Capa de "Antologia da Poesia Erótica Brasileira", de Eliane Moraes - Foto: divulgação
Capa de “Antologia da Poesia Erótica Brasileira”, de Eliane Moraes – Foto: divulgação

Por Vivian Mocellin

Sexo e erotismo na literatura estão em alta, e o sucesso de 50 Tons de Cinza, que já vendeu cem milhões de cópias no mundo todo, não nos deixa mentir. Abordando a temática de uma forma bem menos óbvia, a Flip apostou na dobradinha como um dos eixos temáticos. Conhecido como um dos principais nomes do movimento modernista, que se propôs a pensar a identidade brasileira, Mário de Andrade, o homenageado desta edição, falava da necessidade de organização da pornografia nacional. Num esboço do prefácio de seu mais famoso livro, Macunaíma, o escritor afirma que nossas literaturas populares são frequentemente pornográficas, apesar da ausência de uma sistematização do erotismo literário do País, a exemplo do que acontece com a produção erótica de outros povos, como gregos, indianos e franceses.

Foram essas afirmações que instigaram a pesquisadora Eliane Moraes a organizar o livro Antologia da Poesia Erótica Brasileira, lançado nesta Flip, pela Ateliê Editorial. Segundo ela, a obra é prova “não só da existência de uma lírica erótica no País, mas também de sua extraordinária riqueza.” A extensa pesquisa levantou por volta de 300 poetas e mais de 1.000 poemas – foram escolhidos cerca de 350, escritos nos últimos quatro séculos, por autores brasileiros conhecidos, como Gregório de Matos, Carlos Drummond de Andrade, Hilda Hilst e Arnaldo Antunes, e outros menos populares e até mesmo anônimos.

Ilustrações de Arthur Luiz Piza feitas para o livro - Foto: divulgação
Ilustrações de Arthur Luiz Piza feitas para o livro – Foto: divulgação

Nas 500 páginas de Antologia, a autora privilegiou um conjunto de poemas que variam do tom obsceno ao alusivo, mas sem perder de vista o apelo erótico. Uma das polêmicas que sempre envolvem o tema, entretanto, é a distinção entre pornografia e erotismo. Para o senso comum, o pornográfico seria o que “mostra tudo”, enquanto o erótico, aquilo que é “o velado”. Para Eliane, essa distinção é falsa, senão moralista, já que livros como os do marquês de Sade, Hilda Hilst ou Reinaldo Moraes são muito mais obscenos do que a pornografia comercial de uma Bruna Surfistinha ou de uma E. L. James. “Os    textos    eróticos, quando são de boa qualidade, têm uma capacidade ímpar de mexer com a vida da gente, de nos fazer refletir, de nos transtornar, de expressar coisas que vivenciamos e que    fantasiamos, mas normalmente não conseguimos colocar em palavras. Ou seja, são textos que vasculham nossos subterrâneos. Nada a ver com o erotismo comercial. Em certo sentido, a literatura é como a gastronomia – alguns livros são meros exemplos de fast-food; outros oferecem um banquete para a sensibilidade e o pensamento”, explica.

Eliane participa da mesa da Flip “Os Imoraes”, juntamente com o autor Reinaldo Moraes. Os dois vão conversar sobre literatura erótica e pornográfica, excessos da imaginação, taras sexuais e literárias, autores malditos e libertinagens em geral. Bate-papo saliente, de quem entende da erotização da língua (a portuguesa), que deve elevar as temperaturas de Paraty.

Flip:
de 1o a 5 de julho, em Paraty; Os Imoraes, mesa 11, 3 de julho, às 21h30