Foto: Agência FotoSite
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Nesta quarta-feira (26.10), Ronaldo Fraga chamou atenção, não somente para as suas roupas, mas também por dar visibilidade à causa trans – assunto que permeia a 42ª edição do São Paulo Fashion Week. Para compor seu casting, o estilista mineiro convidou apenas mulheres trans, que foram contactadas por Fernando Valiengo via Facebook. Vestindo múltiplas versões do mesmo modelo de vestido, elas cruzaram passarela montada no Teatro São Pedro, no centro da cidade, e, é claro, emocionaram todos que por lá estavam.

No backstage, em clima de festa após o sucesso do evento, Bazaar conversou com algumas das escolhidas sobre a importância da moda em suas vidas, e principalmente no processo de readequação de gênero. Entre nossas entrevistadas, figuras importantes do movimento LGBT+, como Victoria Valentino, da banda Veronika Decide Morrer, e Glamour Garcia, performer conhecida dos teatros nacionais, que compartilharam conosco um pouco de suas experiências de vida. Leia abaixo!

1. Victoria Valentino: “Gostaria de ressaltar a felicidade de ver o nosso universo sendo abordado não só no desfile, mas também no evento como um todo. Como somos filhas renegadas da sociedade, as pessoas, infelizmente, ainda têm pensamentos equivocados sobre as questões de gênero. Acredito que a revolução tem que ser feita de alguma maneira, seja através da música, da moda, da arte – no meu caso é o rock and roll! Respeito vai ter que ter! Em minhas performances costumo usar diversas roupas, uso a moda como uma arma mesmo”.

2. Glamour Garcia: “Esse momento foi digno de integração, de arte e de luta – em um momento tão difícil para o nosso país. A minha história com a moda é de arte, de militância, independente de haver  necessidade de me identificar com alguma coisa. Ela é e sempre foi parte da minha forma de expressão, da validade das minhas ideias, desejos e vontades. Já fui de todos todos estilos, da patricinha ao dark, e hoje em dia misturo de tudo. Atualmente, a roupa me serve mais como roupa, mesmo. Estou mais tranquila, precisando focar a energia em outros espaços de luta. Aí, vamos com a roupa que temos porque a conversa tem que ir para frente!”.

3. Ethyelle Fernandes: “Eu não faço o biotipo da passarela, por isso fico feliz que a moda esteja mais inclusiva. Hoje foi uma experiência ímpar, fiquei até meio insegura com a minha performance. Acredito que a moda nos dá uma força para defender a nossa bandeira transexual. A moda traduz a nossa alma, isso é travestilidade. Ela abre essa porta, nós dá uma via para expor o nosso interior e defender a nossa liberdade de gênero”.

4. Manuela Andrade: “A moda está na nossa vida, eu comecei me vestindo de mulher porque achava as roupas muito lindas. Nunca me esqueço do meu primeiro vestido, ele era longo e estampado – guardo até hoje. Tenho um vínculo muito intenso com ele. Minha militância está numa saia, num vestido”.

5. Glam: “A moda não deveria ter gênero, se você sente bem usando um salto, ninguém deveria te impedir. A primeira peça que eu adquiri foi uma calça skinny, na época eu era clubber e foi assim que comecei. Aos poucos fui entendendo a minha identidade de gênero, hoje me identifico como mulher trans”.

6. Ariel Mouro: “Para mim a readequação foi bem tranquila. Eu não costumo guardar o que eu sinto, sempre externalizo tudo. Com a questão de gênero foi igual. Desde sempre quis usar as roupas da minha mãe. Quando comecei a me descobrir, logo escolhi uma calça skinny. Sei que não é uma peça essencialmente feminina, mas para mim significou muito. Porém, tem outro assunto que também gostaria de abordar: a necessidade de mulheres trans em outras carreiras. Sou modelo, mas nem toda mulher quer trabalhar com moda. Acho importante abrir a cabeça das pessoas de outras áreas também”.