DESFILE-RITUAL: instalação que recebeu os convidados na apresentação da Givenchy, em Nova York - Foto: Ag. Fotosite
DESFILE-RITUAL: instalação que recebeu os convidados na apresentação da Givenchy, em Nova York – Foto: Ag. Fotosite

Por Luigi Torre

Acontece de tempos em tempos: a moda elege o termo que melhor a representa em determinado momento e o explora à exaustão. O mais recente? Chaos magic. E seus responsáveis são os mesmos do uma vez superpopular e já muito cansado normcore. “A expressão extrapolou seu próprio conceito”, escrevou a agência de pesquisa nova-iorquina K-Hole. “Para onde vamos a partir daqui? Qual é o próximo passo?” A resposta, bem, é mágica. Mas não no sentido místico à la Harry Potter. Quer dizer, pode ser, só depende de você. É que a expressão tem mais a ver com espiritualidade. Uma espécie de magia autossuficiente, algo semelhante a manifestações mentais ou, resumidamente, pensamentos positivos. O que faz muito sentido quando nada no mundo parece dar certo, quando Mercúrio vive retrógrado e tudo que seus amigos falam é em escapar para algum local remoto, se desconectar de toda e qualquer tecnologia e se reconectar com a natureza ou com seu verdadeiro eu.

“Chaos magic cria realidades temporárias e subjetivas”, escreveu a K-Hole em seu mais recente relatório.“Não é uma ferramenta para mudar os outros – é uma ferramenta para mudar você.” De acordo com tal postura, não é simplesmente acreditar em O Mito, é escolher acreditar em O Mito. É plantar sua própria comida, fazer seu próprio suco detox e decidir quão forte ou quão fraco ele será, quando tomar e quando parar. É escolher passar um fim de semana num retiro de meditação ou escolher virar noites na pista de dança. É complexo, é verdade, mas pode ser simples. São, basicamente, escolhas pessoais baseadas na sua própria e mais íntima vontade. É optar por aquilo que faz bem a você e só a você – e sem muita razão.

Gucci, verão 2016 - Foto: Ag. Fotosite
Gucci, verão 2016 – Foto: Ag. Fotosite

Assim, eles pensam que, em breve, começaremos a acreditar mais em nós mesmos. Vamos pensar de modo positivo, mas sem nos esforçar para tanto. E, com isso, poderemos vivenciar o mundo num nível mais profundo.“É sobre a experiência das pessoas. Em relação ao mundo, à espiritualidade, à ansiedade… Há esse movimento de nos voltarmos mais às emoções e não só às nossas ‘carteiras’. ”Estilistas mais sensíveis aos ares do tempo não tardaram a perceber os novos ventos de mudanças. Ainda que não total ou conscientemente conectados a tal linha de pensamento, é difícil não associar o otimismo espiritual da pesquisa da K-Hole com alguns acontecimentos recentes na moda. A revolução de Alessandro Michele na Gucci, por exemplo, sempre citando a importância das memórias pessoais e da história na construção de suas coleções. Ou a estreia de Nicolas Ghesquière na Louis Vuitton, em 2014, com uma carta pessoal e emotiva.

Mais recentemente, temos ainda o desfile-performance da Givenchy, em Nova York, com direção artística de Marina Abramovic, apresentado na semana de moda – uma verdadeira homenagem espiritual à paz e à convivência harmônica, independentemente de crença, raça e origem.Talvez a melhor tradução e expressão da positividade-tendência da próxima estação. Sim, otimismo virou tendência. Mas, ao mesmo tempo, roupa, assim como tudo que envolve nossa aparência, sempre foi fundamental no modo como nos sentimos. E nesse momento pode-tudo, a ideia (por mais maluca que soe) é pertinente. Afinal, quando surgiu, o normcore também parecia apenas conversa marqueteira, até que nos pegamos vestindo (ou desejando) o mesmo casaco bege, o cashmere cinza e o jeans lavado.

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