Rachel Maia, empresária e fundadora o projeto Capacita-me – Foto: Reprodução/Instagram/@rachelomaia

Por Li Lacerda

Logo após o assassinato de George Floyd, homem negro asfixiado até a morte por um policial branco durante uma abordagem policial em Minnesota, EUA, sua pequena filha Gianna, então com 6 anos, disse que seu pai estava mudando o mundo. E ela estava certa. Protestos indignados com #vidasnegrasimportam varreram o mundo. Governos, personalidades, empresas, políticos e instituições tiveram que se posicionar, se manifestar, rever conceitos para seguir em um mundo que não admite mais a desigualdade e o horror do racismo. Muitos discursos se perderam no tempo e projetos anunciados jamais saíram do papel, é verdade. Mas acreditem, mudanças aconteceram e há promessas que muitas vieram para ficar.

Carrefour

Meses após a morte de Floyd, o Brasil se viu diante de sua tragédia particular: Em 19 de novembro, véspera da  Dia da Consciência Negra,  João Alberto Freitas, um homem negro foi espancado até a morte em supermercado do grupo Carrefour em Porto Alegre (RS) por vigias que prestavam serviço de segurança à empresa. A promessa pública do presidente do grupo de mudanças e maior ênfase no combate ao racismo estrutural não ficou só no discurso: a empresa hoje tem um comitê permanente de diversidade e sua atuação pode ser avaliada pela rapidez e eficácia com que a empresa negociou com o Ministério Público e a sociedade civil um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) no valor de R$ 115 milhões, a maior indenização da história do País para combater a tragédia do racismo.

A área de diversidade do Carrefour tem seus trabalhos acompanhados de perto pelo Comitê Executivo, composto pelo CEO e vice-presidentes, o que não é comum nas empresas brasileiras.

Apesar de 63,57% dos colaboradores e 53,93% da liderança se autodeclaram pretos ou pardos, nenhum deles ocupa postos no conselho e na diretoria do grupo no Brasil. Ciente do fato, a empresa acompanha a meta global da companhia que é ter 50% de negros na liderança até 2025. Para atingir a meta , a empresa tem um programa de desenvolvimento e aceleração de carreira de colaboradores de perfis minorizados (pessoas negras, pessoas com deficiência, pessoas trans e refugiados). A empresa conta ainda com 753 colaboradores que se autodeclaram indígenas, o que pode ser uma quantidade pequena para uma firma do tamanho do Carrefour, mas significativa se comparada com empresas do mesmo porte.

Para acompanhar e fiscalizar o compromisso de combater o racismo, a empresa tem um comitê externo independente, cujos membros são especialistas em diversidade, inclusão e líderes de movimentos negros, e que tem apoiado a empresa na luta antirracista. Rachel Maia, Adriana Barbosa, Celso Athayde, Silvio Almeida, Anna Karla da Silva Pereira, Mariana Ferreira dos Santos, Maurício Pestana, Renato Meirelles e Ricardo Sales são membros do comitê.

A tragédia que aconteceu com João Alberto nunca será reparada. É um prejuízo irreparável à família do Freitas, à comunidade negra, à sociedade brasileira e à própria história da empresa. A sociedade sabe e o Grupo Carrefour tem consciência disso. Mas vivemos em um tempo em que a sociedade não tolera mais lucros, movido a dor e sangue. Vidas negras importam sempre!

Play 9

Play 9, referência na área de conteúdo digital e com o maior network de Youtube no Brasil, é um dos casos mais bem-sucedidos de política de diversidade racial no País.

Idealizado por João Pedro Paes Leme, sócio da empresa ao lado Marcus Vinícius Freire e Felipe Neto, a empresa criou o Hub Nós, com a proposta de ampliação da promoção de diversidade e representatividade do estúdio de conteúdo que sempre trabalhou com o olhar na diversidade. A iniciativa inclui uma série de debates humanizados, projetos para a contratação de influenciadores negros para as diversas plataformas digitais para o qual o estúdio produz: Silvio Almeida, Ad Junior, Raphael Vicente, Vinicius Junior, Marta, Bruno Correa, Kamile Ramos são algumas das vozes negras mais ouvidas pela sociedade quando o assunto é racismo e diversidade se juntaram ao time da Play 9 e outros criadores de conteúdos negros estão nos planos da empresa.

O movimento da diversidade vai além do conteúdo. O time interno de colaboradores da empresa é diverso e eles querem mais: adotaram o recrutamento inclusivo que vai abrir 25 vagas apenas para pessoas pretas. Estamos falando de 25 vagas para pessoas pretas em uma empresa altamente qualificada.

