Nesta quinta-feira (09.12), 25 marcas deram o início à 49ª edição da Casa de Criadores, evento fashion reúne apresentações de marcas autorais que precisam estar no seu radar. Em formato híbrido – pela primeira vez desde o início da pandemia -, a plataforma de moda contará com desfiles digitais e presenciais – que acontecem nesta sexta-feira (10.12), em São Paulo.

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Característica que faz com que o evento seja único, o primeiro dia reuniu apresentações repletas de discursos sociais e políticos, diversos tipos de expressões artísticas, vídeos emocionantes e muita representatividade – fato que deve servir de exemplo a outras semanas de moda. Abaixo, conheça um pouco do trabalho apresentado pelas marcas e projetos:

Alexandre dos Anjos

“Partindo de um encontro com anjos, do sincretismo e da experiência de ter alcançado algum local desconhecido, enquanto o corpo físico permanece em repouso e o corpo astral experimenta o cosmo, o encontro de uma memória remota e do sentir, para a construção de roupas pintadas e objetos de arte. Esses objetos elaboram a experiência do pensar ancestral e das narrativas sincréticas, inventando possibilidades de enxergar outros mundos e transformá-los em um campo atmosférico e do existir além”, explica o comunicado sobre a apresentação, que une cores intensas a imagens fortes e movimentos.

Ateliê Vou Assim

Nomeada “Bél[ic]o”, a apresentação do Ateliê Vou Assim reuniu o trabalho de cinco estilistas e 10 performers que apresentam a iniciativa. “Corpos trans e racializados são alvos de violência diária e estão em guerra permanente. Em um contexto em que não somos nem mesmo humanizados, surge a necessidade de proteção e segurança desses corpos em vulnerabilidade: criação de armaduras. Nosso processo criativo parte daí, para cavar um espaço possível de existência e dignidade no mundo”, afirma o Ateliê. Com uma criação coletiva, o projeto usa o lixo como resposta à necessidade de novas imagens e produções de moda em um contexto de emergência climática.

Brocal

Tulipa Ruiz cria uma coleção de peças em crochê exclusivas, inspiradas na música e na pluralidade dos corpos. Chamada “Fio Me”, a linha reúne modelos trançados em fios de malha, originados pelo reaproveitamento de retalhos da indústria têxtil, e que retratam o atual momento de retomada. O vídeo é um exercício cênico experimental, que conta com oito mulheres vestidas com parangolés de crochê costuradas umas às outras como uma grande trama.

David Lee

Usando amarrações, botões e faixa – além do trabalho em crochê -, David Lee cria uma coleção que exalta os paralelos entre restrição e liberdade, rompimentos e conexões. Destaque para as cores fortes, como rosa, azul e laranja, as formas geométricas e a alfaiataria, que completa com perfeição o trabalho artesanal.

Diego Fávaro

Nomeada “Sonial”, a apresentação de Diego Fávaro une um pouco das experiências que vivenciou nos últimos meses: ter sonhos lúdicos (um estado de consciência no meio da noite em que consegue dominar suas ações dentro de um sonho), a perda de três familiares, no período de duas semanas, em decorrência da COVID-19 e uma conexão à Nossa Senhora Aparecida. E trabalho é sobre isso – conexões que vão além do estado físico, por isso o nome que faz referência à mãe do designer, Sônia, e ao adjetivo referente a sonhos. O edredom apresentado – feito em material 100% algodão e que relembram as peças de patchwork que Fávaro e sua mãe faziam para vender – marca a entrada do designer na moda casa.

Estamparia Social

Buscando uma moda cada vez mais justa e transparente, a Estamparia Social se une com a Hypebrands para lançar o movimento Social Brands. Com questionamentos sobre o papel da moda na sociedade, das marcas na moda e o poder de transformação que pode ter na vida das pessoas, a label apresenta a campanha “Jumbo/Corpo Só”, em um vídeo que une grafite ao universo fashion.

Estúdio Traça

Desenvolvidos para o espetáculo da Casa de Criadores, os looks do Estúdio Traça são inspirados no vouyerismo e no exibicionismo. “Ambos unidos em recortes e fendas estratégicas adornadas com babados de godê em malha que parece fluir em cascatas e que ora mostram, ora escondem”, explica a marca.

F. Kawallys Punk Couture

Um chamado à conscientização e à sustentabilidade, a apresentação da F. Kawallys apresenta o trabalho da marca com vintage, reaproveitamento de tecidos, customização e produção de estampas. “Nesta edição, convidei dois amigos que fazem trabalhos com a minha arte para desfilarmos juntos. O Chesller faz patchworks incríveis com minhas estampas e o Porangaba usa meus tecidos na manufatura consciente de jaquetas. Nos juntamos e concebemos um desfile-balé com tema ‘Gang de Amigos’, conta Gurjão, criador da marca.

