A fila final – foto: Agência Fotosite

Por Luigi Torre

Se o desfile de Alexandre Herchcovitch, que abriu o SPFW na tarde deste domingo, for algum indicativo do que nos espera ao longo da semana, essa temporada promete muito. Não só porque o estilista mostrou uma de suas melhores e, talvez, mais pessoais coleções nos últimos anos, mas, principalmente, porque soube equacionar com maestria variantes essenciais para o sucesso em tempos tão bicudos como esses pelo quais passamos – e a moda brasileira em especial.

Mas vamos por parte. Ou preliminares como o desfile deu a entender. E sim, preliminares no sentido sexual também. Pois foi sobre amor, sexo, perda, perversão e poder que Alexandre quis falar em seu inverno 2016. Começando com os românticos vestidos-camisola, que abrem o desfile, já anunciando a influência do boudoir (tema recorrente nos recém-terminados desfiles internacionais) também por aqui. Com pequenos babados, formas afastadas e um quê vitoriano, imprimem certo romantismo, ao mesmo tempo em que, com base em camisas masculinas, lembram a força e o gosto do estilista pela alfaiataria e o cross-over de gêneros.

Mas o romantismo, bem como todo repertório de Alexandre, não é óbvio. É subversivo. É assim que blusas femininas e delicadas, com suas mangas bufantes e golas altas, partem da sensualidade velada para a completa revelação. Pele (e peitos) à mostra, com recortes ou aberturas estratégicas, levam a paixão para seu lado carnal, e muitas vezes censurado. Elementos sadomasoquitas, como fitas, argolas e até as botas de salto alto, falam de uma tal perversão e jogo de poder e sedução, reforçado pela trilha, cartela de cores escuras e todo um clima underground à la “Fome de Viver”.

Fazia tempo que Alexandre não se conectava (ou pelo menos mostrava) seu lado subversivo de maneira tão poderosa e emocionante. Em temporadas passadas, estava mais preocupado com a técnica, qualidade e em trazer tudo isso para um guarda-roupa cotidiano. Elementos que seguem presente nesta estação, mas aliado a toda uma atitude e imagem (de não conformismo, ousadia e vontade de ir além) que remetem ao começo de sua carreira. Fato que o consagra como um dos mais bem-sucedidos estilistas brasileiros. Afinal, emocionar, impactar e criar desejo com peças prontas para vida além das passarelas, não é tarefa fácil. Mas essencial em momentos tão extremados e delicados como esses.