Dendezeiro – Foto: Divulgação

Por Jorge Wakabara

A terra dos Doces Bárbaros, dos Novos Baianos, de Jorge Amado. E também celeiro fashion! Alguns nomes muito importantes da moda brasileira saíram da Bahia: Ney Galvão, Vitorino Campos, Isaac Silva. A edição N51 do SPFW recebeu duas estreias de marcas baianas via projeto Sankofa, coletivo de estilistas negros: o Ateliê Mão de Mãe e a Meninos Rei.

Na Casa de Criadores, evento paulistano de moda independente, a Dendezeiro se destaca – ela é a primeira marca do País a fazer uma parceria com o Instagram, criando e produzindo kits para criadores de conteúdo da plataforma. E a gente ainda traz uma aposta: a Mahina Beachwear, que faz uma moda praia bem sacada desde 2018. Quatro marcas soteropolitanas para ficar de olho e, claro, ter uma peça! Pegue essa onda…

O handmade do ateliê Mão de Mãe

Mão de Mãe – Foto: Divulgação

De ascendência afro-indígena, Luciene Santana é artesã desde os 14 anos e sempre seguiu a filosofia hippie, crochetando para manter três crianças. Em 2020, um dos filhos, Vinicius, se viu afastado do trabalho pelo isolamento social e eles voltaram a morar juntos. O trio ficou completo com Patrik Fortuna, que Vinicius começou a namorar: da união, saiu algo para tentar pagar o aluguel.

Criaram o Instagram do Ateliê Mão de Mãe com fotos de amigas posando com os crochês de Luciene. O negócio cresceu, até que Fernanda Paes Leme comprou uma peça, divulgou e… corta para um e-commerce superestruturado e uma participação do SPFW. “Começar uma marca na pandemia foi um ato de coragem”, diz Vinicius. Ela tem aquele frescor independente com mistura inusitada de cores e materiais como búzios, madeira e palha. “Queremos que o crochê seja algo atemporal, não só uma modinha de agora.”

Para corpos reais que se movem: Mahina Beachwear

Maniha Beachwear – Foto: Divulgação

Natalia Abreu é fotógrafa. “Sou muito visual e minha memória é fotográfica. Vou gravando pequenos detalhes e guardando como referência para utilizar em momentos de criação”, explica. Vai ver é por isso que a Mahina Beachwear, que começou em 2018, é tão fotogênica. Modelagem maiores, confortáveis, conversam com o fato de Natalia ter começado a surfar no ano passado: “Acabei trazendo muitas mulheres comigo, amigas próximas, amigas de amigas… E conversamos muito sobre o que usamos, o que é confortável ou não. O mercado de surfwear e activewear tem coisas muito coloridonas, muita estampa, que enjoam depois de um tempo.”

Mahina é o nome de uma comuna na Polinésia Francesa e também palavra de origem havaiana que significa lua – vem daí a luazinha na barra dos shorts. A fundadora revela outra coisa que mexe com ela: coisas antigas. “Tenho alguma coisa com cheirinho de poeira! Foto analógica, músicas que os nossos pais e avós ouviam, página amarelada.” Será que essa modelagem maior também vem de uma saudade retrô?

Todas as cores da Meninos Rei

Meninos Rei – Foto: Divulgação

Para difundir o nome de uma marca chamada Meninos Rei por aí, sendo a primeira celebridade a usá-la, só mesmo uma rainha. Foi Margareth Menezes que exibiu um look e foi ao primeiro desfile da label em Salvador. Depois disso, a lista de quem já vestiu Meninos Rei só cresceu: Carlinhos
Brown, Gilberto Gil, MV Bill, Paula Lima… Algo que facilitou a abertura dessas portas foi o trabalho dos irmãos Júnior e Céu Rocha de produção de moda no meio artístico: “Ter famosos usando a marca nos fortalece muito enquanto afroempreendedores”, ressalta Júnior.

A dupla sempre gostou de fazer suas próprias roupas e sentia uma carência no mercado masculino em Salvador. “Muita gente comentava, porque era uma roupa muito diferente, sempre muito estampada, né? Começamos com uma pequena produção para os amigos.” Os tecidos vêm do continente africano – na última coleção, vêem-se cores vibrantes e a alegria de Guiné-Bissau.

E a marca chama Meninos Rei por quê? “Ao chegar em um lugar com uma peça nossa, você é notado pelo que está carregando de realeza. É a representação do nosso povo nos tecidos africanos, uma sensação de orgulho da nossa raça”, diz Céu. A produção, para melhorar ainda mais o astral, é on demand e com hora marcada. Promete crescer ainda mais no SPFW!

O street apimentado da Dendezeiro

Dendezeiro – Foto: Divulgação

Não é por acaso que Hisan Silva e Pedro Batalha escolheram esse nome, Dendezeiro, para a marca que abriram em 2019. “É na Bahia que a gente tem a maior concentração de dendê do País”, Hisan explica. “Desde o princípio, queríamos desenvolver um projeto que as pessoas lembrassem que vem daqui. Também tem o fato de o dendê e o dendezeiro serem grandes bases do candomblé, nossa religião. Eu mesmo tenho três tatuagens com ramificações do dendezeiro!”

A questão de ser fora do eixo sudestino e a negritude (Salvador é a cidade mais negra fora da África) sempre foram peças centrais. “Não nos víamos representados na moda. Quantos estilistas nordestinos brilham? Com o Isaac Silva houve toda uma dificuldade até chegar no Acredite no Seu Axé, até falar sobre o axé”, pontua, referindo-se ao slogan-mantra da marca do colega.

O fortalecimento do local de onde vêm e da diversidade de corpos chega em tudo: no discurso, nas fotos, nas peças. A inspiração da dupla sempre foi a rua, até mesmo antes de abrir a marca, quando trabalhavam com curadoria de brechó. Eles observam como as pessoas se vestem, como se sentem e do que precisam. “Aqui as pessoas realmente usam o que querem, se sentem confortáveis como são”, diz Hisan. “Elas estão à nossa volta, nos bairros, nas periferias, nas comunidades, no centro. Vamos pescando como elas se vestem”, Pedro complementa.