A figurinista Catherine Martin - Foto: Divulgação
A figurinista Catherine Martin – Foto: Divulgação

Por Cleide Klock, de Nova York

Um luxo só e um banho de bom gosto. A melhor parte do filme O Grande Gatsby é, sem dúvida, o figurino, cheio de plumas, brilhos e roupas impecáveis, em um elenco tão bonito quanto. A inspiração veio dos anos 20 com um toque de modernidade e uma equipe de peso. Por trás desse filme mais do que purpurinado está a figurinista, diretora de arte e esposa do diretor Baz Luhrmann: Catherine Martin.

A parceria já rendeu, além de dois filhos, cinco filmes. A dupla é conhecida por colocar na tela, em produções de época, a exuberância com muito estilo, como já fizeram em Romeu + Julieta, Moulin Rouge e Austrália.

Catherine foi indicada ao Oscar pelas três produções e levou para casa as estatuetas de Melhor Figurino e Melhor Direção de Arte por Moulin Rouge. Tudo indica que ela volta para festa Hollywoodiana no próximo ano, para disputar o prêmio novamente, agora por O Grande Gatsby.

Carey Mulligan e Leo Di Caprio em cena do filme "O Grande Gatsby", que estreia hoje no Brasil - Foto: Divulgação
Carey Mulligan e Leo Di Caprio em cena do filme “O Grande Gatsby”, que estreia hoje no Brasil – Foto: Divulgação

Falante, daquelas que nem respiram entre uma frase e outra, além de toda colorida, cheia de pulseiras e colares, a designer de moda australiana conversou com jornalistas em Nova York e respondeu a algumas perguntas da Bazaar. Confira:

Bazaar – Como é o trabalho diário com o diretor, quem dá a palavra final no figurino?
Catherine Martin – Parte do meu trabalho é passar a visão de Baz. Tem opiniões muito fortes sobre como as coisas devem ser e muitas vezes traz para mim desenhos que ele mesmo fez, ou livros que leu. Um jornalista me perguntou: ‘Não é irritante que ele diga para você o que deve fazer?’ E eu disse: ‘bem, é o meu trabalho.’ Eu acho que se o Martin Scorsese diz ao figurinista o que fazer, é claro que ele vai fazer. Os diretores têm opiniões sobre figurino, um filme é uma mídia visual e eu gosto mais ainda porque é sinônimo de colaboração. E, meu trabalho também é trazer o diretor para a realidade. Ele sempre quer construir castelos no céu e o estúdio quer gastar US$ 7, eu tenho que descobrir como juntar isso e agradar os dois.

Croquis de Miuccia Prada para o filme - Foto: Divulgação
Croquis de Miuccia Prada para o filme – Foto: Divulgação

Como foi trazer tantas marcas famosas e poderosas para o filme?
CM – Fui aos arquivos da biblioteca do Museu Metropolitano de Nova York e também a do FIT (The Fashion Institute of Technology). Fiz muitas pesquisas, mas eles têm muito mais material sobre trajes femininos, então procurei algumas marcas a partir de referências. A Brooks Brothers, por exemplo, já estava vendendo roupas em 1922 e Fitzgerald comprou várias delas na época. Ele escreveu cartas encomendando e eu tive acesso a essas correspondências com as medidas do escritor e seus pedidos. Então senti a importância que o criador de Gatsby dava ao seu próprio figurino, pois mencionou em livros a marca que faz parte também da história americana. Eles forneceram mais de 2 mil peças de vestuário para o filme, incluindo 200 smokings e roupas do dia a dia, ajudando a compor cerca de 1, 2 mil trajes no total. Com a Tiffany’s foi semelhante. Fitzgerald também era cliente deles e os citava nos livros: o que chamou minha atenção lendo O Grande Gatsby foi que Tom Buchanan, um dia antes de casar com a Daisy, deu a ela de presente um colar de pérolas da Tiffany’s de 350 mil dólares. A marca vinha promovendo desde o século 19 as pérolas como o presente ideal para as mulheres antes de casamentos ou festas de debutantes. Já com a Prada, Baz tem uma grande amizade, desde que fez Romeu + Julieta. Na época, Miuccia Prada fez o terno de Leonardo DiCaprio. Baz não queria dar ao filme uma cara de nostalgia, mas sim de algo moderno, fresco, visceral, contemporâneo mesmo falando do passado, e Miuccia logo se interessou em colocar isso tudo no filme. Nós precisávamos passar um sentimento de modernidade subliminar que fizesse com que a audiência se conectasse com a história. Ela também gostou do fato de que cada figurante fazia parte da história, tinha uma biografia. Ela colaborou no desenho de 40 vestidos, além do figurino de Daisy.

Você falou que quis mostrar uma visão moderna dos anos de 1920, mas quais outros aspectos você quis passar por meio das roupas?
CM- Tentamos descrever um mundo paralelo a nossa própria realidade, um tempo de excessos, de aspirações enormes, luxo, um momento muito particular e rico da história americana. Falamos de um ciclo de 80 anos que o mundo sempre passa e é interessante mostrar esse nível de excessos e contrastantes para o público ter a percepção de que é realmente importante. E o que é bonito nessa história é que, por trás disso tudo, tem o amor de Gatsby por Daisy, sua infinita esperança que deixa o resto sem sentido algum.

Você assistiu aos outros quatro filmes que já foram feitos sobre o livro O Grande Gatsby para ter alguma inspiração?
CM – Eu vi a versão com Robert Redford (1974) quando eu era adolescente e lembro que gostei e achei o figurino lindo. Mas, quando acertamos em fazer o filme, tomei uma decisão de não assisti-lo novamente, pois não queria ser influenciada.

Como você define o estilo dos anos 20?
CM – Acho que esse é um período que vamos sempre revisitar, porque foi a primeira vez na história que foi possível realmente conectar as pessoas com as roupas que vestem. Não podemos esquecer que foi o primeiro período intensamente fotografado e, com a fotografia e o cinema, você tem uma mudança completa dos ideais de beleza. Foi ali que as pessoas começaram a olhar para si mesmas. Há uma maior demanda por roupas de diferentes preços. Depois da primeira guerra tivemos um enorme boom econômico aqui na América, mas não só isso. Enquanto os homens foram à guerra, as mulheres saíram para trabalhar e pela primeira vez tiveram independência econômica. As confecções começam a fazer produtos direcionados para mulheres, por causa desse rendimento, e também nessa época o salário médio quadruplicou em um curto espaço de tempo.

O que a roupa poderia transmitir naquela época?
CM – Ela tinha o poder de dizer: eu sou uma feminista, tenho dinheiro e poder, determinei a minha vida e estou no controle de quem eu sou. A década de 1920 foi o nascimento do icônico designer de moda feminina de Jeanne Lanvin e Coco Chanel. Nós começamos a ver as mulheres fazendo roupas para as mulheres e ter um diálogo com a cliente. Algo muito íntimo e dinâmico. Gosto de destacar Jeanne Lanvin, que perdeu uma filha e começou a produzir roupas para a mães e filhas sempre combinando. Temos Chanel reinventando o sportswear e fazendo roupas femininas inspiradas nas masculinas. Enfim, mulher falando para mulheres e definindo o diálogo sobre a roupa. Este é possivelmente o momento mais revolucionário da história e para as mulheres é o começo de uma expectativa de economia e independência, que permite o início do feminismo e de outros movimentos.