Felipe Caprestano

Dando continuidade a sua pesquisa sobre os estados transitórios da forma e processos de construção e desconstrução, Felipe Caprestano apresenta sua série “Impenetráveis”. O estilista cria um incrível trabalho com formas totêmicas, produção de signos e união de referências que vão de formas da natureza a objetos eróticos.

Gefferson Vila Nova Label

Um questionamento extremamente pertinente guia o #manifesto “DAS”, da Gefferson Vila Nova Label: por que uma marca de moda precisa apresentar novas ideias e novos produtos a cada temporada? “Nossa proposta para esta temporada do Casa de Criadores é reapresentar a DAS, seguindo o conceito slow fashion. Questionamos no nosso fazer criativo a exigência que ainda persiste no ‘sistema moda’ por seguir o fluxo da grande indústria – inclusive para pequenos empreendedores como nós”, afirma em comunicado. Utilizando tecidos de fibras naturais e tecnológicos, a marca reforça seus designs baseados na reciclagem e no upcycling.

Guma Joana

Inspirada no poema “Alcoólicas”, de Hilda Hilst, a Guma Joana criou a coleção “D3sd1t4 03: Trava Goth Elegance” especialmente para a 49ª edição da Casa de Criadores. Com um fashion film produzido por uma equipe de pessoas transvestigênere, a marca apresenta peças em tons de vermelho e acabamento metalizado – destaque para as texturas criadas e o uso de materiais inesperados, como cartelas de comprimidos.

Jal Vieira

A coleção “Etelvina: Laço de afeto” foi inspirada na avó de Jal Vieira e traduzida em roupas e acessórios cheios de texturas, cores e significados emocionais. Destaque para as peças feitas com contas de madeira, inspiradas na cortina que a designer cita no texto de apresentação da coleção: “A cortina de contas pendurada dividia um espaço em que, tudo daqui para lá era de se esquecer, para que tudo de lá para cá nos lembrasse de viver.”

Jorge Feitosa

Jorge Feitosa apresenta o resultado de uma ação coletiva, realizada em Santa Cruz do Capibaribe, no Agreste de Pernambuco. Além de uma oficina prática, 23 participantes criaram um editorial e um fashion film, apresentado na Casa de Criadores. Divididos em seis turmas, os integrantes criaram, cada um, uma parte de uma peça, além de partes criadas por amigos do designer. O resultado é um lindo e colorido patchwork, cheio de significados.

KF Branding X Woolmay Mayden

Novamente, Woolmay MaydenKF Branding se unem para criar uma collab, desta vez, fazendo uma reflexão sobre reconstrução. “A página em branco permite olhar para si e reescrever uma nova história e a cor branca, também chamada de “cor da luz”, traz consigo todas as cores e ilumina para possibilidades. Além disso, a união entre estas duas marcas foi influenciada e inspirada no entendimento de que não é possível nos reerguermos sozinhos e que o avanço da ciência e da vacinação nos permite estarmos esperançosos e otimistas para o futuro e seguir em frente”, afirmam em comunicado.

Leandro Castro

Leandro Castro elege o fogo como fio condutor da coleção apresentada na Casa de Criadores, aludindo ao desejo do renascimento dos modos de vestir e de vida, como uma fênix. O fogo aparece nas peças de diversas maneiras: na cartela de cores (que vai da fumaça a chama e escuridão), no movimento da silhueta e nos tecidos de fibra natural.

Mônica Anjos

“Nosso ponto de partida e maior inspiração poética fica localizado a mais ou menos 80 km de Salvador, Imbassaí (Imbaçai) – Caminho das Águas – significado tupi, foi uma aldeia indígena, antes da infraestrutura hoteleira chegar, era um povoado. Histórias que junto a exuberância natural, lugar de Rio e Mar, nos trazem para essa escolha, fazer o Caminho das Águas!”, conta a marca. Em suas peças, a label traduz a figura do mar, de nos conectar com nossas histórias transatlânticas, e do rio, com sua capacidade de nos transportar. Os modelos imitam percursos das águas, com tecidos fluídos, laise, o tom off-white e as rendas que remetem a espumas.

Nalimo

Dayana Molina apresenta a coleção “Carta para Nuestros Abuelos”, que faz uma homenagem à memória de seus ancestrais aymaras, do Peru. Ao lado de sua assistente, Gabi Lecoña (também aymara, da Bolívia), a designer retrata com a linha da Nalimo uma viagem pelas histórias contadas por seus avós. “Não é sobre a estética como tendência de moda, mas a expressão cultural de uma comunidade, seus códigos ancestrais e têxteis manuais, aguayos, ponchos, franjas”, diz o comunicado da marca que apresenta a coleção.

