Zezé Motta veste Dolce & Gabbana – Foto: Gabriel Carvalho, com styling de Milton Castanheira e beleza de Gabriel Ramos. Agradecimento especial ao Chez Georges Rio

Atuando com assiduidade na televisão, no cinema e nos shows, e saudada como a mais importante atriz-cantora do país, Zezé Motta durante seus mais de 50 anos de carreira, rompe barreiras e coloca no centro da cena artística nacional as múltiplas dimensões do protagonismo feminino e negro em tela. O seu imenso talento e carreira inspiram atuais e futuras gerações de mulheres que lutam por expressão, espaço e oportunidade.

Zezé é incansável, só neste mês de julho ela está em cartaz nos cinemas de todo o país com dois filmes, “4×100 – Correndo Por um Sonho”, do diretor Tomas Portella, e “Doutor Gama”, filme que retrata a biografia de Luiz Gama, advogado, jornalista e escritor considerado herói nacional por seu ativismo abolicionista no século 19.

Zezé Motta veste Dolce & Gabbana – Foto: Gabriel Carvalho, com styling de Milton Castanheira e beleza de Gabriel Ramos. Agradecimento especial ao Chez Georges Rio

Ela acaba de finalizar mais quatro projetos para o cinema e se prepara para viajar no final do ano com o show “Coração Vagabundo – Zezé canta Caetano”, onde homenageia o cantor e compositor Caetano Veloso. Na TV, Zezé foi escalada pela TV Globo para dois novos trabalhos, “Arcanjo Renegado” e “FIM”, baseado no livro de Fernanda Torres. Com mais de 1 milhão de seguidores em suas redes sociais, a artista tem estrelado campanhas e se mostrado uma voz cada vez mais ativa no digital.

Em ensaio exclusivo para Bazaar, Zezé revela que são duas vertentes que a mantém de pé para produzir: a resiliência e a fé.

Zezé Motta veste Dolce & Gabbana – Foto: Gabriel Carvalho, com styling de Milton Castanheira e beleza de Gabriel Ramos. Agradecimento especial ao Chez Georges Rio

Com mais de 50 anos de carreira, Zezé Motta é a típica mulher da pele preta que se tornou figura respeitada na arte, venceu o preconceito, quebrou paradigmas e desde os anos 70 vem usando seu espaço na mídia para denunciar, lutar e reivindicar a questão do negro. Com seu canto de luta e resistência, Zezé foi a estrela principal do “Especial Mulher Negra”, que aconteceu recentemente nas plataformas do Teatro Bradesco.

Se tivesse que escolher entre a atriz e a cantora, com qual ficaria?

Por circunstâncias da vida, em alguns momentos acabei priorizando uma das carreiras em detrimento da outra, mas eu realmente me sinto uma “cantriz”, e isso não é da boca pra fora. Tanto que, quando estou cantando, busco dramatizar e viver a história de cada música no palco. Fico muito feliz de poder fazer as duas coisas ao mesmo tempo, seja por meio dessa interpretação das músicas em meus shows ou atuando em musicais, que são mais uma oportunidade de explorar as duas coisas e de ser feliz. Infelizmente na TV e no cinema, nunca pude escolher os meus papeis, e teve uma época que eu me revoltei com isso, o que me salvava era a cantora já que na música, sempre pude escolher o que iria cantar, o meu repertório, então isso foi mais que um equilíbrio.

Como você se vê nos dias atuais?

Eu costumo dizer que sou apenas uma mulher, risos. Faço reposição hormonal, uso creme do meu dedo mendinho até o último fio de cabelo, tomo bastante água, mas é aquilo, sinto uma dorzinha aqui outra ali, e lembro que estou com 77 anos. Vez em quando como todo mundo tenho aqueles dias que são um pouco nebulosos, mas logo passa… Tenho a consciência que me tornei uma mulher idosa, antigamente essa palavra me doía o ouvido, mas acabei me acostumando, sou mesmo… Lembro da Tônia Carrero que me dizia: “Zezé, quem não envelhece morre cedo, então envelhecer é maravilhoso”. Teve uma época que foi puxado pra mim… Você tem que se adaptar a essa nova realidade, senão fica competindo de maneira desigual. Mas não sofro mais como sofria. Estou de bem com a vida. Confesso que tive todas as crises que uma mulher tem direito, dos 30 aos 60 e graças a Deus, cansei. Uma das coisas que lamento nesse País é que as pessoas não valorizam o idoso que tem muito a acrescentar e ensinar. Tenho muito a contribuir para as pessoas que estão passando por crise de idade. Graças a Deus estou em cena, com quase 80 anos, fazendo publicidade, filmes, cantando, atuando, isso é uma benção.

