Bella Hadid no look book de inverno 2018 de Alexandre Vauthier - Foto: Divulgação
Bella Hadid no look book de inverno 2018 de Alexandre Vauthier – Foto: Divulgação

Roupas amarradas ou repuxadas são itens típicos que escondem significados – e vão de um extremo ao outro. Há quem relacione diretamente ao fetichismo, que apareceu discretamente nos anos 1960, refletindo a busca das mulheres por uma liberdade aos estereótipos de “recatada e do lar”. Na época, o acessório mais simbólico, além da lingerie, era o par de botas formadas por tiras e amarrações que iam até as coxas.

A partir das décadas seguintes, esse mix de poder e sexo deu seus passos apertados na moda, com referências do fotógrafo alemão Helmut Newton e respingos da cultura punk levada por Vivienne Westwood.

Madonna com figurino de Jean Paul Gaultier, nos anos 1990 - Foto: Divulgação
Madonna com figurino de Jean Paul Gaultier, nos anos 1990 – Foto: Divulgação

Mas foi oficialmente em 1990 que os estilistas apresentaram nas passarelas um tom ainda mais forte para demarcar a estética. Assim como Jean Paul Gaultier levou os icônicos espartilhos pontiagudos para o figurino de Madonna, durante a turnê de Blonde Ambition, Thierry Mugler também foi adepto dos corsets atados e Gianni Versace criou, em 1992, uma coleção baseada nas amarrações, com sobreposições de tiras em vestidos girlie, com silhueta ampulheta e delicados florais.

Há marcas que, indiscutivelmente, celebram a sexualidade de um jeito jovem, temporada sim, outra também, com franzidos e amarrações, em modelagens curtas e justas, de Balmain a Saint Laurent por Anthony Vaccarello. Mas esse movimento não é único. Pergunte a Rick Owens, Rei Kawakubo e a uma série de gênios questionadores, que exploram suas armas criativas para impressionar e provocar, o que significa embrulhar e torcer cobertores de lã em um vestido assimétrico esquisitíssimo.

Seria isso sedução? A partir de seu olhar, provavelmente sim, mas o buraco é mais embaixo. Em tempos de manifestações, como Time’s Up e #MeToo, e diversos acontecimentos que sugerem insegurança social e política, acredite, essas peças com faixas que contorcem braços e cintura, quase como uma camisa de força, gritam por proteção.

Yohji Yamamoto, pertencente ao grupo dos minimalistas e conceituais, certa vez destacou que suas roupas eram como armaduras, para proteger de olhos indesejáveis. Com radares atentos a esses sinais, diversas marcas desfilaram looks baseados em alguma veia provinda de manifestos para o inverno 2018.

Marco de Vicenzo, inverno 2018 - Foto: Divulgação
Marco de Vicenzo, inverno 2018 – Foto: Divulgação

Na coleção de Marco De Vincenzo, o apoio foi à causa LGBTQ+. Em uma passarela com listras coloridas e brilhantes, apareceram chemises metalizadas arrematadas com duas tiras acolchoadas encaixadas – e uma pequena bolsa estampada com uma fita vermelha como símbolo da consciência do HIV.

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Versace, inverno 2018 - Foto: Divulgação
Versace, inverno 2018 – Foto: Divulgação

Donatella Versace mergulhou nos arquivos do período de Gianni e resgatou a estética pop com a intenção de mostrar que, por trás de todo mistério, há um toque de glamour. Além das cabeças cobertas por lenços, as peças não se resumiram em modelagens ajustadas e com fendas. Desta vez, ela escolheu elementos volumosos, entre eles o casaco de matelassê com trabalho de capitonê e amarração na gola, para contrastar com a sensualidade dos vestidos curtos.

Marc Jacobs, inverno 2018 - Foto: Divulgação
Marc Jacobs, inverno 2018 – Foto: Divulgação

No exagero de Marc Jacobs, o renascimento oitentista veio inspirado nos grandes nomes da couture da época, traduzidos em estéticas opostas. De um lado, os maxicoats, com suas estruturas pesadas e marcadas por ombreiras. Do outro, um sex appeal compensado por vestidos de malha com repuxados na cintura para um visual matador – mas sem pele à vista.

Zimmermann, inverno 2018 - Foto: Divulgação
Zimmermann, inverno 2018 – Foto: Divulgação

Com uma atmosfera equestre de tempos vitorianos, Nicky Zimmermann apostou nas camisas com mangas bufantes e gola foulard por baixo de jaquetas usadas de forma assimétrica e presas com cintos. Uma espécie de bagunça chique, que evidencia texturas e uma rebeldia entre tanto romantismo na Zimmermann.

Rick Owen, inverno 2018 - Foto: Divulgação
Rick Owen, inverno 2018 – Foto: Divulgação

Em seu cenário perfeito, Rick Owens, o príncipe das trevas, investiu na modelagem com alusão a sobreposição, em que faixas largas contornam o corpo da modelo.

A pitada de haute couture ficou por conta de Alexandre Vauthier, que levou o vermelho-rubi para hot dresses com superlaço lateral, que forma franzidos poderosos. No seu look book de prêt-à-porter, Bella Hadid foi a eleita para apresentar a coleção e simbolizar a nova geração de garotas conscientes por mostrar um posicionamento de liberdade na hora de se vestir. Para elas, a superexposição corporal não é um debate. É uma vontade, sem filtros. Acima de tudo, é preciso ter personalidade para se proteger, mas sem perder a sensualidade jamais!