NotEqual

“Pensei em não contar uma história lógica (como no vídeo anterior), mas analisar através da sequência, colagem de imagens e movimentos a (re)estruturação dessas lembranças. Cada figura em cena assume um arquétipo, que dita seus movimentos, dividindo protagonismos e representações das anamneses do eu lírico. Brucutú, que por definição, fala de um indivíduo grosseiro, rude e bruto. Surge da repetição incansável e do desgaste do termo ‘brut couture’, que remete não só à forma brutalista de se (re)construir um patch de retalhos, mas também das silhuetas explodidas”, explica Fábio Costa sobre a apresentação da NotEqual.

Projeto PIM (Periferia Inventando Moda)

O Projeto PIM (Periferia Inventando Moda) levou cinco marcas para o line-up da Casa de Criadores: X Brand (Alex Santos), Riddim (Monica Barboza), Couto Store (Mateus Couto), Volat (Leticia Cortez) e Dellum (Brunno Dellum). Conheça melhor os trabalhos de cada uma na galeria.

Rafael Caetano

Rafael Caetano inspira-se no livro de Chico Felitti, “Ricardo & Vania”, para criar a coleção de mesmo nome. A apresentação retrata a história de Ricardo, conhecido pejorativamente como “Fofão da Augusta”, e Vânia, sua ex-companheira, em um vídeo que une teatralidade às peças em cetim, tafetá e paetês. A coleção, que conta com seis looks, foi criada exclusivamente para o espetáculo da Casa de Criadores.

Reptilia

A coleção “Fragmentos” revisita a história da Reptilia, olhando para a atualidade como forma de refletir um período de incertezas e exercitando o ato de ver beleza no que fica. Os princípios da marca seguem forte: desperdício zero, redução de impacto e design de ressignificação. “Retomar processos artesanais e criar a partir de um quebra-cabeças novas peças que integram o que chamamos de resíduos pré-consumo, retalhos de produções que fazem parte de outo anos de trajetória e, nesse momento especial, surgem com novos significados”, conta a marca em comunicado à imprensa. Destaque para as formas orgânicas e linhas fluídas – que haviam sido reproduzidas na fachada da loja em um painel gigante de tecidos nacionais.

Rober Dognani, para Rhodia/Amni Brasil

Com o objetivo de fomentar também a sustentabilidade na moda nacional, peças criadas pelos estilistas para as performances foram produzidas com Bio Amni®, a primeira poliamida parcialmente de fonte renovável feita na América Latina pela Rhodia. “O espetáculo tem a participação especial da Rhodia com cerca de 20 looks usados pelo elenco de apoio e assinados pelo estilista Ellias Kaleb. E, para coroar essa parceria, o estilista Rober Dognani criou um look exclusivo Bio Amni + Santaconstancia que será usado numa performance de Johnny Luxo”, diz André Hidalgo, fundador e curador da CdC.

Santista, por Ellias Kaleb

“A Santista Jeanswear tem orgulho de incentivar a moda nacional e por conta disso estamos mais um ano patrocinando e apoiando a Casa de Criadores que em quase 25 anos de existência abriu e continua a abrir as portas para muitos estilistas talentosos. Participar desta nova edição da CdC é um privilégio e uma ótima oportunidade para que os estilistas imprimam seus talentos em um autêntico denim”, explica Sueli Pereira, Gerente de Comunicação e Moda.

Shitsurei

Dando continuidade à trilogia iniciada na última edição da Casa de Criadores, Shitsurei apresenta o segundo capítulo, inspirado em Kimie, avó materna do designer. “Apresento nosso maior e quase único elo: o método de trabalho. Minhas memórias favoritas são dela sozinha trabalhando, costurando madrugada adentro, em transe. Era muito louco ver Kimie singular, imersa no seu processo, no escuro, no silêncio. Esses momentos de contemplação da independência/refúgio dela me guiaram para a profissão e guiaram também o meu método de trabalho”, conta.

Vicenta Perrotta

Casa de Criadores: veja tudo o que rolou no primeiro dia da 49ª edição
Foto: Reprodução/Instagram/@vicentaperrota

A apresentação da Vicenta Perrotta uniu trabalhos construídos em outras coleções e collabs com artistas trans com o resultado da residência artística “Descobertas”, que aconteceu no Centro Cultural São Paulo e reuniu 14 costureirxs trans, com curadoria de Dudu Bertholini e produção do Ateliê TRANSmoras, Yris Franco e Corpo Rastreado. Tanto o projeto quanto as coleções anteriores abordam temas que se destacam na apresentação: a pedagogia do lixo (que dá ao descarte têxtil novas formas e funções), potência e autonomia.

Yebo

Criada em meio a pandemia, em agosto de 2020, a Yebo tem o objetivo de trazer o protagonismo feminino para o foco de suas peças, que conversam com perfeição com o streetstyle. Comandada por  Eliane e Domenica Dias, mãe e filha, a label tem como missão produzir trocas entre moda, música, teatro, cinema, luta e roa. A Yebo faz sua estreia na Casa de Criadores com um filme-desfile-manifesto que segue a temática “Pelo Direito de Brilhar”.