Camila Salek – Foto: Divulgação

Por Camila Salek

Nos últimos anos, vimos bairros sendo transformados por culturas jovens e transgressoras. Regiões pouco valorizadas, que não eram exploradas, passaram a ser frequentadas por novos públicos atraídos pela constante de novidades e atrações. Aqui em São Paulo, morando e estabelecendo a minha empresa na Vila Madalena, vi este movimento de perto: restaurantes badalados, bares lotados, lojas conceito, negócios de nicho, galerias de arte, empreendimentos com forte apelo de design e a crescente de escritórios e agências em busca de ambientes inspiradores e modernos.

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Não à toa, a Vila se tornou um dos metros quadrados mais caros da cidade, palco para grandes marcas e profissionais de todos os segmentos instalarem “projetos conceito”. O hype estava instaurado e o bairro com grande força na socialização, era cada vez mais procurado pelas novas gerações.

O cenário agora é outro. A pandemia acabou com a socialização e tornou praticamente impossível a sobrevivência de alguns modelos de negócios. Muitos bares, restaurantes e marcas autorais não sobreviveram. Andar pela Vila Madalena hoje é um exercício transformador que coloca lado a lado extremos: é possível contar mais de dez placas de “passo o ponto” numa mesma quadra, ao mesmo tempo em que vemos diversos espaços icônicos sendo ocupados por novos nomes.

Como toda crise traz oportunidades, o fato de um dos bairros mais hypes de São Paulo ter muitos espaços disponíveis com preço de aluguéis e luvas reduzidos, se tornou um excelente caminho para marcas e grupos capitalizados que buscam fórmulas de reinvenção. Vamos ver nascer espaços labs, onde as marcas buscarão testar constantemente novos conceitos, respondendo à volatilidade de mudanças do mercado e dialogando com o consumidor para obter insights rapidamente. Novos formatos de loja capazes de humanizar as marcas, voltados para ativações com as comunidades locais, envolvendo muita interatividade, entretenimento e inovação também são algumas das várias possibilidades que vejo para impulsionar os resultados e reocupar bairros como a Vila Madalena no pós pandemia.

Não é de hoje que falo sobre a transformação do varejo físico em universos imersivos, voltados para a experiência e esta é uma tendência que tende a ser acelerada com a potencialização do crescimento do e-commerce – uma pesquisa global realizada pela Rakuten Advertising, apontou que 73% dos brasileiros passaram a comprar mais no online. Enganam-se aqueles que acreditam que este cenário reflete o fim das lojas físicas, este mesmo levantamento também aponta que a maioria dos consumidores preferem soluções híbridas, que aliam a comodidade do e-commerce com a exclusividade do atendimento e relação com o produto no ambiente físico.

Camila Salek - O bairro mais social de São Paulo em liquidação
Foto: Divulgação

Aqui no Brasil, as marcas ainda exploram pouco os espaços de conexão com o consumidor que o ambiente físico proporciona, diferente do que vemos em outras grandes capitais do mundo. Em Londres, a Samsung KX é um espaço que vai muito além do produto. Com aulas e workshops realizados em parceria com universidades locais, o ambiente é 100% voltado para a vivência, contando com alimentação, ativações tecnológicas e outros eventos que engajam a comunidade e a aproximam da marca.

Quando tivermos vencido esta pandemia veremos a força da sede de socialização de uma população que viveu meses de restrições sociais. Junto com a solução do ponto de vista de saúde para o Covid-19, haverá uma missão social de responder à grande valorização dos espaços de convívio.

Compartilho aqui o relato da consultora de varejo Mary Portas, de Londres, com movimentos muito interessantes de grandes marcas, no retorno à socialização vivido em Londres na última semana:

Camila Salek - O bairro mais social de São Paulo em liquidação
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A Stella McCartney, aproveitando o ressurgimento do localismo, comemorou a reabertura de sua loja principal na Old Bond Street com uma série de pop-ups destacando as empresas locais, incluindo o estúdio floral Flwr e o restaurante Farmacy.

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A Browns abriu uma nova loja destino, que desperta os sentidos, nos ajudando a sair de um ano cinzento. “O espaço é verdadeiramente sensorial, ativando visão, audição, olfato, sabor e tato e oferecendo uma experiência única em cada visita”, explica o presidente da marca Holli Rogers.

Camila Salek - O bairro mais social de São Paulo em liquidação
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A Selfridges recebeu os visitantes com um estúdio SoulCycle ao ar livre. É um espaço para as pessoas socializarem, um alívio depois de meses de isolamento.

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A Goodhood estampou suas vitrines com a frase “venha do jeito que estiver”. É um lembrete caloroso de inclusão, em um momento em que muitos de nós estamos nervosos com a possibilidade de socializar novamente. Como Goodhood explica, “atualmente há muitas coisas sob ameaça, mas continuamos a defender a comunidade, a cultura, a criatividade, a independência, a consciência coletiva positiva, o pensamento livre, a verdade, a abertura e a liberdade.”

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Hamley’s: a loja de brinquedos está atraindo os consumidores com uma série de atividades voltadas para a família, incluindo uma caça ao tesouro Pokémon, uma apresentação do Homem-Aranha e um treinamento de varinha com o Harry Potter. “Nós pensamos cuidadosamente sobre como fazer as crianças sentirem que a vida está voltando ao normal”, disse o CEO Sumeet Yadav.

Espero ver, não só na Vila Madalena, mas em outros bairros incríveis espalhados por este nosso Brasil, marcas aprendendo com as grandes mudanças de comportamento sociais e de consumo que estamos vivendo. As novas lojas se tornarão palcos para o lazer e, àquelas marcas que souberem se preparar para fazer parte deste momento, estarão um passo à frente!

Camila Salek – Sócia-fundadora da Vimer Experience Merchandising integrante do grupo de empreendedoras de sucesso do programa “Winning Women Brasil” da Ernst Young e colunista da Harper’s Bazaar Brasil. Referência em varejo e visual merchandising, está por trás de evoluções significativas da experiência de consumo e do desenvolvimento do conhecimento da área, através da implementação de projetos inovadores e compartilhamento de conteúdos ministrados em aulas, palestras, treinamentos e publicações nacionais e internacionais voltadas para moda e tendência.