Conte mais detalhes sobre o show Zezé canta Caetano.

Não existe falar da Música Popular Brasileira sem nos depararmos com um dos maiores gênios da história: Caetano Veloso. O Caetano é o máximo! O show “Coração Vagundo – Zezé canta Caetano” é um alento àqueles que consomem MPB, as obras do Caetano. Esse show eu lancei em 1990 e fiquei com gosto de quero mais, porque ele só foi apresentado no Rio, na época eu estava fazendo uma novela e não tinha tempo algum pra poder viajar. Veio a pandemia e também a proposta de uma reestreia, topei na hora. Fiz uma releitura do antigo show, que teve direção do meu saudoso Carlos Prieto, hoje uma nova roupagem, onde me apresento voz e piano, criando um cenário intimista e ao mesmo tempo caloroso. “Luz do Sol”, “O Ciúme”, “Odara”, “Esse Cara”, “Sampa” e “Tigresa” fazem parte do meu repertório. Quem me acompanha neste show é o maestro Ricardo Mac Cord.

Falando em “Tigresa”, Caetano fez pra você, não é?

Sempre ouvi esse boato, e sempre fiquei tímida com o assunto. Realmente as unhas negras da “Tigresa” sempre imaginei que fossem minhas, eu pintava as minhas unhas com um esmalte preto comprado na boutique Biba, em Ipanema, quando esmaltes coloridos ainda eram raridade, em meados dos anos 1970. Eu fazia o estilo exótico, com os cabelos curtinhos e batom também preto. Só não trabalhei no Hair, nem namorei Caetano. Em 2015 aconteceu uma grande surpresa. Caetano disse para Nelson Motta que eu fui uma de suas inspirações na música. Até então se dizia que Sônia Braga tinha sido a fonte inspiradora dos versos. Quase tive um treco! Foi um presente lindo.

Você sempre foi uma artista militante, você enxerga avanços nos dias atuais?

São mais de 40 anos de militância, eu seria injusta em dizer que de 40 anos para cá não houve uma mudança, tímida, mas houve em todos os sentidos. O tipo de produto que o negro já participa da divulgação e a frequência também. Eu sou de um tempo em que o negro só divulgava produto de limpeza, os personagens eram sempre subalternos, sou de um tempo em que se eu estava em uma novela não tinha espaço para Neuza Borges porque somos contemporâneas, se a Chica Xavier estivesse não tinha espaço para Ruth de Souza, se a Léa Garcia estivesse não tinha espaço para alguma contemporânea dela, enfim, era assim, a cada trabalho que eu fazia eu falava: meu Deus cadê todo mundo? E as coisas realmente mudaram, a gente liga a TV e já vemos negros um pouco presentes em lugares diversos.

Xica da Silva foi sua consagração, este ano o filme completa 45 anos, o que você tira deste emblemático projeto?

A Xica me trouxe muitas coisas boas… Também algumas complicadas, mais boas que ruins. Ser a protagonista deste filme foi um divisor de águas na minha vida, antes do filme eu conhecia três países, depois de Xica da Silva, passei a conhecer 16 países. Eu não era uma atriz popular, eu não era conhecida no Brasil, e o filme me tornou conhecida no Brasil e no exterior. Eu tinha feito teatro fora com Augusto Boal, no Teatro de Arena, mas eu não era famosa. O filme me fez ganhar todos os principais prêmios de melhor atriz naquela época. O personagem é forte, e marcante, até hoje sou reverenciada por isso. Agora, ela ficou mesmo no imaginário masculino e isso me trouxe alguns problemas, primeiro porque as pessoas misturam a pessoa com a personagem e segundo porque eu vivi o período do sexo, drogas e rock and roll, graças a Deus eu não fui fundo nas drogas, mas era aquela coisa muito livre. Então, meus parceiros, no meio do caminho eu acabei me casando, fiquei cinco anos casada, mas até me casar a expectativa de todos os parceiros era transar com a Xica da Silva. Já ouvi coisas do tipo: “quando um filme se torna realidade” ou “meus amigos não vão acreditar que eu transei com a Xica”. Lembro-me que eu tinha medo de viajar de avião no início, então quem estivesse do meu lado eu pedia para me dar a mão e uma das vezes era um rapaz jovem, e aí eu: “pelo amor de Deus me dá a mão porque eu tenho medo”; o avião estava indo para BH (Belo Horizonte), balançando, e isso para divulgar o filme e o rapaz dizendo: “meus amigos não vão acreditar que eu passei mais de uma hora de mãos dadas com a Xica da Silva”. Era nesse nível, e aí foi um problema para mim porque como havia uma expectativa muito grande, na performance da Xica, então eu fazia toda uma mise-en-scène, a atriz entrava em cena, agora o meu prazer mesmo ficava todo em segundo plano, não rolava.

