Desfile: Laura Gerte (crédito: Ines Bahr)

Por Maíra Goldschmidt, de Berlim

A capital alemã sediou recentemente a edição, entre o dia 30 de janeiro e dois de fevereiro, de outono/inverno 2026 da Berlin Fashion Week. O frio intenso (a sensação térmica chegou a -16 graus Celsius), calçadas congeladas e escorregadias (até o temido Sven Marquardt, fotógrafo e door do Berghain, precisou andar entre uma locação e outra feito um pinguim para evitar um tombo), greve de metrô e ônibus e uma programação distribuída em diversos pontos da cidade não impediram que o público lotasse os desfiles e caprichasse no look.

Criada em 2007, a Berlin Fashion Week se define como uma alternativa às semanas tradicionais de prêt-à-porter já que possibilitaria um diálogo entre moda, arte e a cultura urbana (leia-se clubs) como nenhuma outra metrópole. Desde 2017, quando perdeu o patrocínio da Mercedes-Benz, o evento tenta se reinventar e se redefinir. Tarefa árdua para a capital da maior economia da Europa que contabilizou 2.490 falências no varejo entre agosto de 2024 e 2025, segundo a análise da seguradora de crédito Allianz Trade. Há também uma ausência eloquente de marcas alemãs estabelecidas como Hugo Boss, Wolfgang Joop, Birkenstock, Adidas, Puma, Jack Wolfskin, Trigema e das cool como Merz b. Schwanen e A Kind Of Guise. Uma pena.

Desfile Sia Arnika (crédito: James Cochrane)

No entanto, a cena berlinense ganha a cada edição mais autoconfiança e fôlego. A receita? Investimento em novos talentos. “Para mim, é importante que se perceba o desenvolvimento dos estilistas a cada temporada”, disse na segunda-feira (2/2), Christiane Arp, presidente do Fashion Council Germany, que assumiu a organização do evento nos últimos anos. Esse frescor é visto entre os destaques da semana: a Marke, do estilista Mario Keine, foi lançada em 2023; Kasia Kucharska, em 2021; Sia Arnika, em 2020; OBS, em 2019. E mesmo as marcas “veteranas”, como William Fan e GmbH, foram fundadas em 2015 e 2016, respectivamente.

Show da marca Damur no piscina do Liquidrom (Crédito: divulgacao)

Novos formatos para os desfiles também contribuíram para engajar um público que quer mais do que um simples show. O que vale aqui é a experiência. Balletshofer apresentou um filme num cinema com direito a pipoca, e Damur, do designer taiwanês Damur Huang, propôs um “Fashion Spa Day” na piscina e sauna Liquidrom (sim, algumas pessoas assistiram à apresentação de dentro da piscina). Já mais ortodoxo foi o Raum.Berlin, um espaço na Potsdamer Platz, no qual a cada dia, três designers puderam mostrar suas coleções misturando exposição e performance. E há ainda o Intervention, organizado pela agência de comunicação Reference Studios, que mais lembra o formato original da MADE Fashion Week, em Nova York. Porém, ao contrário do evento nova-iorquino, o Intervention não acontece paralelamente, mas é parte do calendário oficial, encerrando a semana com desfiles e painéis.

Modelo brasileira Lidyane Barbosa Carvalho para Marc Cain

Apesar da tentativa da organização do evento em estabelecer Requisitos de Sustentabilidade para as marcas participantes, o tema ainda precisa ser desenvolvido mais amplamente. Esther Perbandt, essa sim veterana na cena berlinense comandando marca homônima desde 2004, criou para esta temporada a jaqueta bomber “ALLES VON HIER” (em tradução simples: “tudo daqui”), em que o tecido e todos os aviamentos provêm da Alemanha. Em edição limitada (são apenas trinta unidades), essa peça é também um bom exemplo das dificuldades em se criar “sustentavelmente”. “No futuro, não será mais possível encontrar todos esses materiais aqui (Alemanha)”, lamentou Esther em referência à complexidade da rede de fornecedores atual. “É preciso encontrar um equilíbrio também porque os custos da produção local são muito altos. E, no final, é preciso vender”, completa Esther.

Desfile Unvain (crédito: Boris Marberg)

Não por acaso, o reuso de tecidos parece ser o critério mais popular (e econômico) entre os participantes, daí buzzwords como “upcycling” estarem presentes no vocabulário das marcas, como Buzigahill, Plaid-à-Porter, PLNGNS e Lou de Bètoly. Na coleção da Unvain, por exemplo, 50% dos tecidos são de reuso e foram adquiridos do ateliê Dries Van Noten, as peles são provenientes de peças vintage ou são material descartado em fábricas na Itália, assim como o couro vindo da Antuérpia.

Marca Orange Culture (crédito: Andreas Hofrichter)

No que diz respeito a tendências, se depender de Berlim, o preto é o novo preto numa estética que mais lembra a Balenciaga de 2018. Não à toa, um dos melhores memes da semana é do Dan Garten (@dangarten) numa paródia ao “Diabo veste Prada”, no qual se lê: “Black in Berlin? Groundbreaking”. No meio dessa opulência decadente, uma boa surpresa foi o desfile da Orange Culture. A marca nigeriana apresentou uma coleção toda produzida em Lagos com um excelente casting e uma cartela de cores vibrantes, silhueta fluida e elegante.

Streetstyle (crédito: Ines Bahr)

E é essa a mensagem de otimismo que fica desta edição da BFW. Ainda há muito a ser feito, mas, com a confiança renovada, o trajeto se torna mais suave. E, como bem resumiu a designer Esther Perbandt: “Sempre há futuro para a moda em Berlim”.