As viagens são a maior inspiração de Camila - Foto: Christian Maldonado
As viagens são a maior inspiração de Camila – Foto: Christian Maldonado

Ela é dessas mulheres que, à primeira vista, impressionam de tão bonitas. Característica que logo vira secundária. Não que seja mero detalhe, claro, mas Camila Schnarndorf aparenta não ligar para isso. Existe um predicado que sobressai: sua energia, uma tal vontade de viver, traço essencial dos de bem com a vida, aqueles que andam rindo, não à toa. Aos 30 anos de idade, nossa personagem parece ter nascido em alta voltagem, 320 volts de sorriso no rosto, 24 horas por dia, todos os dias. “Tenho excesso de energia”, brinca, mas nem tanto. Vem do entusiasmo descomedido, provavelmente, seu acúmulo de funções.

Saia e body Paula Raia, pele fake de acervo pessoal, anéis Silvia Furmanovich e Lool e pulseitas vintage  - Foto: Christian Maldonado
Saia e body Paula Raia, pele fake de acervo pessoal, anéis Silvia Furmanovich e Lool e pulseitas vintage – Foto: Christian Maldonado

Casada com o empresário Carlinhos de Barros Jorge, jura que não falta tempo para a vida a dois, mesmo não abrindo mão dos momentos só dela, dos encontros semanais com as amigas e da vida profissional – nome forte da equipe de criação de Paula Raia, Camila é ainda responsável pelo varejo da estilista, que a define como um de seus braços. “Ela é incansável”, endossa Paula. É que Camila trabalha com a paixão extra de quem sempre soube o que quer. “Adorava brincar de roupa.

Os looks da Barbie viravam outra coisa nas minhas mãos.” Profissão escolhida, foi estudar Moda no IED, mas começou a trabalhar logo que saiu do colégio, porque queria ser independente Há onze anos, entrou para o time da extinta Raia de Goeye, de Paula Raia e Fernanda de Goeye. Hoje, funciona como o principal elo entre a criação e as clientes de Paula Raia. Seu segredo? “Quero que a pessoa fique bonita. Então, o que faço é, literalmente, brincar de boneca.”

Brincar de boneca, aliás, é hobby pessoal também. “Cada dia quero ser uma personagem. Meu armário conta diversas histórias: tem a história da mulher perua, a faceta da mulher moderna.” A maior obsessão, entretanto, são os acessórios. “Sou viciada em bijuteria. Chapéu também adoro, tenho uns trinta.” A quantidade de peças, diga-se, é inversamente proporcional ao tempo que gasta para se vestir. “Cinco minutos, sou rápida e prática.”

Praticidade tem a ver com sua personalidade, essa coisa de não perder tempo. “Meu avô já dizia: ‘Deus ajuda quem cedo madruga’. Adotei a máxima para mim”, explica ela, que, normalmente, sai da cama antes das seis da manhã. Camila nasceu no Rio, mas vive em São Paulo desde cedo. Jeito de paulista, coração de carioca. “Até marido eu arrumei lá”, brinca. A história, aliás, merece um parágrafo. “Ele era amigo de amigos, mas eu não conhecia. Acabamos indo passar um réveillon em Trancoso, há seis anos. Logo no avião, uma amiga apontou o Carlinhos, disse que o achava bonito. Mas eu não consegui ver por trás dos óculos horríveis que ele usava.”

Mas o moço tirou os óculos, e havia ainda toda a brisa poética da Bahia. Ficaram juntos. No final de semana seguinte, já na serra carioca, ela o pediu em namoro. “Ele disse que aquela era função dele.” Tarde demais. Aceitou. E namoraram quatro anos na ponte aérea, vivendo um amor de saudade e deliciosos reencontros. Até que ele decidiu ir para São Paulo.

Compraram apartamento, mas o próximo passo assustou. Terminaram a relação com a casa em obras. Seguiram caminhos opostos, que se esbarraram logo depois. Marcaram uma viagem, dessa vez para a montanha mais alta da África. Lá no topo, ainda ofegante pela falta de ar, ele propôs. Estava de joelhos. Ela aceitou. Era janeiro de 2013. Casou-se um ano depois, a bordo de um vestido Paula Raia, numa cerimônia de três dias, com direito a ‘sim’ no Cristo Redentor, almoço no Bar dos Descasados e festa no Museu Chácara do Céu, em Santa Teresa. “Fui passear no museu e disse: quero me casar aqui.

Eles me explicavam que ali não podia. Mas eu dificilmente levo ‘não’ como resposta”, diz, com a lábia que lhe é natural, um misto de jeitinho e gentileza. Gentilezas que aparecem em pequenos detalhes de sua casa, como na almofada que diz, num bordado, que a cor branca é a cor da luz e da espiritualidade, ou em um livro de Alexander McQueen ao lado de imagens de Sebastião Salgado, contrapontos sobre a mesinha de centro. Tem um banquinho de tamanduá, a almofada coruja, o livro do Bowie cara a cara com Mario Testino.

Bolsa de couro Kill e quadro com foto de Daniel Aratangy - Foto: Christian Maldonado
Bolsa de couro Killi e quadro com foto de Daniel Aratangy – Foto: Christian Maldonado

Moda, música e pop art, referências jovens de outros tempos. Combinam com ela. Do seu tempo, ainda bem, não herdou a busca eterna pela peça da vez. “Com o preço de uma it bag eu compro cinco dessas”, diz, enquanto mostra a bolsa de couro Killi. “Meus acessórios, como tudo na minha vida, precisam ter humor.” É com bom humor que ela fala da próxima fase: vai se mudar, em breve, para um apartamento maior. Filhos? “Claro, quero muito. Mas estou mudando pelo meu closet mesmo. Coitado do Carlinhos, metade das coisas dele está no Rio, a outra, no escritório.”

São duas da tarde. Um sol acanhado entra pelas amplas janelas do apartamento, no Itaim. Ela sobe no sofá. E salta. “Quantos pulos você ainda aguenta dar?”, pergunta o fotógrafo, em busca do melhor ângulo. “Quantos precisar”, devolve ela. Diz para, depois, subir no sofá, sorriso no rosto, e pular para a foto, de braços abertos, como quem pula para a vida.