Ângela Brito transmite tradição e conhecimento pessoal através de suas peças
Look da coleção “Identidade” – Foto: Divulgação

No minuto em que Ângela Brito terminou seu desfile de estreia no SPFW, no ano passado, já estava vivo em seu coração o tema da coleção seguinte: Identidade. Em dezembro, ela embarcou para Santa Catarina, pequena cidade na ilha de Santiago, em Cabo Verde, onde nasceu.

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Mais do que uma viagem para rever a família, foi uma imersão para dentro de si e um processo de entendimento de onde veio. A estilista está no Rio de Janeiro há 26 anos e, antes, morou em Lisboa. Mesmo assim, conta, convive com um profundo senso de “eternamente estrangeira”. Daí, também, a importância de voltar aonde tudo começou.

Dito assim, até parece que a trajetória criativa de Ângela não retrata seu eu. Ao contrário. “Minha marca é um aprendizado sobre mim e uma maneira de refletir sobre temas como racismo e gênero”, explica. Sua primeira coleção para a Casa de Criadores, em 2018, era sobre o não-lugar, ideia ligada, na sua opinião, ao seu país. “São dez ilhas espalhadas no oceano, longe do continente”, descreve. O que resulta em um certo sentimento de abandono. “Meu pai diz que trazemos isso na alma”, reflete. Tudo isso, mais o eterno pensar o mundo – inegável reflexo de devorar livros desde criança – se mistura no seu trabalho.

Ângela Brito transmite tradição e conhecimento pessoal através de suas peças
Look da coleção “Identidade” – Foto: Divulgação

Na nova coleção, Ângela buscou suporte em fotos antigas e incluiu, pela primeira vez, o panú di terá (pano de terra), considerado vertente identitária. Moeda de troca no comércio da costa africana no período colonial, e transformado em símbolo de resistência na luta pela independência, hoje inspira a moda cabo-verdiana.

Ela conta que acrescentou um olhar contemporâneo à parceria com tecelões que mantêm viva a padronagem original, em preto e branco, que sai do tear. “Há um apelo sensorial à tradição através dos cortes secos, densidade e texturas”, explica. A cartela ainda ganha tons de azul, verde, laranja e off-white em seda e algodão sustentável.

A estilista comenta que as formas se enquadram quase sempre no formato “A” em evasê, ora mais secas, ora mais amplas por causa de pregas, franzidos, babados e plissados. Esses recursos criam camadas sobrepostas em sua base de alfaiataria, outro elemento que ela traz de casa, por influência das tias, e ainda da abrangência católica no país.

Tradição

Ângela Brito transmite tradição e conhecimento pessoal através de suas peças
Imagem do século XIX de uma moradora de Cabo Verde, parte das pesquisas de Ângela Brito – Foto: Divulgação

Partidária da moda como discurso político enquanto questionamento da realidade e da essência social, Ângela segue respeitando a ancestralidade (ela prefere falar em tradição). Dessa maneira, olha para trás e para suas dores para dialogar com o presente e então construir um futuro, sem a necessidade de uma linearidade.

É este posicionamento que coloca sua trajetória na linha de frente do afrofuturismo, vertente que ganhou notoriedade a partir de 1993, quando o termo foi cunhado por Mark Dery, mas que reacendeu há pouco tempo, muito em função do filme” Pantera Negra” e, mais recentemente, do disco “Black Is King”, de Beyoncé.

Mais do que estética, o movimento tem papel importante na desmistificação e na divulgação da cultura preta. E tem papel relevante tanto na questão do deslocamento de africanos devido ao comércio de escravos quanto na atual imigração. A equivalência entre os seres humanos é outro ponto significativo. “Quando olho para uma roupa ou um quadro nunca penso se foi feito por um preto ou por um branco. O importante é se o trabalho te toca.”

Nesse processo, ela conta que tem olhado bastante para a cena carioca e acreditado no força do coletivo, tanto que reuniu um time de profissionais talentosos – ainda agregou a dupla de fotógrafos Marcos Florentino e Kelvin Yule baseada em São Paulo – para produzir os dois vídeos que mostraram a coleção, direcionados ao line-up da versão digital do SPFW e à plataforma Brazil Immersive Fashion Week (BRIFW).

“Queria investir em novas tecnologias”, conta Ângela, empolgada em desbravar caminhos. “A pandemia mostrou que a internet possibilita que estejamos em qualquer lugar.” A partir das facilidades trazidas pela tecnologia, a estilista enxerga a humanidade buscando uma volta ao campo e ao artesanal no futuro. A chave é entender de onde viemos e para onde estamos caminhando.