Um sonho?

Outro dia me fizeram essa pergunta e não tinha uma resposta definida, mas pensei bem e tenho sim um sonho, ver um currículo escolar diferente para nossas crianças, faz falta no currículo escolar que se fale sobre os heróis negros, para que as crianças aprendam a se amar desde crianças. A saída é investir nas crianças.

Como lida com a moda?

Olha, eu nos anos 70 e 80 usava mini saia, bota de couro, unhas pretas, batom preto, fazia a linha andrógina total. Certa vez ao entrar num táxi em Nova York tentei conversar com o motorista para exercitar meu inglês. Estranhei porque eu falava e ele não respondia. Depois de tanto eu insistir ele me respondeu que não falava com travestis. Não sabia se ria ou se chorava. Além deste visual, eu amava as botas de couro, das mais longas possíveis, quase na coxa. Ah, e o batom preto, não podia faltar. Ele não falta até hoje, não vivo sem… Lembro que algumas pessoas juravam que eu não era mulher… Usava muitos decotes, roupas sensuais, isso tudo fazia parte do meu show. Era autentica, na verdade sou ainda. Uso o que gosto e me sinto bem. Hoje me considero gostar da moda clássica. Aquela que nunca sai de moda, sabe? Hoje sou uma senhora comportada, risos. Há alguns anos atrás eu era muito antenada em moda, adorava acompanhar, saber, e não deixava por menos… Hoje não estou mais assim, se deixar uso o mesmo vestido 10 vezes, não sou consumista. Tenho também uma equipe maravilhosa, eles chegam com tudo montado e pronta na minha casa, o meu único trabalho é vestir, não posso reclamar da vida.

Ultimamente você tem usado muito o cabelo Black Power, como neste ensaio, o que isso representa pra você?

Em 1969, viajei aos Estados Unidos com o grupo do Augusto Boal para encenar “Arena Conta Bolívar” e “Arena Conta Zumbi”. Ficamos três meses na estrada. Fomos também ao México e ao Peru. Eu tinha comprado uma peruca lisa chanel e representava com ela. Eu estava em um processo de embranquecimento. Quando nos apresentamos no Harlem, um grupo de militantes negros ficou chocado com o fato de eu usar peruca. Era o auge do black is beautiful, e a gente tinha que manter as características originais da raça. O Boal ainda me defendeu, disse que eu era engajada e tudo o mais. Nesse dia, voltei para o hotel, tomei um banho demorado e deixei meu cabelo voltar ao natural. É que, além da peruca, eu fazia alisamento com pente quente. Ali eu comecei a me aceitar como negra. Saía nas ruas do Harlem e reparava que os negros americanos andavam de cabeça erguida. Não tinha essa postura subserviente que eu sentia no Brasil e em mim mesma. Essa viagem teve essa importância de fazer com que eu enxergasse meu País de fora. No grupo de atores estavam o Lima Duarte, a Isabel Ribeiro, o Hélio Ary, o Renato Consorte, o Fernando Peixoto e eu. A gente se apresentava em espaços alternativos, universidades, centros acadêmicos. As críticas eram as melhores possíveis. O “New York Times” rasgou elogios à minha voz e à minha atuação. Aproveitei para visitar Carmem Costa em New Jersey e dei uma canja no seu show. Cheguei a receber proposta para ficar lá cantando, mas recusei. Preferi voltar ao Brasil. E cheguei pensando: Agora ninguém me segura!

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