Por Ana Ribeiro, com vídeo de Lucio Almeida

Vera Barreto Leite Valdez são duas em uma. Usando o sobrenome português do pai, Vera Valdez era como se fazia chamar quando atuava como modelo na Europa. Aos 15 anos, sem ao menos falar francês, já era uma das manequins de Elsa Schiaparelli: “Uma grande artista”, diz ela, que é capa – e recheio – da edição de outubro da Bazaar Brasil, que chega às bancas esta semana.

Blusa de gola Ralph Lauren, casaco Louis Vuitton, calça Dolce & Gabbana e brincos Yeprem para Beatriz Werebe e Beatriz Werebe - Foto: Fabio Bartelt, com edição de moda de Rodrigo Yaegashi e beleza de Helder Rodrigues
Blusa de gola Ralph Lauren, casaco Louis Vuitton, calça Dolce & Gabbana e brincos Yeprem para Beatriz Werebe e Beatriz Werebe – Foto: Fabio Bartelt, com edição de moda de Rodrigo Yaegashi e beleza de Helder Rodrigues

Depois, fez parte do elenco de Christian Dior: “Costureiro espetacular, abriu a moda para o mundo”. Por fim, em 1954, aos 17 anos, aterrissou na maison Chanel. “Coco Chanel era fantástica, fazia roupas pensando em engrandecer e empoderar. O exemplo dela de feminismo é atualíssimo. Desenhava para uma mulher dinâmica e sempre repetia: ‘Quero ver minha moda na rua’.”

Vera e suas colegas da época, um bando de mulheres lindas e jovens, que incluía condessas e princesas – sua melhor amiga era Mimi de Ouro Preto, filha de barão, que depois se casou com um conde e passou a se chamar Mimi d’Arcangues -, fizeram a sua parte. Saíam na noite parisiense vestidas com os clássicos tailleurs e paravam tudo onde chegassem.

Jaqueta Levi’s, segunda pele e meia-calça Lupo, brincos Yeprem para Beatriz Werebe e Beatriz Werebe e sandálias René Caovilla - Foto: Fabio Bartelt, com edição de moda de Rodrigo Yaegashi e beleza de Helder Rodrigues
Jaqueta Levi’s, segunda pele e meia-calça Lupo, brincos Yeprem para Beatriz Werebe e Beatriz Werebe e sandálias René Caovilla – Foto: Fabio Bartelt, com edição de moda de Rodrigo Yaegashi e beleza de Helder Rodrigues

Ficaram conhecidas como Les Blousons Chanel. “As portas se abriam para nós, a bebida surgia do nada, era uma delícia.” Foi nesse tempo que namorou o barão Teddy van Zuylen, homem casado com quem viveu uma grande paixão. “Eu era amante dele. Nunca tive vontade de me casar com ninguém.”

Mulheres aconteceram também, mas Vera sabe que não é essa a sua preferência sexual. “Eu gosto de um bom c…”, diz, desbocada. Falar palavrão é outra atitude que, segundo ela, não tira pontos de ninguém. “Não existe escândalo para uma mulher elegante.”

Vera Valdez usa vestido de renda Chanel, brincos Beatriz Werebe e pulseira de mão Yeprem para Beatriz Werebe - Foto: Fabio Bartelt, com edição de moda de Rodrigo Yaegashi e beleza de Helder Rodrigues
Vera Valdez usa vestido de renda Chanel, brincos Beatriz Werebe e pulseira de mão Yeprem para Beatriz Werebe – Foto: Fabio Bartelt, com edição de moda de Rodrigo Yaegashi e beleza de Helder Rodrigues

A segunda Vera assina Barreto Leite, o sobrenome quatrocentão carioca que ela adotou ao se tornar atriz. Do lado materno, a família é toda de atrizes: mãe, irmã, tia. “Fui criada no teatro, dormia na coxia, sempre convivi com artistas e com gente de todos os gêneros.”

Há 30 anos faz parte do elenco do Teatro Oficina, do diretor Zé Celso Martinez Corrêa. “Um gênio”, atesta. “Sempre trabalhei com gênios, e eles são tão difíceis quanto fascinantes. Extraordinários, maravilhosos, te levam à pura paixão e ao puro ódio.”

Vestido Carolina Herrera, brincos Beatriz Werebe e mule René Caovilla - Foto: Fabio Bartelt, com edição de moda de Rodrigo Yaegashi e beleza de Helder Rodrigues
Vestido Carolina Herrera, brincos Beatriz Werebe e mule René Caovilla – Foto: Fabio Bartelt, com edição de moda de Rodrigo Yaegashi e beleza de Helder Rodrigues

A terceira Vera, na qual habitam as duas anteriores – e também nenhuma das duas -, está na minha frente, sentada com o gato no colo no apartamento em que mora, no centro da cidade de São Paulo. “Ser modelo, assim como ser atriz, é uma representação. Me transfigurar naquela mulher de Chanel era um ato teatral.”