O diferencial da Play 9 é que o conceito de diversidade cresce com a empresa já que ela é relativamente jovem (menos de 3 anos). Acrescente em sua história o fato de seus influenciadores de voz potente para uma geração ativa política e socialmente, contestadora, que tem orgulho de suas origens e cobram posicionamentos firmes contra a desigualdade e o racismo estrutural presente na sociedade de hoje e que é fruto de 500 anos de escravidão.

Nubank

A participação de Cristina Junqueira, cofundadora do Nubank, no programa “Roda Viva”, em outubro de 2020, quando afirmou que o nível de exigência para se trabalhar no banco é alto e que não dá para “nivelar por baixo”, em referência a uma possível política afirmativa para candidatos negros repercutiu da forma mais negativa possível. Mas a empresa fez mais do que um pedido de desculpas públicas, ela planejou e está executando um dos mais bem sucedidos processos de ampliação de representatividade racial do meio corporativo brasileiro.

Em vez de rebater as críticas, Cristina admitiu que a empresa havia se acomodado ao longo do processo de crescimento, agradeceu publicamente ao “feedback” e partiu para concretizar a agenda de reparação histórica e de combate ao racismo estrutural. O Nubank fez parceria com IDBR (Instituto Identidades do Brasil) com o objetivo de ampliar o entendimento dos gestores sobre o tema. Informação, conhecimento, treinamento contínuo e os resultados mais recentes divulgados pela empresa revelam que 56% das posições de liderança no Nubank são ocupadas por pessoas de grupos sub-representados.

Uma dos movimentos mais notáveis é o Semente Preta, fundo de investimentos focado em startups fundadas ou lideradas por empreendedores negros e negras. O Semente Preta investeR$ 1 milhão em empresas de base tecnológica que já tenham o MVP (produto mínimo viável) validado. Este projeto foi possível a partir de um aporte feito pelo fundo Base10 Partners, conhecido apoiador de companhias que geram impacto social e econômico para comunidade em que estão inseridos grupos sub-representados no mercado de ciências, tecnologia, engenharia e matemática. A importância desse movimento é mais significativa quando se observa que a Base10 Partners é o maior fundo de venture capital do Vale do Silício a ter um empreendedor negro na liderança: Adeyemi Ajao, um espanhol de origem nigeriana que vive há mais de uma década em San Francisco, na Califórinia. Ter Adeyemi como apostando na política de ampliação de igualdade e combate ao racismo estrutural é mais um fator de segurança para quem pretende desenvolver uma carreira em um ambiente diverso e seguro.

Maganize Luiza

De críticas em redes sociais a denúncias por “racismo reverso” no ministério público do trabalho, nada fez o Magazine Luiza recuar da decisão de um  programa de trainee apenas para negros em 2021. Mais do que isso, o programa foi ampliado.

O posicionamento firme da empresa para garantir seu direito garantir acesso a postos executivos a pessoas negras têm voz e rosto: Luiza Helena Trajano, presidente do Conselho de Administração do Magazine Luiza.

A empresária afirmou na época do lançamento do programa que foi a única alternativa da empresa depois de várias tentativas de seleção de pessoas negras em seus processos para cargos executivos já que em cargos de liderança operacional a empresa tem um plano estruturado que treina e promove seus talentos. Foi se perguntando “Como podemos colocar mais negros se eles não aparecem?” que Luiza começou a entender que o problema era maior. O racismo estrutural, que dificulta o caminho de pessoas negras ao sistema educacional de qualidade, ao sistema de saúde de referência, a cultura e as vagas executivas do Magazine Luiza.

A repercussão do programa de trainee do Magazine Luiza expôs mais uma das vertentes do racismo estrutural: o privilégio branco. Quando uma pessoa privilegiada é a favor da igualdade mas recua quando um negro pode ocupar um lugar que ela, no alto de seu privilégio, sempre julgou ser seu por direito.

Dona Luiza, como é respeitosamente chamada por seus colaboradores e admiradores, diz que o objetivo do programa era atender uma demanda interna da empresa e não tinha por objetivo fazer tanto barulho ou mudar o Brasil. Mas seu desprendimento e abertura para aprender e entender o racismo estrutural e sua firmeza para defender tal iniciativa mudaram o posicionamento de outras empresas diante do mesma dificuldade em recrutar negros para seus postos.