Foto: Priscila Jammal
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Um dia, a deusa Nua Gua cavou o barro do chão, moldou uma figura e viu, com surpresa, seu passatempo ganhar vida. Depois de criar várias, decidiu que elas deveriam se multiplicar acasalando-se. Foi assim que a versão chinesa de Ísis deu um toque feminino e poético ao surgimento da humanidade.

Talvez venha da lenda oriental a conexão quase transcendental entre o artista e a argila. Que o diga Bruna Pegurier. É à noite e nos finais de semana que ela “esquece” da vida moldando joias de porcelana que decoram corpos ou paredes. “Enquanto não me sinto conectada, a peça não sai”, diz.

Estilista por formação e atuação – recém-chegada à equipe de estilo da Eva e com passagens pelas marcas Andrea Marques e Mara Mac -, Bruna conta que a cerâmica é sua conexão com a arte. “É quase uma catarse. Evito me deixar contaminar por outras estéticas.”

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Foto: Priscila Jammal
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Há, ainda, resgate de suas raízes. “Nasci no sertão cearense e vim para o Rio de Janeiro, ainda criança, com minha família, mas mantenho viva a lembrança do barro”, explica sobre o artesanato nordestino, que se divide entre utilitário e figurativo.

As primeiras aulas aconteceram há quatro anos. “Comecei por objetos para a casa, mas me encontrei nas joias”, conta.

Com tiragens numeradas e assinadas, ela já tem best-sellers, como a pulseira circular “Feast”. Todas as peças passam por duas queimas e esmaltação até ganharem aspecto esbranquiçado de osso. Detalhe extra? Só se forem fitas de algodão em tons neutros.

Foto: Priscila Jammal
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Esse contraste acentua o caráter conceitual de suas joias. A estética é pura, minimalista oriental, aliada a uma charmosa imperfeição inerente à modelagem manual.

É um métier slow por natureza, livre da pressão das coleções que conferem ritmo frenético à moda. As peças estão à venda pela sua conta no Instagram e no Santuário Botafogo, loja da estilista californiana Dylan Perrigo, novo point das cariocas descoladas.

As parcerias com amigos estilistas seguem o mesmo tempo de maturação da cerâmica. Foi assim nas colaborações com o diretor de arte Eloi Nascimento e o designer Guto Carvalhoneto. E também com Fernando Cozendey. Em julho, ela assinou todas as maxijoias do intenso desfile do amigo, na Casa de Criadores, em sintonia com questões delicadas envolvendo sexualidade e a infância do estilista, que inspiraram a coleção.

Foto: Priscila Jammal
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Impactantes, as peças dialogam, ainda, com a vertente realmente artística de seu trabalho, o Lascívia Project. Cansada de ver o corpo feminino objetificado, ela decidiu invadir a intimidade masculina e fazer uma série de pênis de porcelana.

O projeto envolve réplicas do órgão sexual masculino de 13 homens fotografados nus entre Rio de Janeiro, São Paulo, Paris e Berlim, além de exposição fotográfica e livro. Os personagens surgiram por meio de conhecidos ou do aplicativo Tinder. “Selecionei pelo perfil e não pelo físico. Tem chef, historiador, DJ…”, conta Bruna, que clicou com câmera instantânea, aceitando a maneira como cada um deles gostaria de ser visto.

Foto: Priscila Jammal
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“Foi desafiador, porque muitos disseram nunca ter estado nus diante de uma mulher sem ser por sexo”, diz ela, ressaltando que a ideia é de libertação feminina. A estreia do projeto foi em fevereiro, na CoGalleries, em Berlim.

Há três meses, expôs na Feira Asterisco, na Gamboa, zona portuária carioca. A designer conta que ainda não terminou de modelar todos os falos fotografados – trabalha neles entre uma e outra joia. “Foi um grande aprendizado do tempo, da delicadeza. Aprendi que a gente não controla nada”, avalia, conectando-se com sutilezas da sabedoria feminina.

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