir a minha amizade, ou pra fazer parte do meu twitter, eu acho que vamos ter que começar a conversar mais sobre milhas…