Dior Haute Couture SS 26 – Foto: Divulgação

Se a ideia de Christian Dior era perpetuar sua “mulher-flor”, a de Jonathan Anderson é de colocar sua nova “mulher-pérgola” em movimento. Esse é o desabroche de sua aguardada estreia na alta costura e a maison não parece tão frescamente perfumada desde que John Galliano pisou lá em… quando foi mesmo? A última vez, com certeza, foi há poucos meses, depois de Jonathan chamá-lo para dar pitaco sobre a couture e pedir, com carinho, para que seu “herói” estivesse na primeira fila quando o momento chegasse. Chegou e ele estava.

Nos bastidores antes da data marcada (hoje!), rolou até buquês de flores entre eles, mas o estilista debutante seguia dividido. Queria preservar com urgência a “costura francesa”, que diz estar sob ameaça de extinção, e precisava, com seu “jeito inglês”, fazer isso como uma experimentação. Acabou inspirado pelos “gabinetes de curiosidades” que fizeram sucesso na Europa moderna com todo tipo de coisa de todo tipo de lugar. Eram, sim, cacarecos caríssimos espalhados em gavetas e prateleiras, mas, também, maravilhas recontextualizadas.

Com esse pensamento, Anderson assumiu o maior risco da coleção: o que deveria estar em museu (joias de fósseis ancestrais e meteoritos extraterrestres) acabaria na passarela e o que deveria ser quadrado (a bolsa Lady Dior) ganharia novas curvas. Há tecidos do século XVIII tratados como recém-saídos do tear e sapatos Roger Vivier com o bico torcido depois de um “tropeço fatal”. As heresias se acumulam e o resultado é frescor estético.

Pelo olhar de Jonathan, o extraordinário fica ainda mais “extra” quando é quase ordinário. É o caso dos brincos de orquídeas que, ao invés de aparados e comportados, caem das modelos como trepadeiras daninhas. As silhuetas são volumosas (balões florais e pétalas sobrepostas), fluídas (soltinhas até quando acinturadas) e o estilista é despretensioso: disfarça a técnica rígida com folhas, babados, bordados e drapeados. Não quer mudar o destino para a maison Dior. Só vai pegar a rota mais verde.