Por Luigi Torre

Formas e atitudes da alta-costura pensadas para um guarda-roupa moderno. É com essa premissa que o estilista Demna Gvasalia dá rumo e cara nova a Balenciaga com sua coleção de estreia como diretor de criação. Seu ponto de partida são roupas para o dia a dia: o terno de trabalho, a jaqueta jeans, o suéter, a camisa, o trench-coat; porém trabalhados sobre os fundamentos de Cristobal Balenciaga e atualizados para o século 21. A silhueta cocoon (uma das mais icônicas desta maison) aparece em puffa jackets de golas estruturadas caídas sobre os ombros; os volumes estruturados e arredondados surgem nas barras dos blazers ou embutidos em vestidos de alfaiataria; e o corte circular na barra de camisas e jaquetas dá toda uma nova sofisticação à peças básicas. Uma street-couture no melhor sentido da coisa.

Boa parte do sucesso de Demna, tanto na sua Vetements como agora na Balenciaga, está na transformação de tudo que é familiar – sempre na medida certa, a ponto de não anular esta característica, mas também adicionar algo de espetacular. Em ambas as marcas, a linha de raciocínio é exatamente a mesma, só que aqui em versão de alto luxo. O pensamento, na verdade, é quase anti-moda, no sentido em que propõe apenas a manutenção do guarda-roupa em vez da renovação absoluta. O foco é na roupa e nem tanto na narrativa. É mais sobre repensar a relação das peças com o corpo e com a mulher, do que comunicar uma nova visão ou mensagem. O que explica a objetividade do desfile e também a locação (uma sala quadrada, com isolamento acústico). E em tempos de tanta pirotecnia em busca de likes, de ansiedade e déficit de atenção crônico e vida a mil por hora, a atenção naquilo que realmente faz a diferença no nosso vestir é bastante bem-vinda.