Aos 82 anos, duas filhas, uma neta e quatro bisnetos, Vera se considera uma mulher bonita. “Nunca me achei feia. Mesmo agora, olho para mim e sei que sou bonita. Não sou perfeita, não tenho nada perfeito, mas tenho carisma”, garante. “Claro que já me olhei com crítica, já estiquei a pele do rosto no espelho, fiz uma cirurgia para tirar o papo. Acho papo uma coisa terrível.”

Blazer e calça Dolce & Gabbana, brincos Yeprem para Beatriz Werebe e botas de seu acervo pessoal - Foto: Fabio Bartelt, com edição de moda de Rodrigo Yaegashi e beleza de Helder Rodrigues
Blazer e calça Dolce & Gabbana, brincos Yeprem para Beatriz Werebe e botas de seu acervo pessoal – Foto: Fabio Bartelt, com edição de moda de Rodrigo Yaegashi e beleza de Helder Rodrigues

Se define como vaidosa, mas mal se olha no espelho. “Ainda bem que tem um no elevador, assim dou uma ajeitada no cabelo antes de sair na rua”, comenta. Considera ter um “esqueleto naturalmente elegante”, coisa de genética, e nunca teve de se preocupar com o peso. Exercício ela faz no teatro, nos trabalhos de preparação do corpo para compor as personagens. “Teatro sem exercício não existe, moda também não. Você tem de ter flexibilidade para se imaginar outra pessoa.”

Segunda pele Lupo, saia e tule Gucci, brincos e anel Beatriz Werebe - Foto: Fabio Bartelt, com edição de moda de Rodrigo Yaegashi e beleza de Helder Rodrigues
Segunda pele Lupo, saia e tule Gucci, brincos e anel Beatriz Werebe – Foto: Fabio Bartelt, com edição de moda de Rodrigo Yaegashi e beleza de Helder Rodrigues

Filha de diplomata, Vera cresceu no Rio e ainda hoje ama o mar. “Fui criada para ser uma mulher livre, minha mãe era muito liberal. Amei quem eu quis, fiz vários abortos, fumo maconha desde os 13 anos de idade. Fumei a vida inteira e posso garantir: não faz mal algum, pelo contrário. Todas as pessoas bem velhas que eu conheço fumam maconha desde sempre.”

Pulôver com franjas e calça Valentino, pulseira de mão Yeprem para Beatriz Werebe, brincos Beatriz Werebe e botas de seu acervo pessoal -Foto: Fabio Bartelt, com edição de moda de Rodrigo Yaegashi e beleza de Helder Rodrigues
Pulôver com franjas e calça Valentino, pulseira de mão Yeprem para Beatriz Werebe, brincos Beatriz Werebe e botas de seu acervo pessoal -Foto: Fabio Bartelt, com edição de moda de Rodrigo Yaegashi e beleza de Helder Rodrigues

Experimentou outras drogas – “todas” -, mas pensa que as “mortais”, como a heroína, e as viciantes, como a cocaína, são muito perigosas. “Maconha não é droga, o cigarro é que é”, decreta.

Conjunto de blazer e calça Stella McCartney, tênis Converse e brincos Beatriz Werebe - Foto: Fabio Bartelt, com edição de moda de Rodrigo Yaegashi e beleza de Helder Rodrigues
Conjunto de blazer e calça Stella McCartney, tênis Converse e brincos Beatriz Werebe – Foto: Fabio Bartelt, com edição de moda de Rodrigo Yaegashi e beleza de Helder Rodrigues

Em 1970, aos 34 anos, Vera fez seu último desfile para Chanel. A estilista morreu no ano seguinte. Agora, despede-se de vez da moda. Está decidida: com este editorial para a Bazaar, tira Vera Valdez de cena. Vai guardar toda a sua energia para atuar. “A partir de agora, falem de mim como atriz.”

Blusa de gola Hering, saia plissada Ralph Lauren e brincos Yeprem para Beatriz Werebe - Foto: Fabio Bartelt, com edição de moda de Rodrigo Yaegashi e beleza de Helder Rodrigues
Blusa de gola Hering, saia plissada Ralph Lauren e brincos Yeprem para Beatriz Werebe – Foto: Fabio Bartelt, com edição de moda de Rodrigo Yaegashi e beleza de Helder Rodrigues

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